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Vingadora sagrada

Andréia Moura

Guerreiros “ultra” poderosos, trama cheia de mistérios e segredos, um panteão de deuses, alguns renegados, vilões malignos dominadores de grande magia, dragões, heróis e é claro, uma espada sagrada super-mega-poderosa. Enredo digno de qualquer jogo de RPG ou qualquer mangá japonês. Mas, por incrível que pareça essa história não é obra de conhecidos mestres da arte RPgistas, nem de experts desenhistas japoneses, esse é o enredo de uma produção estritamente brasileira que tem feito grande sucesso. Holy Avenger tem os elementos necessários para despertar a curiosidade, a adrenalina e deixar o leitor na constante expectativa típica de histórias em quadrinhos.

A história de Holy Avenger foi criada em 1998 por Marcelo Cassaro, Rogério Saladino e JM Trevisan. Nessa época Cassaro era editor da revista Dragão Brasil , da editora Trama. Ele já havia trabalhado nos estúdios de Maurício de Souza e na Editora Abril Jovem. Em suas mãos a Trama estava alcançando sucesso em diversos quadrinhos nacionais que, inclusive, tinham textos escritos por ele. Inicialmente Holy Avenger foi publicada como uma aventura do jogo de RPG Tormenta . Aventuras, ou campanhas como os RPGistas as denominam, são os novos desafios criados para a partida de RPG. A aventura Holy Avenger foi publica em três números seguidos da revista Dragão Brasil e fez sucesso inacreditável com o público. A partir de então começou a ser cogitada a possibilidade de transformar a aventura em uma história em quadrinhos específica.

Em 1999, com textos de Cassaro e desenhos, em estilo mangá, de Erica Awano, a revista estourou nas bancas. Com uma junção de fantasia, ficção científica e RPG a história conquistou um público fiel. Os desenhos, muito bem feitos, assumem algumas características típicas de mangá, como tornar os personagens crianças em cenas cômicas e utilizar um pouco de sensualidade. Sem cair na vulgaridade. Em alguns dos capítulos são feitas brincadeiras através de alusões visuais a alguns personagens conhecidos do mundo anime.

A história começa quando Lisandra, uma jovem druída (sacerdotisa de deuses) criada por animais na ilha pré-histórica Galrasia, vai, pela primeira vez, visitar a capital do reino, Valkaria. Lisandra tem poderes mágicos de cura e conversa com os animais. Ela desconhece qualquer coisa sobre seus verdadeiros pais. A única pista é um bracelete de ouro que leva em seu braço esquerdo. O objetivo da visita a Valkaria é encontrar um renomado ladrão conhecido como Galtran. Na viagem Lisandra acaba sendo presa e seu primo, um lobo que a acompanhava, é morto. Na prisão ela conhece Sandro Galtran, que se apresenta como Galtran, mas que na verdade é filho do grande ladrão e sonha em se tornar um profissional da estirpe do pai. Apesar da herança genética, ele é muito atrapalhado e não consegue roubar nada direito. Sandro ajuda Lisandra a sair da prisão e descobre que ela deseja conseguir os vinte rubis da virtude.

Esses rubis pertenceram a Paladino, o maior herói já visto no reino. Ninguém nunca soube seu nome ou viu o seu rosto. Sua armadura, de ouro, tinha os vinte rubis da virtude incrustados nela. Paladino era invencível, mas em uma difícil batalha, por um motivo inexplicável, foi derrotado e os rubis se espalharam por todo o território do reino. Lisandra encontra o corpo do herói semi-morto e o leva para Galrasia. Sua intenção é conseguir os vinte rubis para que Paladino volte à vida. Ela acha que está apaixonada pelo herói sem rosto.

Sandro apaixona-se por Lisandra e começa a ajudá-la nesta busca pelas pedras. Depois de conseguir a primeira pedra Lisandra retorna a Galrasia para cuidar de Paladino. Sandro continua a busca e em uma de suas empreitadas para conseguir os rubis conhece Niele, uma maga elfa que usa apenas tiras de couro para cobrir seu corpo. Niele, encantada pelo rapazinho, resolve ajudar na busca de Lisandra. Ao mesmo tempo Lisandra reencontra seu pai adotivo, um dragão anão chamado Tork. Ele é muito fedorento e gosta de beber, mas com muita insistência concorda em ajudar Lisandra a encontrar os rubis.

O problema é que, na verdade, Lisandra está enfeitiçada por Sszzaas, o deus-serpente, que, se utilizando da lealdade de alguns serviçais como Nekapeth, desenvolve um plano maligno para destruir todo o reino. Nekapeth se une a Mestre Arsenal, outro vilão da história que possui todo sortimento de armas imagináveis. O plano dos vilões é fazer com que Lisandra encontre as pedras e transforme Paladino novamente no maior herói do reino. Torna-lo uma máquina invencível que só poderia ser detida pelos deuses. Para que os deuses destruam Paladino é preciso unir seus poderes, assim teriam que aceitar novamente no panteão Sszzaas, que havia sido expulso dali.

Nesta busca pelas pedras, Lisandra se torna obcecada, as vezes é tomada por ataques de violência e comete atos brutais. Por isso acaba perdendo a maioria de seus poderes. O objetivo de sua vida se tornou Paladino. A única maneira de quebrar o encanto é encontrando o amor verdadeiro. Depois de muitas peripécias e reunindo algumas personalidades locais, grandes magos e mercenários, o grupo finalmente consegue unir os vinte rubis. Descobrem então que Paladino é um traidor e que Lisandra terá que matá-lo. Ela também descobre que é filha de Mestre Arsenal. O vilão lhe entrega então a espada sagrada que pertencia a Paladino, Holy Avenger. Ao mesmo tempo Sandro se declara e finalmente a liberta do feitiço.

Depois de uma luta cinematográfica Lisandra e seus amigos finalmente derrotam Paladino. Sandro se casa com ela e todos vivem felizes enquanto cumprem, em regime domiciliar, as penas que lhes correspondem pelos crimes cometidos antes e durante o processo de busca pelos rubis.

A história foi publicada em 42 capítulos. O sucesso foi tão grande que os primeiros números da revista estão esgotados há algum tempo. A princípio, o nome da história foi questionado. Porque em inglês? Mas a explicação é simples. Essa é uma referência que homenageia a primeira grande aventura de RPG do mundo, Dungeons and Dragons. As espadas usadas pelos paladinos, guerreiros santos do jogo, recebiam esse nome, que quer dizer “vingadora sagrada”.

Traição, romance, ilegitimidade, amizade, magia, guerras e armas. Elementos rudimentares, mas essenciais para a criação de uma boa história seja neste mundo ou em qualquer outro. A luta entre bem e mal é tema de enredos há séculos, mas já dizia o ditado escocês: “uma boa história jamais se gasta, por mais vezes que se conte”. A verdade é que Holy Avenger reúne, de maneira peculiar, esses recursos que transformam qualquer história em sucesso. Nada mais justo ter surpreendente número de vendas. Para os que ainda perguntam “pode vir alguma coisa boa do Brasil?”, aí está Holy Avenger.