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O preço de uma reportagem

Cígredy Neves

Ser repórter de guerra. Para alguns, algo desafiante e até mesmo fora de cogitação. Para outros, uma enorme paixão. Presenciar momentos históricos, entender o contexto em que vivem as pessoas envolvidas no combate, sentir o medo e o terror freqüentes nas áreas de conflitos, cumprir uma missão. Esses são alguns dos motivos que impelem um jornalista a cobrir um conflito entre nações.

É exatamente com esse pensamento que José Hamilton Ribeiro foi ao Vietnã para cobrir a guerra para a revista Realidade . A revista tinha como principal característica, apresentar a visão de seus repórteres nos diferentes temas abordados em cada edição, desmistificando os assuntos pertinentes à sociedade e que eram ocultados.

Ribeiro desembarcou na Conchinchina em 6 de março de 1968. A princípio, ficaria 40 dias no país, 20 no norte comunista e 20 ao sul, onde os norte-americanos dominavam, para que pudesse ter uma visão dos dois lados da guerra. É com esta imparcialidade que todo jornalista deveria atuar.

Ele ainda não tinha fotógrafo e precisava contratar um naquela região. Foi então que conheceu Keishaburo Shimamoto, fotógrafo japonês, e o convidou para trabalharem juntos. Os dois fizeram todas as fotos e reportagens, mas ainda faltava a foto que iria para a capa da revista.

Em 20 de março eles foram buscar a foto principal para o periódico durante uma batida na chamada “Estrada sem alegria”, em Quang Tri, no norte do Vietnã do Sul. A operação seria mais uma rotineira limpeza de minas vietcong. No entanto, o cenário encontrado não foi esse. Ao chegarem ao local, perceberam que alguns soldados norte-americanos haviam sido atingidos por minas e os enfermeiros estavam socorrendo. Um pouco mais adiante, outra explosão. Ansiosos para tirar boas fotos, os dois repórteres correram na direção da segunda explosão. Mas foi neste momento que se escutou um barulho ensurdecedor. Outra mina havia sido detonada próximo aos dois jornalistas, mais precisamente, o pé de Ribeiro havia acionado a mina.

Um alto valor

Quem disse que ser jornalista é uma profissão tranqüila? Que não é perigosa? Testemunhar os eventos de um conflito como a Guerra do Vietnã não foi nada fácil. Do ponto de vista jornalístico, ela foi a que mais matou jornalistas. Foram enviados dois mil correspondentes de todo o planeta, 66 morreram, ou desapareceram na batalha pela notícia. Na mente de Ribeiro, uma guerra era ruim, mas uma guerra sem jornalista seria pior ainda. E foi ao buscar um bom trabalho que ele acaba pagando um alto preço por uma reportagem: a sua perna esquerda.

O repórter foi atingido por uma mina. Shimamoto conseguiu a sua foto de capa. Acabou fotografando o próprio Hamilton ferido, depois do acidente. Ribeiro tornou-se célebre pela cobertura da Guerra no Vietnã, com a reportagem Eu estive na guerra, publicada na revista Realidade, em maio de 1968.

Um dos fatos que mais chamam a atenção no trabalho de Ribeiro é a maneira como ele descreve os horrores da guerra. Ao ser atingido, ele tem a sua própria história para ser relatada. E é em forma de diário que ele conta tudo o que aconteceu após ter pisado naquela mina. De um modo bastante impessoal, mas preciso e detalhado, o repórter conta todas as cenas, fazendo o leitor imaginar cada segundo que passara ali. O sangue jorrando, o pé esquerdo longe do corpo, a mão machucada, o rosto ensangüentado, a dor constante. Toda esta descrição sensibiliza qualquer um. O jornalista passou por várias cirurgias até ser transportado aos Estados Unidos, onde termina o tratamento, que inclui uma perna mecânica.

O trabalho e o trauma renderam a Ribeiro o livro O Gosto da Guerra. A reportagem virou diário, publicado em 1969, que se encontrava esgotado há vinte anos. Em 2005, chega às livrarias a reedição da obra. O autor conduz o leitor para o local dos atentados. Relata a passagem pela “Estrada sem alegria”, repleta de arroz e minas. E desabafa tudo o que sofreu após o seu ferimento. Ao final, um relato inédito sobre a sua volta ao Vietnã após 30 anos do acidente.

Hamilton Ribeiro nunca deixou de ser repórter. Trabalhou na Quatro Rodas, Folha de S. Paulo, Globo Repórter, Fantástico e Globo Rural, onde exerceu as funções de repórter e editor há vinte anos. É considerado um dos maiores jornalistas do Brasil. Já ganhou inúmeros prêmios, apenas de Prêmio Esso, a mais importante premiação do jornalismo brasileiro, foram sete.

O repórter conseguiu transmitir, em sua reportagem, todo o sofrimento de uma guerra. Trouxe à tona a realidade em que vivem as pessoas daquela região. Fez um trabalho singular, mas pagou um alto preço. Alguns dizem que para se alcançar o sucesso é necessário derramar sangue, suor e lágrimas. Para Hamilton Ribeiro, o preço não foi diferente.