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Histórias em Quadrinhos, uma apostila acadêmica?

Thiago Campossano

 

Alguma vez você já ouviu falar de pessoas que se dedicam a estudar parques de diversão? Como são os brinquedos, o tipo de pessoa que usa cada um deles, onde foi inventado e tudo o que existe num parque? Talvez essa idéia soe estranha pelo fato de se tratar de algo para o entretenimento, mas um parque de diversão também tem outras finalidades. Sem entrarmos na questão de quais são essas finalidades abrimos as cortinas para a entrada do objeto de estudo do Canal nessa edição: as Histórias em Quadrinhos!

Provavelmente ao falarmos “Histórias em Quadrinhos” venha a sua mente a mesma palavra usada para definir um “parque de diversão”, entretenimento. Contudo, entrevistamos o fundador e coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos (NPHQ) da USP, o doutor Waldomiro Vergueiro para entender questões adicionais sobre as HQ's.

Waldomiro Vergueiro é Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, onde é professor associado e chefia o Departamento de Biblioteconomia e Documentação. Dentre outras várias atuações está a de organizador do livro Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula.

Em relação ao significado das HQ's na sociedade, Vergueiro afirma que elas fazem parte do inconsciente coletivo e alimentam o conceito de fantasia e os mitos que estão por trás do mundo moderno. Vergueiro também acredita que HQ's podem ser utilizadas de forma inteligente em sala de aula ajudando na visão crítica da linguagem quadrinística de todos os produtos com que a criança irá se deparar durante a vida.

Canal da Imprensa - Como surgiu a idéia da criação de um núcleo de pesquisas em histórias em quadrinhos?

Waldomiro Vergueiro - O Núcleo surgiu em 1990. Nós éramos em 3 professores aqui na Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA), trabalhando com histórias em quadrinhos, em departamentos diferentes. Então decidimos nos juntar e criar o Núcleo como um espaço de pesquisa e estudos em quadrinhos. Nos formalizamos junto à escola e eu fui indicado como coordenador. Continuo até hoje trabalhando com alunos, colegas de outras escolas e de outros departamentos. E o objetivo é proporcionar um espaço de discussão e pesquisa permanente sobre histórias em quadrinhos e assuntos correlatos.

C.I. - Quais as diversas categorias das HQ's e seus respectivos públicos?

W.V. - Nós temos as revistas periódicas - os tradicionais gibis - que têm como público preferencial o jovem ou adolescente e também a criança. Existe uma parcela desse segmento de revistas que também vai atingir o público adulto, são as grafic novels , que são histórias fechadas. Essas revistas surgiram na década de 1990. São mais ou menos próximas às revistas, mas não têm uma periodicidade permanente. A gente chama de romances gráficos. É como se fossem livros na linguagem quadrinizada. Existe também a grande publicação de revistas em jornais como tiras e páginas dominicais. Elas, na verdade, foram o berço das histórias em quadrinhos.

As revistas periódicas geralmente são editadas com histórias de super-heróis e de aventura, as de jornal com material humorístico e as grafic novels são bem mais amplas. Basicamente contêm histórias com forte teor erótico, ficção científica e violência.

C.I. - Quais fazem mais sucesso e por quê?

W.V. - Das histórias em quadrinhos publicadas no mundo ocidental as que fazem mais sucesso são as de super-heróis. Isso se dá em função da estrutura de produção e divulgação que elas têm. Você tem o personagem que sai na revista e depois se transforma em desenho animado, depois em filme de longa metragem, depois em bonecos, depois em jogos e o circuito vai se realimentando. Isso faz com que os super-heróis tenham um impacto muito forte na indústria e por isso são as que mais atraem o público leitor.

No mundo oriental existe o fenômeno dos mangás que também obedece às mesmas regras do mundo ocidental em relação aos super-heróis, mas com temáticas diferentes. São histórias de fantasias, ficção científica, românticas, etc. Elas também têm uma indústria que depois vai para desenho animado, filmes e assim por diante.

C.I. - Qual a diferença dos mangás com as histórias tradicionais?

W.V. - Há uma diferença de modelo editorial. A grande produção ocidental é feita com finalidades de perpetuação, ou seja, enquanto houver interesse na figura do personagem a revista vai ser publicada. Já o mangá começa com a idéia de um ciclo. Faz-se uma determinada saga com proposta de começo, meio e fim. Eventualmente o sucesso do personagem pode fazer com que a saga se multiplique e na prática você obtenha o mesmo resultado de perpetuidade presente nas histórias em quadrinhos do modelo ocidental. As temáticas de ponta dos mangás são a aventura, o mundo da fantasia, as lutas marciais e os fatores mitológicos que atingem principalmente os jovens do sexo masculino.

São dois modelos industriais que estão em disputa constante. No momento, por características de público, de consumo, de disponibilidade e oportunidade dos leitores adquirirem os materiais parece que a indústria dos mangás está em predominância. Mas é apenas uma luta entre duas indústrias. Não existe nada intrinsecamente superior em termos de qualidade do mangá em relação ao modelo ocidental.

C.I. - Analisando alguns personagens da Marvel nota-se uma forte conexão com momentos históricos da humanidade. Em sua opinião qual deles mais retrata a realidade?

