Acredite se quiser!
“Eu exigo um aumento. Mas que país injusto é esse, que não dá a um pai de família a oportunidade de sustentar dignamente seus filhos? Estou cansado de acordos, votações e subserviência. Não vou aceitar mais essa ninharia”, vocifera o deputado.
O clima na pizzaria em Brasília fica tenso. Todos estão ansiosos. O homem da Casa Civil não pára de bater o pé, o cara da Economia coça a cabeça repetidamente e o “caixa” do grupo anda de um lado para outro desassossegado. A verdade é que grande parte da quadrilh... ou melhor, da cúpula reunida, concorda com o discurso do deputado. O valor da mesada está abaixo do que merecem seus encargos.
Depois de alguns instantes de silêncio mais um componente do grupo levanta-se em defesa do reajuste.
“O colega tem razão. Trinta mil não custeia sequer uma viagem ao paraíso fiscal. Reclamamos um aumento de 100%. Precisamos de pelo menos sessenta mil para apoiarmos os projetos do governo. Caso contrário, nada de base aliada. Sem verdinhas, projetos nem pensar”.
Cobra engolindo cobra
Diante da situação complicada surge o profissional do crim... quer dizer, da propaganda (o tal das malas recheadas), aproveitando a crise para propor um acordo.
“Vocês sabem que durante muito tempo tenho prestado um excelente serviço para esse esquema. Meu sonho sempre foi ser presidente desse País e ajudar os meus aliados. Garanto que se minha candidatura à Presidência da República for aprovada, saberei gratificá-los com o dobro dessa mesada”.
A declaração causou indignação e algazarra. O ambiente que era de tensão se tornou baixaria. E o representante da Casa Civil foi o primeiro a reclamar seu espaço.
“Como assim, candidato à presidência? Eu que sustento as colunas desse governo e você quer levar a melhor? Isso não admit...”.
O ministro não chegou a completar a frase. Uma pizza voou da cadeira do “caixa” e atingiu o rosto dele em cheio. Bela pontaria! Talvez a melhor forma de dizer que ele sim, era o mais indicado ao cargo.
“E quem administra o dinheiro?”.
“Você distribui a grana, mas quem administra a Fazenda sou eu”, zomba o moço da Economia, que se aproxima com duas pizzas e faz sanduíche na cabeça do tesoureiro.
A essa altura a guerra estava declarada. Xingos daqui, pizzas dali. Que belo quadro! O cenário logo estava tão imundo quanto a índole dos presentes.
O tiroteio de massas e molhos só cessou com a chegada de um visitante inesperado. Era o chefe do PTB. Ele não tinha sido convidado para a reunião, mas chegou ameaçando: Nem tentem me deixar para trás, ou eu vou à imprensa e conto tudo sobre o esquema.
Oito meses depois...
Na mesma pizzaria, o grupo comemora a vitória do publicitário nas eleições para presidente. Todos entraram em acordo e reconheceram o talento do carequinha para lidar com o maior problema brasileiro: a distribuição de renda. Distribuição feita das formas mais criativas, em malas, pacotes, envelopes e até cueca. A atmosfera agora é de triunfo, tanta euforia que os convidados nem percebem o fundo musical Vossa Excelência dos Titãs, bem apropriado para a ocasião.
Estão nas mangas dos Senhores Ministros...
Nas golas dos Senhores Deputados
Nos fundilhos dos Senhores Vereadores
Nas perucas dos Senhores Senadores
Senhores!...
Bandido!
Corrupto!
Ladrão!...
Um dia o sol ainda vai nascer
Quadrado
Ah! E o tal chefe do PTB saiu da pizzaria no dia do “combate”, com os bolsos cheios e a consciência vazia. Talvez se ele de fato tivesse feito a denúncia, a imprensa teria dado atenção ao fato e esse caso não teria um final feliz.
Quem sabe, algum grande jornal publicaria uma entrevista com o deputado e o esquema fosse descoberto. A cobertura da mídia levaria a uma investigação que revelasse os ladrões dos recursos públicos. A população ciente da roubalheira ficaria indignada. Uma CPI seria instaurada para averiguação do esquema. Ih! Mas deixa para lá, tudo isso poderia também acabar em pizza. |