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Nós nas orelhas

Angélica Maffi

“Mais forte que o Incrível Hulk, mais gorda que um lutador de sumô, incomparavelmente dentuça. E simplesmente apaixonada por seu ursinho de pelúcia”. As descrições acima foram retiradas da última lista, revista e atualizada, das mil maneiras infalíveis de afrontar a Mônica. A personagem mais fofucha das histórias em quadrinhos.

A garotinha, usando sempre seu vestidinho vermelho, é afrontada diariamente pelo atrapalhado Cebolinha. Ele que está sempre à espreita de um descuido da “dona da rua”, espera uma chance de poder pegar seu coelhinho azul chamado Sansão.

Certa vez, Cebolinha ganhou do querido tio pescador um livro com os mais diferentes nós. “Mas como praticá-los?”, pensou. Hum... hum... claro! Porque não utilizar as orelhas fofas e macias do coelhinho da Mônica? Foi a partir disso que a mais brilhante trama infantil em quadrinhos baseia suas histórinhas.

Criados pelo artista Maurício de Sousa, Mônica e sua turma agradam baixinhos e grandões nas mais divertidas e publicadas enrascadas. Os personagens são moradores de um bairro fictício na cidade de São Paulo, o bairro dos Limoeiros. Cenário perfeito para o desenvolvimento de planos infalíveis, “coelhadas” e invenções mirabolantes como a máquina de fazer o Cascão tomar banho. Ou o antídoto de mudar a cor verde do cachorrinho do Cebolinha. Ou ainda um anzol invisível para a grande caçada ao coelho azul.

Mas não pense que por ser forte e corajosa, Mônica está sozinha contra as ameaças e planos infalíveis. Assim como o Cebolinha conta com seu melhor amigo Cascão, ela tem a dona do vestidinho amarelo, Magali, ao seu lado. Embora esta, por sua vez, esteja mais preocupada com o cardápio e suas comilanças, mesmo assim ajuda no que a dentucinha precisar.

Fábrica de desenhar

O processo de criação dos personagens começou por volta dos anos 60. Maurício encantava-se desde criança por desenhos. Trabalhou por cinco anos como repórter policial, mas viu que sua realização estava nas histórias em quandrinhos.

A princípio a turma se chamava Turma do Cebolhinha. A trama girava em torno do personagem com cinco fios de cabelo e uma mente genial ao arquitetar planos. Seu rival, um vizinho chamado doutor Louco. Este vivia cercando a turminha com seus experimentos.

Com o tempo, o artista percebeu uma necessidade de enriquecer suas histórias seguindo sempre uma lógica: Cebilinha arquiteta os “planos infalíveis” contra a valente Mônica. Cascão, o menino que nunca tomou banho na vida, segue os projetos do amigo, mas sempre dá um jeitinho de se sair bem das “coelhadas”. Magali dona de um gatinho chamado Mingau, atua como coadjuvante da personagem Mônica, e destaca-se pela fome. Qualquer guloseima para essa baixinha é aperitivo.

O interessante nessa “história” de histórias, são as maneiras com que a criação tomou forma. Maurício usou muito de sua própria personalidade e gostos ao desenvolver a turminha. Ele usa da homonímia com suas filhas. Isso é o processo de escrever o nome das personagens de mesma forma. Um exemplo é a personagem Maria Cebolinha, a irmã do Cebolinha. Um bebê cujas histórias são mais voltadas ao público de 0 (zero) a 6 (seis) anos, faz menção à Mariângela, filha de Maurício.

Já o Cebolinha, foi inspirado em um conhecido de sua cidade, Mogi das Cruzes. E a Magali faz referência a outra filha do autor.

Entreterer o público infantil e ter conseguido tornar a infância de muitos adultos em uma aventura indubitavelmente é o maior troféu que Mauricio carrega.

Em meio ao contos, sejam eles de vitórias, sejam eles de estratégias, sejam eles meramente descritivos, acalenta em nós leitores uma saudade gostosa. Tempos em que poderiamos morar dentro de um espelho, ou num parque de diversões. Quem nunca sentiu vontade de experimentar a melância que a Magali carrega e fora sempre desenhada.

Até mesmo os mais distraídos, ou digamos, atraídos por histórias de super-heróis sabem que para o Cebolinha, “calo” é um automóvel e não uma coisa que as vezes “dá” no pé. Sabem também que em dia de chuva o máximo que o Cascão se aproxima da rua é debaixo da cama.

É intrigante perceber que histórias saudáveis sejam tão bem recebidas ainda em nosso tempo. Tiras, cartuns, almanaques, gibis, e o mais diverso universo de impresssos trazem em suas letras o encanto. Não negue a si mesmo o prazer de desejar praticar “nós em orelhas”. Aventure-se pelas histórias em quadrinhos.