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Escravidão no Século 20

Iale Clitias

“A miséria jogou as meninas para as ruas. Elas não têm nada para vender. Não sabem ler, cozinhar, escrever. Só podem vender o único bem que possuem: o corpo”.

Gilberto Dimenstein

Um assunto que sempre vai trazer indignação e preocupação nacional é a prostituição infanto-juvenil. Especialistas são unânimes em afirmar que por trás de toda “prostituta-mirim”, há uma história de degradação familiar. Infelizmente, a família é o principal estímulo para este tipo de exploração, obrigando à criança ir pra rua e trazer uma determinada quantia para casa. Com medo da reação dos pais, que geralmente é violenta, acabam vendendo o próprio corpo por mixaria. Por ser um dinheiro “fácil” se tornam desde cedo “escravas sexuais”.

Foi o alarmante número de casos de exploração infantil que várias entidades do estado do Pará, entre elas o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, organizaram um dossiê chamado Crianças da Amazônia, que demonstrava a existência de centenas de meninas em prostituição escrava em vários garimpos da região norte.

A divulgação desse material chamou a atenção do jornalista Gilberto Dimenstein, que recebeu uma bolsa de estudos da MacArthur Foundation para investigar a violência e prostituição da criança na Amazônia nos anos 1991 e 1992, resultando em uma série de reportagens para a Folha de S. Paulo intitulada Meninas da Noite. Um trabalho amplo que durou um ano entre planejamento, investigação e publicação das matérias.

Dimesntein viajou por seis meses pelo Norte e Nordeste do Brasil, procurando lugares onde meninas eram escravizadas sexualmente ou quase mantidas em cativeiro. Em Cuiú-Cuiú, um vilarejo na Amazônia, meninas foram fotografadas nos cativeiros, os nomes dos cafetões apresentados, os locais que viviam e seus responsáveis foram filmados. Lá mesmo, uma das senhoras queria reformar a casa e para conseguir recursos, a “virgindade” de suas filhas foi vendida a peso de ouro!

Gilberto afirma que esta reportagem teve um efeito importante: ajudou a acordar o país para a situação da infância que é uma coisa decisiva para qualquer país. Mas não foi só o Brasil que abriu os olhos. Todo o material produzido, livro e filmagens, rodou o mundo atraindo as atenções para o País no problema da prostituição infantil, chegando a gerar um documentário no programa Turning Point da rede ABC em agosto de 1994.

Apesar do jornalista ter recebido muitos elogios pela realização desse trabalho, o pesquisador Leandro Feitosa Andrade, que escreveu sua tese de doutorado em Psicologia Social em cima da obra de Dimenstein, afirma que “houve estigmatização dos pobres e das adolescentes retratadas na série de reportagem (...) foi colocado esse tema sem se preocupar com a exposição de rostos e dos nomes das adolescentes, dos locais, dos preços do programa...”.

Diante da grande repercussão dos artigos e da mobilização de organizações não-governamentais, as autoridades do país viram-se pressionadas a se posicionar frente à prostituição envolvendo crianças e adolescentes. Em resposta, o Congresso Nacional criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), em 1993 para apurar responsabilidades pela exploração e prostituição infanto-juvenil. Mesmo assim, com a CPI da prostituição infantil como ficou conhecida, a Justiça Federal empurrou o caso. Os oito criminosos denunciados que traficavam crianças não foram nem indiciados pelo Ministério Público. Simplesmente caiu no “esquecimento”, tanto da população quanto da mídia.

É aí que a imprensa “peca”. Do mesmo jeito que bombardeia assuntos importantes para o desenvolvimento da Nação, deveriam cobrar das autoridades as providências cabíveis. Para Gilberto Dimenstein o objetivo da reportagem foi alcançado: “chamar atenção para um tema que não era discutido no país”.

Hoje, 13 anos após a denúncia, ainda existem pelo Brasil a fora milhares de crianças que são exploradas sexualmente e que vivem nesse submundo da noite, ou como o autor descreve “escravas sexuais”. Grandes reportagens como esta, são feitas para que haja um avanço na sociedade, e quem sabe um dia o Brasil saia do 74º lugar em se tratando de qualidade de vida.