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Autor do acaso

Franciele Mota

Da redação para a realidade, ou como ele classificou o gênero de não-ficção. Truman Capote correspondente da revista norte-americana New Yorker, saiu da redação e foi a Holcomb no estado do Kansas, para fazer uma reportagem sobre o assassinato da família Clutter.

O fato aconteceu na noite de 15 de novembro de 1959. Uma família inteira foi assassinada brutalmente por dois rapazes que não tinham outro motivo para o ato senão a suspeita de um cofre na casa da família. Um crime bárbaro que foi investigado por seis anos por Capote que percorreu ruas poeirentas, anotou oito mil páginas de recortes de jornais, diários e cartas dos assassinos e relatos policiais, tudo a mão.

Capote esteve tão envolvido com os assassinos Richard Hickcok e Perry Smith, que foi convidado por eles para assistir ao enforcamento em 14 de abril de 1965. Hesitou no início, teve náuseas e vomitou na primeira execução, escapou da sala antes que Smith ser enforcado. Os policiais estavam certos de que eram amantes e se encontravam sob a vigilância dos guardas. Capote chorou o tempo todo na volta para Nova York.

No princípio

A pauta surgiu por acaso se comparada com a matéria que virou livro reportagem e romance não-ficção. O editor William Shawn esperou seis anos para que Capote entregasse o que seria a primeira versão. Ele estava em dívida com a revista pelos trabalhos pagos que ele não entregou. Uma nota na coluna de assassinato foi a oportunidade para realizar um projeto que marcaria sua vida no jornalismo e posteriormente na literatura, ou new journalism.

No início dos anos 1960, nos Estados Unidos os assassinatos em série começaram a ser dolorosamente comuns, mas somente o martírio da família Clutter se tornou uma obra de arte. Capote escreveu A sangue frio de uma forma bem pessoal, do jeito que só ele sabia. Sem gravador e conversando com quem podia durante quase um ano e meio sem escrever uma única linha, ele decifrou os aspectos da história. A abstinência do gravador dava-lhe a oportunidade de chegar mais próximo das pessoas, tinha a capacidade de memorizar horas de conversas.

A obra de Capote tem íntima ligação com a filosofia editorial da revista The New Yorker. Era o tipo de jornalismo que ele, William Shan, o editor e Harold Ross, o fundador, procuravam publicar. De acordo com Matinas Suzuki Jr. eles concluíram que “havia uma sedutora zona cinzenta entre o jornalismo e a literatura”. Queriam muito mais do que relatos do fato e da violência, queriam mostrar os efeitos do crime numa sociedade interiorana.

O estilo literário

O livro de Capote destaca um gênero que ele declara ter criado, o romance não-ficção. No Brasil, o gênero é conhecido como jornalismo literário que mistura as técnicas da apuração jornalística e a técnica de romance, conto e crônica. Nos Estados Unidos, esse gênero surgiu espontaneamente na década de 1960 quando o jornalismo literário vivia uma fase de experimentos. Várias revistas e jornais se multiplicavam e também nomes como Tom Wolfe, o próprio Capote e Gay Talese se destacavam nesse gênero.

O novo estilo tinha características próprias e contraditórias, pois apresentava descrição minuciosa de cena após cena, detalhes precisos e muitos diálogos frutos de dias e meses de apuração dando liberdade aos repórteres de entrarem na cabeça dos perfilados e narrarem seus pensamentos. Dessa forma os jornalistas eram taxados pela crítica de impressionistas o que gerou um debate polêmico.

A crítica

 Houve algumas discussões na redação do New Yorker pela publicação da obra com relatos de cenas violentas e falta de provas em algumas passagens que desagradou o editor. Outra polêmica foi em relação a questão moral. Segundo o crítico teatral inglês Kenned Tynan, Capote teve durante todo o tempo de apuração dos fatos, capacidade e influência suficiente para provar a insanidade moral dos criminosos evitando a morte deles. Tynan para o jornal The Observer disse que Capote fez menos do que poderia para salvá-los. Que com a execução Truman estaria trazendo uma atração maior para A Sangue Frio e se beneficiando literalmente e financeiramente.

Capote se defendeu com a parceria da crítica do jornal The Nation, Diana Trilling, enviando uma carta ao Inglês Tynan relatando que a única obrigação moral que ele tinha era com os fatos, contar a história de Hickock e Perry, os assassinos da família Clutter.

Outra polêmica se deu a veracidade dos fatos relatados no livro com o ocorrido na noite de 15 de novembro de 1959. A dúvida gerou em cima do que era factual e ficção – o autor declara que o livro é romance não ficção. Alguns personagens questionaram a falta de precisão nos diálogos, frutos do método de entrevista que Capote usou. Até mesmo conversando com todas as pessoas, falando do mesmo assunto, questionaram a falta de precisão na transcrição dos depoimentos.

Existem autores que concluíram dizendo que Capote a partir de suas pesquisas criou um novo personagem baseado no que ele viu. Capote também se defende dessas “acusações” argumentando que ninguém, e principalmente os personagens de Holcomb envolvidos na história, não gostam de ser escritos como realmente são.

Essa seria a verdade absoluta pela qual existem críticos? Metralhar uma obra que tratou o crime como a pior barbárie que possa ter existido e buscar todos os detalhes possíveis, resultados de cinco anos de pesquisas, viagens, leituras e ainda concluir um final “justo”? Certo ele que declara o invento de um novo gênero, o new journalism.