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Escritores da história

Joelmir Melo

Alguns cidadãos desconfiavam e especulavam. Políticos, empresários e marqueteiros sempre souberam que dinheiro de caixa dois, das falsas igrejas, da corrupção política e contrabando de jogo alimentam campanhas eleitorais. Mas 2005 foi o ano em que as especulações foram comprovadas e dinheiro sem origem começou a aparecer em malas de tesoureiros partidários, de deputados-bispos evangélicos e até escondido na cueca de assessor. E, para piorar o cidadão mais chocado, comprovou-se que o Partido dos Trabalhadores também estava envolvido no caso.

Desde que foi divulgada na mídia a imagem do funcionário dos Correios, Maurício Marinho embolsando uma propina de três mil reais, o Brasil passou a viver um caos político de grandes proporções. Todos os fatos e trâmites do mensalão dariam uma bela reportagem. E deu. Memorial do Escândalo, de Gerson Camarotti e Bernardo de La Pena foi uma reportagem virou livro estilo instant book. A grande reportagem é o primeiro livro que cobre a atual crise política, que culminou em três Comissões Parlamentares de Inquérito, além de investigações por parte da Polícia Federal e Ministério Público.

Não é tão simples encontrar fontes que saibam sobre o assunto e queiram revelar os fatos como ocorreram. Mas os autores pesquisaram a fundo os bastidores da luta entre os partidos de oposição e o governo, as idas e vindas nas investigações e os perfis dos principais envolvidos. Anônimos como o publicitário Marcos Valério tornou-se peça chave para desvendar os meandros da corrupção. O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, o deputado José Dirceu, o banqueiro Daniel Dantas e o próprio presidente Lula também entraram no espetáculo como estrelas de primeira grandeza.

Gerson Camarotti e Bernardo de La Peña, de O Globo, trabalharam durante os meses de agosto, setembro e outubro, reunindo e apurando todas as informações disponíveis e, algumas, exclusivas, sobre a crise, que havia sido deflagrada em maio. Eles pesquisaram desde a primeira denúncia divulgada na revista Veja, sobre a corrupção nos Correios e o envolvimento do deputado Roberto Jefferson.

O trabalho mostra aos brasileiros que, pela primeira vez, haviam elegido um presidente-operário, puderam descobrir que o PT agira como qualquer outro partido, utilizando dinheiro de caixa dois para financiar campanhas e, o que ainda se investiga, comprar votos de deputados. Denúncia também feita nos governos Sarney e FHC.

Era muita informação para os cidadãos do país. Assim como no 11 de setembro ou no tsunami, os fatos monopolizaram o espaço da mídia e do jornalismo brasileiro. O cidadão não tinha tempo para respirar e ter uma noção do que estava se passando, tamanho o volume de informação transmitida a cada dia. O leitor queria entender o que estava acontecendo. Precisava de uma análise.

A reportagem de Gerson Camarotti e Bernardo de La Peña procura mostrar os bastidores de umas das maiores crises da política brasileira e revelar como o partido do governo mostrou-se ser igual aos outros. Uma tragédia política do partido que se dizia puro, limpo, transparente, coloca à mostra os podres do Congresso Nacional, do sistema partidário e do próprio governo. A grande reportagem tem, é claro, uma linguagem simples, objetiva. Mesmo sendo escrita por profissionais que já estavam envolvidos na cobertura diária, a reportagem possui um grau de análise que o diferencia dos textos da urgência diária.

Com certeza, Memorial do Escândalo, será tema de estudo para muitos estudantes de ciência política e áreas afins. O que vivemos foi história. Esse é o grande desafio dos repórteres. Escrever uma reportagem sem torná-la uma simples matéria, condenada ao esquecimento quando surgi uma novidade maior.