home |
 

Infância distinta

Thaísa Elis

Uma menininha esperta e sapeca completará 42 anos de idade no próximo mês de setembro. Mafalda, uma criação do cartunista argentino Quino, é uma garotinha espevitada que assim como toda criança de sete anos gosta de brincar, dançar, pular e ainda possui a preferência por ouvir as músicas dos Beatles.

Ela tem consciência das injustiças e maldades do mundo que vive, e sem papas na língua está sempre questionando os adultos e incentivando seus pais a serem sonhadores e idealizadores por um mundo melhor.

Ao criar Mafalda, Quino fez uma alusão à realidade de uma criança normal, família classe média que sonha em fazer do universo real em que se encontra um lugar melhor e mais justo para se viver. Contudo, mudanças exigem esforços e sacrifícios não muito fáceis de serem feitos. Também é necessária uma mobilização de pessoas por um mesmo objetivo. Para mudar o mundo é preciso mudar os ideais e atitudes de muitos que se acomodam na situação medíocre de suas vidas.

Mafalda tenta realizar essa mudança na vida de seus pais e seus amigos, porém tem pouco êxito em seu trabalho. As pessoas ao seu redor já se acostumaram com o óbvio e passaram a aceitar tudo que a vida oferece, seja isso bom ou ruim. Não importa qual seja a situação, o que importa é continuar na mansidão e acomodação.

Assim como nas tirinhas ilustrativas, na vida real tudo é muito parecido com o mundo de Mafalda, principalmente com relação às metas traçadas pelas pessoas na sociedade em que vivem. Uma criança até sonha, idealiza e tenta mudar o mundo. No entanto, quando começa a crescer, vai desistindo de seus sonhos, passa a se acomodar e quando menos espera já está vivendo no caótico mundo dos adultos, o mundo em que “tudo ou nada estão bons”.

Não há mais perspectivas de melhoras, tampouco de lutas pelos ideais e assim como a infantil Mafalda colocava o globo terrestre de cabeça para baixo, é da mesma forma que o mundo se encontra hoje, sem expectativas de crescimento e progresso.

E se o mundo continuar nessa situação? Mafalda já não está mais com tanto pique para questionar os acontecimentos, afinal ela já tem 40 anos de idade, não consegue incentivar as pessoas com o mesmo ânimo de quando tinha sete.

Outro personagem precisa entrar em cena para mudar essa situação. A sociedade precisa da ajuda do “Homem Estupendo” e seu fiel amigo Haroldo.

Calvin e Haroldo

Calvin também é uma criança, e tem seis anos. foi criado pelo americano Bill Waterson em 1985. As atitudes tomadas por ele são aquelas que muitos pensam em fazer, no entanto não fazem por medo de serem mal vistos perante a sociedade.

Ele tem preguiça de ir dormir, odeia perder nos jogos e imagina situações bizarras a todos os momentos. Sua maior luta é contra a “tirania opressora” de seus pais. Quando está sozinho com Haroldo, seu tigre de pelúcia, esse ganha vida e ambos aprontam todas as “malandragens” típicas de crianças. Calvin usa sua imaginação e se transforma em suas brincadeiras criando personagens como o Cosmonauta Spiff, O Homem Estupendo e Tiranossauro Rex.

Os pais do garoto são tão imperfeitos quanto ele, com a diferença de que já são adultos. O pai é alguém calmo que devido ao trabalho, não possui muito tempo com a família. Já a mãe do menino é impaciente, tem voz ativa em casa e precisa lidar com os ímpetos criativos da criança. No entanto, a única pessoa que consegue controlar Calvin é sua babá, a jovem Rosalyn, que endireita até mesmo os pais da criança.

Calvin ironiza e é sarcástico em relação aos costumes e crenças americanas. Assim como Mafalda, ele tenta mudar o mundo, mas é apenas uma criança hiperativa, a qual os pais não sabem como lidar com seu problema ou tampouco com suas fantasias. Na realidade, preferiam mesmo que ele fosse como as demais crianças de sua idade para não terem problemas com ele e com sua educação.

Assim são muitos pais hoje, ignoram seus filhos e seus sonhos por falta estrutura psicológica para entendê-los. É mais fácil sufocar suas fantasias do que tentar torná-las reais. Os adultos são medrosos e fracos quando se trata de idealizar uma vida mais digna, e por isso pecam em vários sentidos da vida.

As pessoas existem para conquistarem objetivos e não se conformarem com aqueles poucos que geralmente alcançam. Por isso é que todos deveriam encarar as dificuldades com olhos e mente de uma criança, seja ela a argentina Mafalda ou o americano Calvin.