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Menina não entra

Cígredy Neves

Uma garota comum com cerca de nove anos. Inteligente, bonitinha, teimosa, que gosta de fazer chás de bonecas com a amiga Aninha, mas que adora disputar com os meninos mostrando que é mais esperta que seu amigo Bolinha. Gosta de fazer investigações, contar historinhas a Alvinho – nas quais ela é sempre a heroína mesmo sendo a “pobre menininha” – e brincar com os outros de sua turma.

Estas são as características da Little Lulu (Luluzinha), personagem criada pela norte-americana Marjorie Henderson Buell, mais conhecida como Marge. Ela é uma das primeiras mulheres na profissão de cartunista e baseou-se na sua própria infância para contar as histórias.

A personagem, em traços simples e cores suaves, estreou no jornal Saturday Evening Post , em fevereiro de 1935, no formato de gag cartoon (piada curta e rápida), com apenas um quadrinho. O roteiro tinha como base o contexto no qual viviam as crianças de oito a dez anos dos anos 40 e 50. A série evoluiu para o formato de tira e, dez anos após a sua criação, ganhou seu próprio gibi. No Brasil, os primeiros quadrinhos foram publicados na revista O Cruzeiro e, por volta dos anos 90, ganharam seu gibi pela editora Abril.

O sucesso de Lulu levou-a para as telinhas. A série foi transmitida em 1943, e novos episódios foram criados em 1995, transmitidos até os dias atuais no canal a cabo HBO. Marge desenhou as tiras de jornal até 1947. A partir deste ano, artistas como John Stanley, Irving Tripp, Del Connel, dentre outros, deram continuidade ao trabalho, seguindo sempre o estilo da criadora.

Propaganda feminista

Aquela garotinha esperta que divertiu crianças de várias décadas, apresenta uma forte ideologia nas entrelinhas de sua personalidade. Ela remete ao feminismo, movimento que critica a desigualdade social dos sexos, além de promover os direitos das mulheres e seus interesses. Algumas feministas radicais lutavam pela separação completa, entre homem e mulher, na sociedade e na cultura.

Luluzinha, apesar de ter afeição por bonecas e coisas típicas que meninas de sua idade costumam fazer, revela um lado “revoltado” de sua condição como mulher. Ela é, nos desenhos animados, uma representante feminina que sempre combate o machismo dos garotos. Ela não aceita essa história de Clube do Bolinha, cujo lema é “menina não entra”. E, constantemente, entra em conflitos com os rapazes porque ela e suas amigas não participam das reuniões.

Este termo dado ao clube foi muito usado pelas feministas para criticar o sexo oposto e, atualmente é sinônimo de um grupo fechado de homens. A influência da personagem é tão grande que atingiu o universo musical. A Jovem Guarda criou a música A festa do Bolinha , popularizando ainda mais os termos separatistas: clubes do Bolinha e da Luluzinha.

Divertida e ingênua, pode ser. Mas uma coisa é certa: as histórias de Luluzinha e sua turma apresentam para a garotada uma forte ideologia feminista, independente e preconceituosa. Ela só pode ser discernida por olhos críticos e analistas, que não são exatamente comum aos dez anos, idade média do público-alvo.