“Existe o antes e o depois de uma reportagem. A grande reportagem é um demarcador de tempo, de fronteira, qualquer sociedade que não tenha a imprensa livre não sobrevive”. As palavras do jornalista Carlos Wagner, nos seus quase 30 anos de carreira, denotam a certeza de se estar na profissão certa. O gaúcho de 55 anos possui uma marca invejável por muitos profissionais da área. Wagner atualmente é o profissional que mais distinções obteve em toda a história do Prêmio Esso, a mais importante premiação do jornalismo no País, conquistando sete prêmios na categoria regional Sul, todos eles por trabalhos publicados no jornal Zero Hora, onde trabalha desde 1983.
Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Wagner começou sua carreira como repórter na cidade de Carazinho, interior do RS. Possui oito livros publicados, o último se chama País-bandido – Crime Tipo Exportação, uma reunião de várias reportagens sobre as questões problemáticas da fronteira envolvendo o Brasil, Argentina e Paraguai.
Colecionador de vários prêmios, ao todo foram 38 títulos. Hoje, o profissional desponta com um dos principais jornalistas investigativos do país.
Canal da Imprensa - O que o levou a escolher a profissão de repórter?
Carlos Wagner - O que me atraiu na profissão, é a possibilidade de viajar bastante, de se ter aventura, de conhecer pessoas e principalmente de estar presente e descrever as grandes questões do país.
C.I. - Qual o ofício de um repórter?
C.W. - A essência do repórter é a denúncia. Isso é o espírito. E do outro lado, prestar à comunidade o trabalho, o serviço.
C.I. - O senhor se especializou em algum tipo de reportagem?
C.W. - Durante 10 anos, até a década de 90, eu tinha me especializado em conflitos sociais, questões de terras indígenas. Escrevi livros, fiz matérias, como por exemplo: “A Saga do João Sem terra”, que relata o desaparecimento de um líder camponês na década de 80, que depois eu transformei em livro. Fiz uma outra matéria investigativa chamada “ As pequenas índias prostitutas” em parceria com Nilson Mariano, onde denunciamos pela primeira vez a prostituição de meninas aqui no sul. A partir de 92 eu fui para área de crime organizado, dei mais prioridade para esse setor, porque com a democratização do país com a consolidação das instituições, essas questões de conflitos sociais passam a ter seus canais próprios, não trafegam mais na clandestinidade como era antes. Hoje estou me dedicando mais nas questões de fronteira, onde escrevi uma matéria intitulada "Uma viagem ao país bandido ”, que também transformei em livro, onde eu descrevo as questões da fronteira Brasil/Paraguai/Argentina.
C.I. - As suas reportagens levantam questões polêmicas. Como isso repercute em sua carreira?
C.W. - Tudo que é reportagem é polêmica. Se não não for polêmica, não é reportagem, é serviço. Tenho que fazer algo que vá mudar alguma coisa. A questão de fronteira, como citei anteriormente, está relacionada com a criminalidade no país. As armas que foram usadas nessa grande revolta que houve em São Paulo , as drogas, tudo vêm do Paraguai, da Bolívia, isso tudo é um mundo a parte, e isso me fascina, porque você faz uma matéria de fronteira, mostrando para as pessoas da cidade aquilo que está acontecendo lá onde “Judas perdeu as botas”, influenciando no cotidiano das pessoas.
C.I. - Qual a importância social das grandes reportagens?
C.W. - Uma reportagem bem feita torna-se um documento, um referencial. Existe o antes e o depois de uma reportagem. A grande reportagem é um demarcador de tempo, de fronteira, qualquer sociedade que não tenha a imprensa livre não sobrevive.
C.I. – Muitas vezes, o repórter acaba fazendo o trabalho da polícia. Como é ter esse poder nas mãos?
C.W. - Repórter é sinônimo de investigação. O que acontece hoje, é que o país ainda está se organizando e a polícia atualmente está sendo depurada. Está nos ombros da imprensa uma tarefa que seria trabalho da instituição. Mas em qualquer parte do mundo, sempre as redações vão estar à frente do aparato policial. Nós vivemos disso, não cabe a nós condenar ou absolver. Cabe a nós, descobrir as irregularidades. Um exemplo disso é o caso do impeachment do ex-presidente americano Richard Nixon com o escândalo de Watergate.
Com isso, o repórter estará sempre à frente da polícia, à frente que eu digo, descobrindo os fatos anteriormente.
C.I. - Qual das suas reportagens se destacou por ter um papel importante no desdobramento de um fato, mudando o cenário político e social na região?