W.V. - Eu diria que os personagens mais violentos são aqueles que mais retratam a realidade. O Wolverine, o Justiceiro, que são aqueles que retratam um momento de extrema violência no mundo. Tem também os X-Men que retratam a questão do preconceito. Desde o início, com o trabalho do Stan Lee - criador do Quarteto Fantástico, a Marvel sempre teve uma preocupação de fazer essa relação entre o que o leitor vivia e o que era apresentado nas histórias em quadrinhos. A gente vê isso no Homem Aranha, no Huck, no Quarteto Fantástico, no Capitão América e assim por diante.

A figura do super-herói tende a ser destacada após momentos de crise. Você vê que o grande sucesso de filmes de super-heróis ocorre a partir de 2001 com a queda das torres gêmeas nos Estados Unidos. Então a gente poderia fazer essa ligação do momento de fragilidade que o mundo ocidental enfrentou de 2001 pra cá com o fortalecimento da figura dos super-heróis principalmente na área cinematográfica. Isso ocorre também em função do desenvolvimento da tecnologia que permite que o super-herói seja retratado de uma maneira muito mais fidedigna do que antes.

C.I. - Qual a influência das HQ's na sociedade?

W.V. - As HQ's fazem parte do inconsciente coletivo e alimentam o conceito de fantasia e os mitos que estão por trás do mundo moderno. Os super-heróis resgatam alguns elementos mitológicos e trabalham essas questões no inconsciente dos leitores.
 
As HQ's têm uma influência maior no período de formação do indivíduo – um período que vai da adolescência até a introdução a idade adulta. Depois essa influência continua, mas num nível menos intenso. Então eles têm uma influência constante e vão ajudando a moldar a personalidade dos leitores. Logicamente que as histórias em quadrinhos não são a única influência que os leitores têm, mas elas colaboram nesse sistema geral de influência.

C.I. - Como funciona o mercado e a produção das HQ's no Brasil?

W.V. - No Brasil existe uma forte produção infantil brasileira praticamente pelo Maurício de Sousa, que tem predomínio no mercado. Ele conseguiu criar um esquema de produção industrial que dá conta das necessidades do mercado e tem uma produção muito forte. E isso, de certa forma, inibe o aparecimento de outros autores. Na produção para o público adolescente existe o predomínio dos quadrinhos de super-heróis da Marvel e da DC , que são importados. Então essas são as duas grandes áreas de produção industrial no país que estão respectivamente cobertos pelo Maurício de Sousa e pela produção industrial norte-americana. Atualmente essa indústria tem sofrido a influência dos mangás, que já representa uma boa parte da produção editorial no país.  Existe ainda um segmento bem menor, mas em crescimento, que é o segmento para adultos. Ele é preenchido com publicações do exterior e algumas feitas aqui no Brasil.

C.I. - A criação de novos personagens parou ou não alcança sucesso?

W.V. - Os personagens estão surgindo a todo o momento. O problema é que nem sempre conseguem espaço para serem vistos. Não conseguem visibilidade no meio de tantos. A gente vive um momento em que há muita variedade de títulos nas bancas.

C.I. - As HQ's podem ser utilizadas como meio de conscientização sobre fatos sociais? Cite exemplos.

W.V. - Sim. Com certeza! Você tem vários exemplos onde as histórias em quadrinhos são usadas como elementos para a conscientização da cidadania. Em épocas de eleição existem cartilhas que ensinam as pessoas como votar. Em campanhas de conscientização sobre questões de saúde pública existem histórias em quadrinhos dando dicas sobre cuidados com a dengue, cuidados com a AIDS, uso de anticoncepcionais, de camisinha e tudo mais. Então as histórias em quadrinhos são uma linguagem muito propícia para esse tipo de utilização.

C.I. - Quais as diferenças entre as HQ's de entretenimento com as de conscientização?

W.V. - Primeiro você tem que pensar que não existe história em quadrinho inocente. Mesmo a história em quadrinhos que é feita pra entretenimento está passando uma determinada mensagem que pode ser entendida positiva ou negativamente pelo seu público. Ela pode reforçar determinados valores, por exemplo. E as HQ's feitas industrialmente normalmente têm essa tendência e podem criar preconceitos e tudo mais.

As HQ's de conscientização se colocam em busca de um determinado objetivo. Não existe uma superioridade entre as duas. A superioridade está na utilização eficiente dos quadrinhos. Você pode ter uma história em quadrinhos produzida com fins utilitários muito bem feita em termos de utilização dos recursos da linguagem. E você pode ter uma com fins de entretenimento extremamente pobre e que absolutamente não consiga ser um produto minimamente atrativo para o leitor.

C.I. - De que maneira as HQ's podem influenciar positivamente na educação infantil?

W.V. - Eu acho que elas podem influenciar no sentido de serem mais um instrumento para a fixação de conteúdos. Elas podem, por exemplo, ser utilizadas em sala de aula de maneira inteligente pelo professor. Podem ajudar a desenvolver o próprio ensino da linguagem dos quadrinhos. A familiaridade da criança com os quadrinhos pode ajudá-la, quando for adolescente ou adulto, a ter uma melhor percepção das mensagens que são veiculadas pelas histórias em quadrinhos. Pode ajudar a compreendê-las e realizar uma leitura crítica da linguagem quadrinística de todos os produtos com que vai se deparar durante a vida.