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Ovas do bem ou do mal?

Rodrigo Galiza

É através da fecundação que os seres vivos conseguem, dentre outras formas, dar origem e perpetuidade á espécie. Ou seja, cada ser vivo possui um potencial inato de multiplicar-se. Os sapos por exemplo, ao pôr suas ovas, óvulo fecundado, geram novas vidas. Spawn, ovas em inglês, é um novo ser com pontencial. Um super-herói que surge como a fênix da mitologia grega, das cinzas.

Um jovem como qualquer outro que após se formar possuía sonhos, Al Simons torna-se militar e chega a ser agente da CIA, inteligência americana. Casa-se com a bela Wanda, por quem é muito apaixonado, e vive muito feliz até que seu trabalho acaba envolvendo-o em problemas.

Assassino do governo americano, Simons começa a questionar a ética de sua corporação. Sentindo ameaçado, seu chefe Jason Wynn, manda executá-lo. Ao morrer, não exatamente, Al Simons pára num lugar entre o céu, a terra e o inferno. Nesse lugar parecido com um purgatório, Simons encontra-se com Clown, um demônio pequeno e gordo. Clown oferece ao ex-agente a oportunidade de voltar a encontrar-se com sua amada, Wanda. A condição: ele deve tornar-se o general das forças do inferno contra o céu, que estão em guerra. O palco desse conflito, a terra.

Mas o drama está apenas iniciando. O ex-agente, movido pela paixão á esposa, após a morte, volta com super poderes para executar os planos do inferno e rever sua amada. Mas mal sabe que o pequeno período experimentado por ele no inferno trouxera muitas mudanças no mundo. Cinco anos havia passado após sua morte, e quando ele retorna a terra para rever Wanda, ela já se encontra casada e com filhos de seu melhor amigo. Indignado, com todas as forças resolve se vingar. No processo acaba assassinando Wynn, que o matou, e acidentalmente numa batalha entre os seres celestiais e do inferno mata Malebolgia, o chefe do inferno.

Spawn, história em quadrinhos idealizada pelo canadense Todd MacFarlane surgiu nos Estados Unidos publicado pela Image Comics. Empresa que fundou no início dos anos noventa após trabalhar pelas renomadas DC e Marvel Comics , empresa criadora dos heróis Hulk, Super-Homen, Batman e Homen-Aranha , o último do qual MacFarlane participou ativamente criando o vilão Venon . Não satisfeito por desenhar e formular histórias para os heróis dos outros, MacFarlane resolve criar um novo ser para os quadrinhos. Com um nome bem sugestivo surge o soldado do inferno, Spawn.

As figuras religiosas estão por todas as partes. Anjos, demômios, morte, ressurreição, amor, ódio, vingança... Um grande conflito entre forças do bem e do mal, entre o inferno e o céu. O super-herói após a morte volta para matar, vingar, liderar o inferno usando muita violência. Spawn quebra os paradigmas da maior religião de onde surge no ocidente, o cristianismo. Os cristãos pregam que a violência não é boa e o inferno é a força do mal, e não do super-herói encarnado por Simons como Spanw .

Através de seu imaginário herói, MacFarlane consegue transmitir valores. E os mais influenciados são os jovens até 30 anos, público que mais lê esse gibi. “Spawn é o novo herói de nosso mundo... acredito que ele transmite o que o inferno possa realmente ser”, declarou um fã. Spawn chega a tornar-se religião para alguns. Já que nos quadrinhos, ele chega a ser invencível, imortal, personificação daquele que pode ‘salvar' o mundo. Mas aí que surge as indagações na mente dos leitores. Spawn, inspirado na Divina Comédia de Dante Allighieri, é o cavaleiro do inferno. E para os cristãos esse lugar é temido. Mas Spawn tenta explicar o que ninguém conhece pessoalmente e todos temem, o mundo dos mortos.

MacFarlane tenta mostrar que mesmo após a morte há esperança no inferno, que não é tão mal assim. Pelo contrário, é o lugar de origem do herói, aquele que personifica as virtudes e fraquezas do ser humano. Spawn é tão parecido com muitos leitores, pode morrer, é injustiçado, sofre por paixão e quer viver para realizar seus sonhos. E ao mesmo tempo tão distante e sonhado por muitos, conhece o desconhecido, foi ao inferno e voltou, é o centro das atenções, faz justiça com as próprias mãos além de possuir super poderes. Num mundo pós guerra fria, do desconhecido, do medo, da violência como solução de problemas, Spawn surgi para muitos para tentar explicar o oculto.

E o gibi impacta. Spawn, um quadrinho de muito sucesso, só em seu lançamento em 1992, vendeu um milhão e setecentos mil, estabelecendo um recorde para quadrinhos. Um trunfo de seu sucesso, a arte. Altamente elaborado nos detalhes e cores, MacFarlane consegue atrair a atenção de todos. Com seus olhos verdes reluzentes, seu corpo negro cheio de queimaduras e sua capa vermelha, Spawn é enigmático e admirado. O sucesso de lançamento em 1992 rendeu ao seu autor o troféu da Sociedade Nacional Americana de Cartunistas por melhor gibi do ano.

No Brasil, ele é admirado também. Traduzido pela editora Abril, após o número 150, deixa de ser publicada esse ano. Indignados, muitos fãs num ar de revolta como do seu herói, insultam na Internet a editora que para de publicar o que mais parece suas Bíblias. Ao ouvir os clamores por seu herói, a Pixel em abril lança o número 151, e pretende continuar com sua publicação.

Spawn, criticado por uns, principalmente cristãos tradicionalistas, e amado por outros, continuará a tocar em questões que chamam a atenção de todos, a morte. A ova produzirá ainda muitos questionamentos na mente dos jovens que o lê. Se para o bem ou para o mal, o próprio quadrinho responde. De que lado está Spawn, do céu ou do inferno, do mal ou do bem?