C.W. - Foram várias, cito uma simples, chamada “ As pequenas índias prostitutas ” , pelo Jornal Zero Hora, onde eu denunciei o envolvimento de lideranças indígenas aqui do Rio Grande do Sul e de brancos, na prostituição de índias. Ajudei a colocar 10 pessoas na cadeia. Isso mudou a visão da população na região toda. A questão da prostituição começou a ser vista.
C.I. - Como lidar com as ameaças da profissão de um repórter especial?
C.W. - Na vida do repórter, as ameaças fazem parte, é o cotidiano, isso qualquer repórter que mexe com questões perigosas convive com este tipo de situação, tanto ameaças físicas, psicológicas e econômicas. É preciso tomar alguns cuidados.
C.I. - Até que ponto um repórter pode avançar em uma investigação? Quais sãos os limites?
C.W. - Até descobrir a verdade. O limite é a verdade. Você não pode manipular o fato, não interessa a técnica investigativa que você use, o importante é estar embasado na ética. Não existe investigação fora dos ditames da ética, tu não vai ser bandido para investigar bandido.
C.I. - Há sigilo das fontes no seu trabalho?
C.W. - Simplesmente o sigilo das fontes é a sustentação do jornalismo moderno.
C.I. - Como o senhor encara o uso do off na sua profissão?
C.W. - O off também é um dos esteios da nossa profissão. É uma faca de duas pontas. É uma ferramenta que o repórter tem que usar com moderação. Exemplo: Você produz uma reportagem, na qual uma pessoa é acusada, faz uma denúncia sem apontar o autor; não dando um rosto para o acusador. Isso tem que ser feito com muito cuidado.
C.I. - Qual a linha divisória que separa a grande reportagem do jornalismo literário?
C.W. - Elementos do jornalismo literário são usados pelos repórteres para tornar a reportagem mais atrativa, mas são técnicas. Eu entendo que o jornalismo literário é ficção, e a grande reportagem realidade, o limite é esse ai. Agora se estamos falando do uso de linguagem, é uma outra história, estou falando de conteúdo. Mas sobre o uso de técnicas literárias para ti tornar uma reportagem menos dura, mas agradável eu acho válido.
Eu me atrevo a pensar que o leitor está interessado no texto, ele quer saber o que nós temos para informar para ele. Não adianta você fazer um texto bonitinho e não ter coisa alguma lá dentro. As pessoas querem saber o que você tem para dizer. Essa é a diferença. O indivíduo lê a sua matéria, muito bonitinha, muito abotoadinha, maravilhosa, e o conteúdo?
C.I. - O que a jornalista precisa para produzir uma boa reportagem?
C.W. - Primeiramente: Não ser prepotente. Todo repórter prepotente é um estúpido. E o restante se busca. Usando do bom senso, você chega lá e consegue vender o seu peixe.
C.I. - O Brasil é um país que possui bons repórteres?
C.W. - O repórter brasileiro é muito bom. Nós temos profissionais de primeira linha. Mas existem repórteres que foram forjados por uma escola, uma coisa que tem muita influência na formação do jornalista, a imprensa alternativa, que teve e continua tendo. Hoje há um movimento bem claro no Brasil, em que as instituições de ensino estão tentando domesticar os repórteres. E só quem perde com isso é a imprensa. Os cursos te formam, mas o que precisamos é estudar técnicas de investigação. Ou seja, escrever todo mundo sabe, agora, o que escrever é uma outra questão bem diferente.
C.I. - As universidades estão formando bons profissionais na área do jornalismo?
C.W. - Nas faculdades de jornalismo, a maioria dos professores, são pessoas que fracassaram em redação, com exceções, mas grande parte sai de uma faculdade, faz um curso de mestrado, de doutorado, e quando você menos espera, o indivíduo acha que se tornou um grande intelectual do ramo. As instituições de ensino têm que se qualificar, pegando pessoal das redações, gente experimentada. Porque qual é a qualificação do cidadão que saiu da universidade, fez mestrado, doutorado, e chega à sala de aula e diz: - Eu acho que o jornalismo é isso. ? Esse professor é um fracassado. Nunca fez uma matéria, uma reportagem. Qual é o pedigree de um cara desses? Nenhum.
C.I. - Que conselho o senhor daria para o estudante que pensa em ser repórter?
C.W. - Primeira coisa necessária, isso eu não discuto, é que para ser repórter tem que ter um diploma universitário. Ser jornalista é ter a melhor profissão do mundo. Mas é um modo de vida que exige audácia. Se o aluno não for audacioso, pode procurar uma outra profissão. |