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Livro-reportagem não é conto de fadas: é jornalismo

Victor Drummond

Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, de Edvaldo Pereira Lima  (Editora Manole; 2003; 370 páginas; R$ 39,80)

A literatura transporta o ser humano para o mundo do intransponível, do imaginário, do inacessível. Ela também decompõe a realidade e a molda de acordo com a subjetividade do autor. Esse, por sua vez, tem a capacidade de escolher um fato e recriar a realidade, somando a ela elementos ficcionais. A literatura realista vale-se de descrição precisa de cenários, de pessoas, construindo quase um roteiro cinematográfico que se comporá na mente dos leitores. 

Já imaginou todas estas técnicas de produção textual aplicadas ao jornalismo? Na imprensa do cotidiano não será nada fácil encontrar reportagens que apresentem tanta riqueza quanto a literatura é capaz de proporcionar. Até mesmo porque, com a pressa de fechamento nas redações, e a instantaneidade exigida pelo jornalismo atual, sobra pouco espaço para que jornalistas produzam grandes reportagens recheadas de detalhes e figuras de linguagem, como na literatura.

Mas nos livros-reportagem esses dois mundos, do jornalismo e da literatura, se encontram. É o que diz o doutor em Ciências da Comunicação pela USP, Edvaldo Pereira Lima, em sua tese transformada no livro Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura (2003), lançado pela Editora Manole.

Nesta pesquisa, Edvaldo apresenta as possibilidades que um repórter encontra ao produzir um livro-reportagem. Dificuldades como preencher "vazios deixados pelo jornal, pela revista, emissoras de rádio, pelos noticiários da televisão, até mesmo pela internet quando utilizada jornalisticamente (...)". 

Páginas Ampliadas explica que a imprensa, já no início do século XX, começou a se prender aos fatos, aos assuntos factuais, que se tornou incapaz de costurar uma ligação entre eles, de interpretá-los. A partir dessa necessidade, que se consolidou a grande reportagem. 

E uma de suas formas de expressão é o jornalismo interpretativo, que contextualiza os fatos e como eles se relacionam com o presente e o que causarão no futuro. Resgata no tempo a origem do problema, apresenta entrevistas com especialistas e testemunhas do assunto e busca também humanizar a reportagem, valendo-se de elementos que emocionem sem deixar de lado a elucidação racional. E para isso existe a literatura, como forma de complementar o que o jornalismo, por si só, não é capaz de fazer.

Como definiria o autor, "o livro-reportagem é o veículo de comunicação impressa não-periódico que apresenta reportagens em grau de amplitude superior ao tratamento costumeiro nos meios de comunicação jornalística periódicos". O doutor Edvaldo acrescenta: "Sob esse raciocínio é fácil compreender que o livro-reportagem, agora, como no passado, é muitas vezes fruto da inquietude do jornalista que tem algo a dizer, com profundidade, e não encontra espaço para fazê-lo no seu âmbito regular de trabalho, na imprensa cotidiana." É claro que o jornalista vai se valer da veracidade e da verossimilhança para produzir o seu livro-reportagem, mas ele pode incorporar, como explica Páginas Ampliadas, recursos da literatura e até do cinema.

Pereira Lima propõe classificações para os livros-reportagem. Há o livro-reportagem-perfil ou livro-reportagem-biografia, em que o jornalista "procura evidenciar o lado humano de uma personalidade pública ou de uma personagem anônima". Outro gênero seria o livro-reportagem-depoimento, em que se "reconstitui um acontecimento relevante, de acordo com a visão de um participante ou de uma testemunha privilegiada". E por aí vai. Mas como o próprio autor explica, "a classificação proposta não pode ser considerada final, porque novas variedades podem surgir, em decorrência da flexibilidade e da criatividade peculiares ao livro-reportagem".

Como você percebeu, o gênero da reportagem em livro confere liberdade ao autor. Sentiu-se motivado a viajar pelas asas da literatura com os pés no chão do jornalismo? Então tome fôlego e mergulhe no rico universo do livro-reportagem. Mas antes disso, não deixe de ler Páginas Ampliadas para perceber que com o jornalismo é quase possível produzir um conto de fadas. Com a diferença de que todos os personagens fazem parte de uma realidade ainda não explorada.