“Escrevo rapidamente estas linhas, no meio do tumulto quase, enquanto a fuzilaria intensa sulca os ares a cem metros de distância”
Euclides da Cunha
Talvez pareça estranho que o conhecido escritor brasileiro Euclides da Cunha não seja tão poético como ás vezes parece ser. Alguns podem perguntar, “O que um escritor da literatura nacional está fazendo num campo de guerra?”. Então, pasmem, Euclides da Cunha era correspondente de guerra do jornal Estado de S. Paulo e estava, literalmente, no front de uma das maiores batalhas travadas em solo brasileiro, e diga-se de passagem, um dos maiores fiascos do Exército.
Euclides da Cunha foi jornalista, engenheiro e ex-oficial do Exército e tinha grande conhecimento das regiões brasileiras em conflito. Assim, a convite do diretor do Estadão, Júlio de Mesquita , Euclides viaja à Bahia como correspondente de guerra e se junta a quarta e última expedição militar contra Canudos. Uma série de trinta reportagens foi escrita sobre o conflito, sendo que a última foi redigida no dia 1º de outubro de 1897, quando morreu Antônio Conselheiro. A luta terminou no dia cinco com a morte dos últimos combatentes ou jagunços, como eram conhecidos.
Os aspectos envolvidos foram muito semelhantes ao que acontece hoje com os grupos fundamentalistas islâmicos, que se utilizam do fervor religioso para reivindicar seus interesses. Nesses grupos, três coisas são fundamentais para o sucesso de seus combates: graves problemas sociais, manipulação religiosa de um líder místico e táticas de guerrilha. Assim, nesse contexto, política e religião são a mesma coisa, o líder manipula fortemente com o sentimento religioso coletivo criando um ambiente místico e a guerrilha é a principal forma de combate.
Esses foram os ingredientes perfeitos para uma das maiores e melhores reportagens já escritas, uma vez que a Guerra de Canudos durou um ano e mobilizou mais de dez mil soldados vindos de dezessete Estados brasileiros e distribuídos em quatro expedições militares. Estima-se que morreram mais de vinte e cinco mil pessoas, culminando com a destruição total da cidade.
Dizem que o jornalismo está essencialmente envolvido com questões sociais e políticas e essa pauta que Euclides da Cunha recebeu, não poderia ser mais propícia, já que a situação do Nordeste brasileiro, no final do século 19, era muito precária. Fome, seca, miséria, violência e abandono político afetavam os nordestinos, principalmente a população mais carente. Toda essa situação, em conjunto com o fanatismo religioso, desencadeou um grave problema social.
Após a Proclamação da República, entra em cena Antônio Conselheiro , um religioso que se julgava escolhido de Deus para acabar com as diferenças sociais e com os pecados dos republicanos, tais como o casamento civil e a cobrança de impostos. Com isso em mente, ele conseguiu reunir um grande número de adeptos que acreditavam que seu líder realmente poderia libertá-los da situação de extrema pobreza na qual se encontravam.
Eles se reuniram no coração da Bahia, em meio a caatinga, num lugar chamado Canudos, que Conselheiro mudou para Bello Monte. Ela atraia milhares de pessoas de todo o sertão nordestino. Falava-se em toda a região que em Bello Monte “corria rios de leite e as barrancas eram de cuscuz ”. E a cidade crescia em ritmo acelerado. Não era à toa que tal série de reportagens marcou não só o Estadão, mas como a própria literatura e história brasileira.
Nas três primeiras investidas do Exército da República, os jagunços de Conselheiro utilizando as estratégias de guerrilha, fizeram emboscadas e ataques-surpresas, deixando os soldados desorientados e causando muitas baixas. Somente na quarta investida, na qual Euclides estava presente, os experientes soldados conseguiram pôr fogo na cidade e massacrar todos os revoltosos. Canudos caiu.
Mas as reportagens não ficariam apenas no jornal. Em 2 de dezembro de 1902, é lançado no Rio de Janeiro o livro Os Sertões, que contava toda a saga de Canudos e Antonio Conselheiro. Alguns anos depois, pela Editora Laemmert, o livro foi lançado no mercado editorial brasileiro, transformando-se numa das principais obras da literatura mundial, já tendo sido traduzido para mais de dez idiomas, com um número superior a cinqüenta edições brasileiras e sendo objeto de mais de dez mil trabalhos escritos. Nunca uma reportagem documentou tão bem um dos mais marcantes capítulos da história do povo brasileiro. |