Segunda Guerra Mundial. As forças do eixo enfrentam os Aliados. O cenário que se vê é coberto por uma espessa camada acinzentada. Quadro a quadro, o desenho basicamente não muda. Bombas, destruição e morte. Os diálogos são poucos, as ações violentas, abundantes. Virando a página, geograficamente distante deste contexto negro da história, mas diretamente ligado aos interesses de um dos Aliados, um personagem fictício das histórias em quadrinhos começa a ganhar vida na mente do americano Walter Elias Disney: o papagaio Zé Carioca.
Chocando o ovo
O papagaio malandro, estereótipo do brasileiro na visão ianque, foi concebido durante este período conturbado que os Estados Unidos enfrentavam na década de 40. Com o objetivo de consolidar a presença norte-americana na América Latina através do estreitamento dos laços políticos (apoio à guerra), comerciais e culturais, o presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt, sugeriu o nome de Disney a Nelson Rockefeller, diretor da Secretaria para Assuntos Interamericanos (OCIAA - Office of the Coordinator of Inter-American Affairs), para integrar a lista de pessoas influentes que visitariam os países sul-americanos.
Nesse jogo de interesses, onde todos querem um pedaço do queijo e colocando em prática a “Política da Boa Vizinhança”, o “pai” do camundongo mais famoso do mundo chega ao Brasil, de sembarcando no Aeroporto Santos Dumont, na cidade maravilhosa, ninho onde mais tarde nasceria o célebre pássaro tagarela. Durante sua visita, Disney conheceu o universo do personagem: o Pão de Açúcar, o Cristo no alto do Corcovado, as pedras portuguesas de Copacabana, a “Aquarela do Brasil” e o jeito malandro de ser do carioca, tudo o que logo depois serviria de cenário para o filme Alô Amigos! ( Saludos, Amigos 1943).
Quebrando a casca
Após a turnê pela América do Sul, Disney retorna ao EUA e juntamente com sua equipe de desenhistas, cria vários personagens para os países visitados. Surgem então: O Gauchinho Voador para a Argentina, Panchito para os vizinhos mexicanos, e o representante oficial da nação tupiniquim, Joe Carioca, o Zé Carioca no Brasil, nome concebido por ser comum nos países sul-americanos.
A ave tipicamente brasileira realmente ganhou vida em 1943, quando estreou o filme Alô Amigos! ( Saludos, Amigos ). O longa de animação apresenta o papagaio Zé Carioca com o visual inspirado no típico boêmio dos anos 40 (de chapéu, gravatinha borboleta e guarda-chuva), levando o Pato Donald para um passeio pelas ruas e clubes da cidade do Rio de Janeiro. Tudo isso ao som de um clássico da música brasileira, Aquarela do Brasil . Dois anos depois Zé Carioca pousa em outra obra da Disney, Você já foi à Bahia? ( Los Três Caballeros) , onde o papagaio convida o seu amigo Donald a visitar as belezas do Brasil. Juntos os dois filmes compõe uma verdadeira lição de como criar uma política de boa vizinhança.
Voando longe
O personagem mais brasileiro do mestre da animação voa das telas do cinema e faz morada em outro cenário. Pelas mãos do desenhista Paul Murry, as histórias do papagaio malandro começam a ser publicadas em forma de tirinhas nos jornais até o fim da Segunda Guerra. Já nos anos 50, Zé Carioca faz sua estréia no universo dos quadrinhos - as HQ's - pela também estreante Editora Abril, que começava sua produção nacional com a utilização dos direitos de Walt Disney, publicando a revista número um de Pato Donald.
Periodicamente as aventuras do papagaio dividiam o espaço na revistinha do patinho americano, mas em 1961, Zé Carioca estampava a capa da edição número 479, inaugurando um título inteiramente próprio. A partir deste número, Pato Donald alternava semanalmente com Zé Carioca . Depois de certo tempo, as histórias do papagaio se esgotaram, já que a revista era suprida pelas tiras de tablóides dominicais americanos.
Jeitinho Brasileiro
Quando já não havia material disponível para publicação, a Editora Abril, descartando a hipótese de cancelamento da HQ, começou a fazer adaptações inusitadas de histórias vividas originalmente por Mickey e Donald para o contexto do papagaio carioca e isso acabou gerando um Zé Carioca com comportamentos totalmente diferentes de sua concepção inicial. Por um período a revista se apresentou desta forma, porém, anos mais tarde, as histórias passaram a ser inteiramente produzidas no Brasil.
A partir daí as aventuras do personagem se tornaram mais brasileiras do que nunca. Elementos da cultura e das paisagens cotidianas são inseridos nas páginas coloridas da revista. As características marcantes do verde louro personagem - folgado, malandro, “trambiqueiro”, paquerador - se definem principalmente na versão brasileira do gibi.
O que inicialmente foi concebido como uma suposta medida política de boa vizinhança ganhou asas que voam até hoje. Não com o vigor de um jovem pássaro, mas com o mérito de se manter vivo e rendendo frutos, ou melhor, “verdinhas”. |