Japão, década de 1940. Na cidade de Hiroshima, a família Nakaoka luta pela sobrevivência em um país conturbado onde a população é assolada pela fome e a miséria. A propaganda estatal pró-Segunda Guerra Mundial está em toda parte. Já faz algum tempo que o Império Nipônico decidiu entrar na guerra e mesmo assim, Daikichi Nakaoka, patriarca da família, não teme discursar seus conceitos pacifistas. Mas lutando sozinho contra um país persuadido pela publicidade do governo, ele logo foi preso acusado de traição ao imperador.
Rotulados como traidores, os Nakaoka não podiam comprar ou vender, sua plantação foi destruída e seus filhos molestados. Gen, Shinji e Eiko apanham constantemente do filho do presidente Ryukichi, e são estigmatizados por vizinhos, professores e autoridades. No entanto, mesmo marginalizado, Gen não se envergonha dos princípios do pai, acredita na integridade da sua família e não discrimina um vizinho coreano, considerado raça inferior pela sociedade japonesa.
6 de agosto de 1945, 8h45min. A guerra está no fim. O governo incentiva todos a manterem as atividades cotidianas. Mas de repente se ouve um alarme indicando a aproximação de um avião inimigo. É um B-29, batizado de "Enola Gay", pilotado por Paul Warfield Tibbets Jr. Do avião, é lançada a primeira bomba atômica, chamada "Little Boy", sobre um alvo humano. Instantaneamente, os prédios desaparecem junto com a vegetação. Num raio de dois quilômetros do centro da explosão, tudo fica destruído.
Gen é salvo por um incidente. Ele está no pátio da escola quando soa o alarme, e não tem tempo de correr para dentro do prédio. Com o impacto da bomba o muro cai sobre ele, salvando-o de um destino pior. A mãe, grávida de nove meses, também escapou por pouco da tragédia. Ela pendurava roupas no varal e foi protegida por uma parte do telhado da casa. O pai e dois irmãos não tiveram a mesma sorte, a casa caiu sobre eles. Gen e a mãe os viram consumir-se nas chamas, enquanto fugiam do local, por uma ordem do próprio pai agonizante.
A bomba com potência equivalente a 20 mil toneladas de dinamite matou instantaneamente 78 mil pessoas e outras 140 mil nos dias seguintes. As pessoas que estavam a um quilômetro da explosão morreram na hora, algumas tiveram seus corpos desintegrados. Gen e a mãe não sabiam o que havia atingido a cidade. Agora eles teriam que conviver com as conseqüências da arma nuclear: O calor intenso que derretia roupas e peles, incêndios causados pelos raios de calor e a chuva preta, oleosa e pesada, que caia durante todo o dia.
O cenário do dia 7 de agosto é devastador: a cidade totalmente destruída, pessoas literalmente derretendo ou se despedaçando, corpos espalhados por todos os lados, cadáveres sendo incinerados em pilhas, gente gravemente ferida sendo sacrificada, entre outras desgraças. Gen, com apenas seis anos faz o parto da irmã e encontra forças para ajudar a mãe a sobreviver aos horrores da catástrofe. Não havia comida e a água era suspeita.
Na tentativa de reconstruir a vida, eles recorrem a amigos em um vilarejo, mas são vítimas de preconceito e hostilizados. As coisas só pioram e Gen precisa sair às ruas em busca de trabalho. O menino-homem consegue ganhar algum dinheiro cuidando de um artista plástico, que sofre seqüelas da bomba atômica. Desfigurado e com queimaduras pelo corpo, o pintor é rejeitado pela família que lhe deseja a morte.
Esse é o enredo de Gen Pés Descalços , a saga de um menino que sobreviveu à devastação física e moral da explosão de Hiroshima. Uma história emocionante, trágica e verdadeira. Uma temática realista transmitida nos quadrinhos através do olhar e da percepção do então garoto de seis anos. A série de quatro volumes é uma autobiografia de Keiji Nakazawa e é considerada um clássico dos mangás - os quadrinhos japoneses que estão ganhando espaço no mercado brasileiro.
Nakazawa transmite uma mensagem sem ódio ou culpa. O objetivo dele é mostrar o horror da guerra, alertar as pessoas sobre o perigo da corrida armamentista, fazer o leitor chorar, se emocionar, refletir sobre os rumos que a humanidade está tomando. O artista não disfarça os fatos, pelo contrário, expõe a realidade, a radiação, o colapso social. A obra-prima da arte seqüencial consegue seguir a linha cômica dos mangás e ser expressivo nas cenas mais chocantes.
Os álbuns ganharam versões para cinema, desenho animado e ópera. Gen Pés Descalços foi o primeiro mangá a ser traduzido para o Ocidente e hoje está presente em mais de 10 países, com cinco milhões de exemplares vendidos. A coleção faz parte da bibliografia das escolas estadunidenses e japonesas, e no Brasil motivou eventos, palestras e seminários a respeito de conflitos nucleares. Ela foi tão indicada por professores, que chegou a conquistar o prêmio HQ Mix - maior premiação dos quadrinhos brasileiros -, como melhor álbum clássico.
Keiji Nakazawa saiu da tragédia para os palcos. Tornou-se um dos artistas mais aplaudidos do Japão. Transformou desgraça em história. Conseguiu pintar um relato extremamente forte com a leveza dos traços infanto-juvenis. Essa é a mágica dos quadrinhos: fazer do papel surgir a vida. |