Área de Segurança Gorazde: A guerra na Bósnia Oriental 1992-1995, de Joe Sacco; (Editora Conrad; R$ 37).
Gorazde é uma cidade que sobreviveu a guerra contra os mulçumanos no oriente da Bósnia, uma brutalidade que aquele jamais vira antes. Joe Sacco, principal nome do "jornalismo em quadrinhos”, descreve a história em seu livro Área de Segurança Gorazde: A guerra na Bósnia Oriental 1992-1995.
A história verídica é relatada de uma forma emocionante e envolvente, que conquista a atenção do leitor pela a criatividade de expor a história em forma de quadrinhos. Joe Sacco visitou a Bósnia quatro vezes entre o final de 1995 e o começo de 1996. Lá conheceu Edin, um sobrevivente da guerra, que se tornou seu intérprete e guia. Com ele, Sacco conheceu vários sobreviventes, obteve depoimentos, conheceu a história do conflito e fez uma amizade espetacular.
Enredo
Tudo começou após a Segunda Guerra Mundial, quando a moderna Iugoslávia foi reformulada o pelo Líder comunista Josip Broz,(conhecido como Tito). Ele criou seis repúblicas, dentre elas a Bósnia era a mais diversa etnicamente, possuindo uma grande população composta por Croatas, Sérvios e Mulçumanos. Por serem eslavos do sul, falavam a mesma língua e as únicas diferenças eram as religiosas. Os Croatas são católicos e os Sérvios cristãos ortodoxos.
Mais de meio milhão de pessoas viviam no Vale do Drina. Destes, 51,7% eram mulçumanos e 44,4% eram sérvios. No distrito de Gorazde, a população era de 70,2% de mulçumanos e 26,2% de sérvios, mas na própria cidade Gorazde, 9.600 mulçumanos viviam ao lado de 5.600 sérvios.
A política de Tito era “irmandade e unidade”. O significado era abafar quaisquer sinais do nacionalismo étnico entre os diferentes povos iugoslavos. Croatas, sérvios e mulçumanos viveram juntos por meio século, depois da sangria entre eles na segunda guerra, quando milhões de iugoslavos morreram na mão de outros iugoslavos.
Período Pós-Segunda Guerra
Pouco mais de uma década após a morte de Tito em 1980, a Iugoslávia começou a se despedaçar. Slobbodan Milosevc, o homem que se tornaria o presidente sérvio, encorajou o nacionalismo sérvio e usou o sentimento de vítima para consolidar seu poder na Sérvia e estender sua influência sobre os sérvios que viviam nas outras repúblicas.
Com uma série de intrigas políticas Milosevc exerceu ilegalmente a autonomia das províncias sérvias de Kosovo e Vojvodina e tomou para si os votos da presidência da Iugoslávia, mudando todo o sistema deixado por Tito.
Em 1991 uma guerra foi travada brutalmente na Croácia quando uma minoria sérvia cujos interesses e irritabilidade foram chutados pela liderança croata. Milosevc os apoiava essa minoria e tinham também o apoio das armas pesadas do EPI (Exercito popular da Iugoslávia). No território conquistado, os sérvios se livraram brutalmente dos Croatas.
Os sérvios acreditavam que estavam se precavendo da sua própria eliminação e se consideravam o ressurgimento de um estado Ustasha. Seus lideres nacionalistas se valeram dos massacres étnicos do passado para alimentar de um novo ciclo de violência étnica e despedaçar a idéia de “Irmandade e unidade” para sempre.
Foi a partir daí que a população da Bósnia começou a se preocupar. Em 1990 numa primeira eleição livre no país os eleitores preencheram suas cédulas com candidatos étnicos, colocando três nacionalistas no poder. Cada partido formara um governo de acordo político, mas para diferentes fins.
Por ter acontecido uma “guerra” na Croácia, os sérvios começaram a estabelecer áreas autônomas, aumentando a tensão no país. As tensões étnicas aumentaram e Alija Izetbegovic, líder muçulmano, avisou que ninguém ia fazer o povo muçulmano desaparecer, aproveitando-se do fato de que eles não poderiam se defender no caso de uma guerra. E afirmou aos muçulmanos que poderiam ficar calmos porque não haveria guerra.
Todos ficaram sob alerta, mas mesmo assim, de noite militares sérvios e mulçumanos estavam armados e preparados para caso algo acontecesse. Todos pensavam e sentiam que havia perigo no ar. Bares começavam a ser freqüentados somente por mulçumanos ou sérvios.
Mas quando os conflitos se aproximavam, tudo mudou. Edin conta que, ao procurar saber se ele e um amigo sérvio se podiam se encontrar, recebeu uma recusa. Seu amigo temia que, se os demais sérvios o vissem com ele, os dois poderiam ser mortos. Desde então, todos começaram a se separar. Nos últimos dias antes da guerra não se ouvia nem mais um bom dia pela vizinhança.
A guerra estourou no noroeste da Bósnia, nas cidades de Bijeljina e Zvornik no início de abril de 1992.O governo Bósnio não estava preparado para uma guerra, e ainda foi atrapalhado pela ONU e seu embargo à antiga Iugoslávia. Os bombardeios sérvios a Sarajevo começaram, mas Gorazde continuava calma.
Não demorou muito para a cidade de Gorazde ser atacada, um massacre sangrento que jamais alguém soube com detalhes, mas que o livro procura esboçar. A história discorre com muitas batalhas, medo, força, morte, vontade de vencer.
Edin, que por muitas vezes esteve na linha de frente da batalha, conta o quão terrível foi passar três anos e meio passando fome, frio,sem energia, sem paz. Edin é muçulmano e sempre viveu no meio de sérvios, desde sua infância até na universidade (em Sarajevo). Sua vida inteira foi assim. Amigos sérvios iam a sua casa e ele freqüentava a deles e isso acontecia com praticamente todos de sua comunidade.
Sacco mostra magistralmente a garra de um povo que luta pra ser vencedor, em meio à catástrofe. Expõe o quanto é difícil viver em paz em meio a diversas culturas. E prova que a humanidade não precisa de uma guerra para separar classes, povos ou culturas. Não precisa exterminar jovens, velhos e crianças, para mostrar quem está no poder. O poder não se conquista com sangue, sim, com dignidade, sinceridade e honestidade. |