Sentir gostos, cheiros, ver os fatos com uma visão que outras pessoas não viram, ouvir os que estão ao seu redor e viver como alguns seres humanos vivem durante certo tempo. São esses os elementos essenciais para se fazer uma grande reportagem, mas acima de tudo é preciso ter amor ao que faz e só assim transmitir ao leitor vida para o texto que ele está sendo lido.
Grandes reportagens mostram ao leitor um mundo que para ele muitas vezes seria inatingível, mostram o desconhecido, o temido ou o distante, mostram a aproximação de um cotidiano estranho. As grandes reportagens unem uma forma de narrativa literária com texto jornalístico, já diria o jornalista e escritor Sergio Vilas Boas.
“Para ser um jornalista há que se ter, além do conhecimento dos fatos, muita criatividade para contar, visões de mundo complexas e leque de técnicas. O repórter tem que sentir a essência das coisas, ter sensibilidade. Acredito também que não dá para se fixar apenas no jornalismo, é preciso conhecer diversas áreas, como psicologia, antropologia, sociologia, história. Afinal, a construção do sujeito se dá não só por suas características e ações, mas por todos que o rodeiam, pelo trabalho, pelos estudos. O autor discute com o leitor as escolhas que faz, justifica esse e não o outro caminho tomado. Revive-se o personagem através das palavras.”
Algumas reportagens se tornaram um marco na história da humanidade. Repórteres que fizeram a diferença ao presenciar um acontecimento, se empenharam em seu trabalho e contribuíram para que muitos soubessem de fatos talvez inexistentes. Eles escreveram as páginas que passam de geração em geração mostrando a vida de estranhos.
O jornalista Euclides da Cunha escreveu um dos maiores clássicos do jornalismo literário e suas reportagens sobre Canudos publicadas no Estado de S.Paulo, deram origem ao livro Os Sertões. Até o início da guerra, o sertão era completamente ignorado pelas elites, era considerado uma pátria sem dono, vivendo sob o jugo dos latifundiários, no entanto era necessário que as pessoas compreendessem o que era o sertão.
Em 1897, o jornalista e engenheiro militar foi para a guerra de Canudos como repórter enviado do jornal Estado de S. Paulo. Lá, Euclides viveu e sentiu para fazer sua reportagem. Tal ousadia resultou em uma das maiores obras da literatura brasileira, “uma obra que destruía o sonho brasileiro da república e da civilização branca europeizada”.
Já o jornalista Truman Capote fez uma viagem ao Kansas a fim de apurar os fatos sobre o assassinato de quatro membros da família Cluter. Foram seis anos de trabalho para relatar o fato que aterrorizou o povoado de Holcomb, no dia 15 de novembro de 1959. Além de descrever o crime, Capote também trata da reação dos envolvidos no assassinato, tanto dos detetives e quanto dos assassinos.
O repórter Caco Barcelos investigou durante sete anos agentes da Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (ROTA), para narrar a história dos policiais que mataram três jovens. Por meio do seu trabalho, Barcellos denunciou 22 anos de crimes. Em seu livro, Rota 66 ele mostra que a Polícia Militar de São Paulo foi responsável por 12 mil mortes, um número que supera a quantidade de soldados brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial e as vítimas da Guerra dos Farrapos.
Tendo como exemplo os casos citados, podemos constatar que jornalismo é mais que simplesmente relatar fatos, é se envolver num contexto, é ter intimidade sobre o que está registrando. Uma grande reportagem não nasce do dia para a noite, exige tempo, sacrifício e humanização. |