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Um super-herói fracassado

Iale Clitias

No dia 4 de julho de 1917, nascia na periferia de Nova Iorque (EUA), um menino chamado Steve Rogers. Como todo norte-americano, cresceu amando seu país e acreditando na liberdade da América. Tinha apenas um sonho: o de um dia poder fazer algo por ele.

Depois de alguns anos, em 1940 os rumores de uma possível II Grande Guerra começou. Steve sendo um cidadão americano alistou-se para servir ao exército na guerra. Porém, devido seu porte físico, não passou nos exames. O General Philips comovido com a tristeza estampada nos olhos de Steve, o convidou para participar de uma experiência científica. Junto com o Dr. Abraham Erskine, o General havia planejado criar um exército de “supersoldados” que sempre estariam dispostos a lutar em favor da América.

Ao participar da experiência, Rogers sofreu uma seqüência de tratamentos orais, intravenosos e radiativos. Após a primeira aplicação do “soro do supersoldado”, um espião nazista assassinou o Dr. Abraham. O plano de criar um exército com supersoldados foi por água abaixo. Porém, nem tudo estava perdido. Steve havia sido beneficiado... e depois de alguns meses de treinamento se tornou um mega-super-soldado. Aquele jovem franzino que não passou nos testes foi jogado na lata do lixo. Agora, ele era loiro de olhos azuis, e 108 kg perfeitamente distribuídos em 1,87m. Passou a ser portador de dupla identidade: como humano continuava a ser Steve Rogers, como um supersoldado, Capitão América.

Seus poderes eram comuns. Nada de teia de aranha ou voar, com o seu organismo fortalecido pelo “soro do supersoldado”, obteve mais força, agilidade, velocidade, vigor e resistência a qualquer ferimento. Não esquecendo da sua maestria em combate desarmado e em arremesso de escudo. Um lembrete: o escudo do Capitão América era indestrutível. Seu uniforme era a bandeira dos Estados Unidos. Agora, o sentinela da liberdade poderia lutar contra os nazistas defendendo seu país.

O Capitão América foi criado numa época histórica no mundo: a II Guerra Mundial. As autoridades políticas e militares queriam de alguma forma o apoio da opinião pública, e conseguiram. Sem dúvida alguma, o Capitão América foi um super-herói das histórias em quadrinhos. Poderia até ter passado como um herói qualquer se não fosse sua propaganda ideológica de defensor da democracia, da justiça e do modo de vida americano.

Durante os anos da grande Guerra, as histórias em quadrinhos do sentinela da liberdade eram recordes de vendas. O primeiro exemplar trazia o Capitão América dando um soco na cara de Hitler. Interessante! O herói era fictício, mas o inimigo real! As crianças torciam para que o Capitão conseguisse acabar de uma vez por todas com os alemães e japoneses que seriam os vilões facínoras e sanguinários, e com o Caveira Vermelha – seu arquiinimigo mortal. Lendo essas historinhas, elas esqueciam que seus pais, tios ou irmãos estavam lá à frente da batalha real sem nenhum super-herói para defendê-los! Essas revistas foram mandadas para os soldados em ação, para que servissem de inspiração.

O Capitão usava uma única arma – um escudo – até porque armas de fogo para um personagem “modelo” para as crianças não era aceito naquela época. Com apenas um escudo, e com a ajuda do seu amigo Bucky, o Capitão lutava contra todos os inimigos. Este escudo está literalmente ligado à idéia de que os Estados Unidos só atacam para se defender! Impressionante como esse argumento é antigo. Em 2003, quando Bush declarou guerra ao Iraque matando milhares de civis inocentes, usou a mesma idéia para angariar o apoio público. Mas a falta de provas de que o Iraque era mesmo uma ameaça à paz mundial, fez com que muitos se revoltassem contra os Estados Unidos.

Depois que a II Guerra Mundial acabou o que aconteceu com o Capitão América? Ele declarou guerra ao crime. Foi assim que em um triste dia enquanto tentava impedir que um avião-robô bombardeasse Londres, caiu no Atlântico Norte. Seus pulmões se encheram de água gelada, que reagiu com o “soro do supersoldado” e mergulhou num estado de animação suspensa. Seria este o fim do sentinela da liberdade?

Os Vingadores

Surgiu então, a equipe dos Vingadores composta por Hulk, Thor, Homem de ferro, Vespa e Homem-formiga. A proposta deles era combater vilões que nenhum herói conseguiria sozinho. Muitos anos se passaram até que a equipe dos Vingadores em uma incrível missão pelo Ártico, descobriram o corpo do Capitão sem vida vagando pelas águas do Oceano.

Depois de voltar à vida, o Capitão América caiu numa crise de identidade. Estava sozinho, se culpava pela morte do seu companheiro Bucky e, além disso, estava nos anos 60. Muitos anos a frente de quando havia caído no Atlântico. Os civis americanos lutavam pelos seus direitos e tinham como líder Martin Luther. Os movimentos hippies eram comuns. Viu que enquanto esteve congelado, os Estados Unidos se transformou num país egoísta, capitalista, que se faz de santo enquanto todos os outros países são os vilões, os inimigos. Soube que os nazistas que ele ajudou a destruir não foram os únicos a serem mortes na II Guerra Mundial, e que de certa forma deram a volta por cima e explodiu na década de 50 a Guerra Fria. Uma guerra identificada com o genocídio e o preconceito contra os comunistas.

Depois que soube tudo pelos Vingadores, o Capitão América decidiu continuar sua luta pelo crime, ele era um super-herói. O povo americano precisava dele. Mas nos anos 70, sofreu outro golpe. Os Estados Unidos fora derrotado na guerra do Vietnã e o caso Watergate no qual o Presidente Nixon foi deposto. Nos anos 80, o escândalo da Nicarágua e do Irã. Era muito para o Capitão. Novamente voltou a ter uma crise e se auto-exilou. O que ele estava fazendo para ajudar o seu país? Como conseguiria reparar o mal que o povo americano estava sofrendo? Decidiu então mudar o foco da sua luta. Não mais iria ser para o Governo ou política, mas iria estar atento ao que acontecia com pessoas simples que vivam em todo território dos Estados Unidos.

O Capitão América é um super-herói fracassado? Sim. Fracassou na luta pelo seu país e mais tarde fracassou na defesa dos americanos na queda do World Trade Center. Onde estava o nosso herói e a equipe dos Vingadores no dia 11 de setembro de 2001 com seu escudo indestrutível que não salvou sua cidade natal dos ataques terroristas?

Bem, hoje provavelmente o sentinela da liberdade deve estar exilado, e se perguntando se valeu a pena ter tomado aquele “soro do supersoldado” para realizar um sonho de infância.