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O vingador noturno

Larissa Garcia

Todas as formas de arte se enquadram no contexto histórico e social da época em que surgiram. Nem mesmo o mais inocente dos gibis escapa dessa regra. De fato, as ideologias e movimentos políticos têm uma forte influência sobre as histórias, que à primeira vista parecem ser apenas para crianças, mas também mexem com a imaginação dos adultos. Batman não é diferente.

Na década de 20 ocorreu uma crise econômica sem precedentes nos Estados Unidos. A “Grande Depressão” abalou profundamente as estruturas da sociedade norte-americana. Com o empobrecimento, que veio como conseqüência da crise, houve um aumento substancial nos índices de criminalidade. O desejo por justiça era evidente.

Nesse contexto histórico, surge Batman. Acredita-se que sua primeira aparição ocorreu nos desenhos de Frank Foster em 1932. Foi publicado pela primeira vez pela Detective Comics em 1939. Sua criação é frequentemente atribuída a Bob Kane. Mas os desenhos de Frank Foster foram reconhecidos como autênticos pela DC Comics.

Batman é o pseudônimo do milionário Bruce Wayne. Revoltado com o assassinato dos pais, Wayne torna-se obcecado com a idéia de lutar contra o crime e a corrupção que assolam Gothan City, cidade que é um retrato da situação americana na época.

Homem-Morcego X Super-Homem

Marginais, vocês sugaram a vida de Gothan City,! Essa festa durou tempo demais. Basta! De agora em diante farei parte dos seus pesadelos...a lei ganhou um nome... o meu nome! Batman! Lembre-se dele quando cometer um crime...”

Essas foram as primeiras palavras de Batman nos quadrinhos. E desde o começo, o herói mostra sua personalidade. Batman é a antítese de Superman. Bob Kane e o roteirista Bill Finger se inspiraram em Zorro e em histórias de detetives para criá-lo. Sua origem é próxima das sombras, da morte. Batman é um herói vingativo, que mata já na primeira história.

Enquanto Superman é um herói que age de dia e protege tanto o planeta quanto as mocinhas indefesas, Batman é um vingador noturno numa cidade destruída pelo crime. Superman tem superpoderes, como visão de raio-x e a capacidade de voar. Batman conta com artes marciais, uma imensa fortuna e tecnologia de ponta para realizar seus intentos.

Superman recebe reconhecimento por suas façanhas. Batman vive na escuridão do anonimato e muitas vezes é criticado por fazer justiça com as próprias mãos. Superman é imortal. Batman é mortal, humano e falível.

Robin, um capítulo à parte

No início, Batman era um ser solitário. Robin apareceu somente em abril de 1940, numa tentativa de atenuar as características sombrias do homem-morcego e ganhar o público infanto-juvenil que acompanhava os quadrinhos nos jornais.

A origem de Robin e parecida com a de Batman. Seus pais eram acrobatas que morreram durante uma apresentação. Robin foi levado a Bruce Wayne, que comovido com sua história resolve ajudá-lo. Depois de muito treinamento, Robin passa a ajudar Batman no combate ao crime.

Nos seriados de TV produzidos a partir da década de 60 pela rede norte-americana ABC, uma personagem foi acrescentada: Tia Harriet. Ela veio para acabar com os rumores da suposta homossexualidade de Batman e Robin. Essa medida não adiantava muita coisa porque ao contrário de Alfred, o mordomo da mansão Wayne, Tia Harriet não sabia que Batman e Robin eram na verdade justiceiros. E o público ainda questionava qual era o interesse de um playboy solitário em criar um menino órfão.

Com Robin, veio também uma descaracterização de Batman. O homem-morcego passou a ter senso de humor e a relacionar-se com a sociedade de Gothan City. Além disso, ele começou a usar a fortuna das empresas Wayne para fazer filantropia.

Os arquivilões

Na mesma época em que surgiu Robin, surgiram também os famosos inimigos de Batman. Suas origens são semelhantes às do homem-morcego, com traços que lembram as sombras, a morte e até mesmo a insanidade.

Coringa é com certeza o pior dos inimigos de Batman. O comediante frustrado que se autodenomina “O Príncipe Palhaço do Crime”, comete uma série de delitos cruéis e sem nenhuma lógica. Ele quase leva Batman à loucura em alguns episódios. Sua insanidade e total falta de sentimentos fazem dele o mais perigoso dos inimigos do homem-morcego.

Já Oswald Chesterfield Cobbepot, o Pingüim, é fruto de uma infância difícil. Seu pai faleceu vítima de broncopneumonia. Quando pequeno, era sempre alvo de gozações por parte de outros meninos por causa de seu excesso de peso. Apesar de ser muito cruel, a maior fraqueza de Pingüim é a vaidade. Batman sabe muito bem disso e usa seu ponto fraco para prejudicá-lo sempre que necessário.

O mais inteligente dos vilões de Bruce Wayne é o Charada. Fascinado por quebra-cabeças desde a infância, ele adora cometer crimes e enviar pistas para os policiais de Gothan City, que as repassam para Batman em busca de ajuda. Esta é sua principal fraqueza. Ele é incapaz de cometer um crime sem dar pistas antes.

Harvey Dent é outro dos insanos criminosos de Gothan City. É mais conhecido no submundo como Duas Caras. Ele era promotor de Gothan City e teve seu rosto queimado com ácido por um gangster da cidade durante um julgamento. Assim, com metade do rosto deformado, Dent desenvolve um transtorno de dupla personalidade. Ele fica obcecado com a dualidade de opostos e suas marcas registradas são crimes envolvendo o número dois.

A Mulher-Gato não é necessariamente uma vilã. Na verdade ela tem uma relação de amor e ódio com Batman. Mandada para um orfanato após a morte dos pais, ela se torna ladra e prostituta em Gothan City. Mas ela tem seu próprio código de ética. Ela nunca mata e ocasionalmente se une ao homem-morcego para combater alguma ameaça em comum ou pedir ajuda.

Um retrato do caos

Com tais personagens e vilões percebe-se que Batman nada mais é do que o retrato de uma sociedade degenerada e dos desvios que ela pode provocar nas pessoas. Batman expressa também o desejo de justiça presente na maioria dos seres humanos.

Sendo um retrato tão fiel do pior que existe na natureza humana, a história do homem morcego não só influencia como motiva seus leitores a dar vazão a uns dos piores instintos humanos: o da vingança.