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O “tom” do jornalismo

Rizza de Matos

Quem nunca assistiu a um filme que tinha como enredo uma grande reportagem feita por um jornalista que mediante a publicação de livros e matérias conseguia mudar a sociedade onde estava inserido? São enredos comuns nas tramas hollywoodianas, mas quando os créditos começam a aparecer na tela fica a impressão que só existe jornalismo social em outros países e para a nossa terra verde-amarela só resta a corrupção e um jornalismo que se vende por (quase) nada.

É verdade que a nossa imprensa nunca foi homenageada em filmes. No entanto as grandes reportagens existem no nosso jornalismo. Um exemplo é o livro do jornalista Caco Barcelos, Rota 66 - a história da polícia que mata. A obra é referência em jornalismo investigativo, uma grande reportagem que descreve com detalhes o funcionamento das operações policiais da Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota).

Contexto social

Em1968 o governo militar decretou o AI-5 (Ato constitucional nº. 5) que suspendeu todos os direitos dos civis. Ou seja, qualquer pessoa podia ser presa sem julgamento ou provas. A oposição ao Estado tornou-se quase impossível. Foi nessa época que os movimentos populares passaram a fazer oposição ao governo de forma armada, aumentando o número de guerrilheiros. Para deter as ações desses grupos esquerdistas o governo instituiu dentro da polícia militar a Rota, uma policia sangrenta de repressão que torturava e matava sem piedade e covardemente suas vítimas.

O governo da ditadura acabou, mas a Rota ficou como herança desse sistema. Ela continuou a operar nas ruas do país, usando as mesmas táticas. A Rota passou a combater cidadãos comuns ao invés de guerrilheiros. E foi dentro desse cenário pós-ditadura que Caco Barcellos escreveu uma das obras-primas das reportagens policias. E depois de acompanhar as barbáries cometidas por essa instituição policial, em 1992 ele publicou Rota 66, que é uma denúncia social sobre as barbáries e os abusos realizados pela polícia.

Aula de jornalismo

Caco não deve ter faltado às aulas de técnicas de reportagem, e essas aulas somadas com a sua experiência profissional resultam nessa reportagem que lhe deu o prêmio Jabuti, e transformou o seu livro em best-seller na categoria jornalismo investigativo.

As entrevistas - que são a base para as boas reportagens - são exemplares em Rota 66. Ao ler o livro é possível notar as riquezas dos detalhes que não foram omitidos, e demonstrando credibilidade, pois as informações são precisas. Isso garante o interesse do leitor. O livro é resultado de sete anos de pesquisa. O autor contou com uma equipe composta por estudantes de jornalismo e mais dois colegas de profissão que o ajudaram a apurar os fatos.

Mas a maior lição de jornalismo que essa reportagem traz é o comprometimento com a verdade. Caco não se contentou com a versão original dada pela policia sobre os fatos. Ele queria algo mais, a busca pela verdade. Isto o impulsionou a pesquisar intensamente. Suas fontes de pesquisas foram os laudos médicos, a própria polícia e as famílias das vítimas. E foi através dessas investigações que o livro revelou os fatos que desmascarou o sistema abusivo dos policiais da Rota.

Caco Barcellos não escreveu um livro sobre grandes personagens da história ou sobre grandes acontecimentos. Pelo contrário: ele partiu de suas próprias experiências para relatar com a paixão de um verdadeiro defensor social histórias de gente inocente, famílias compostas por Joãos e Marias que foram coagidos por esse sistema brutal e mortífero.

Esse deveria ser o tom do jornalismo brasileiro. A imprensa que se diz o quarto poder deveria ser espelhar em reportagens como essa, onde o repórter luta como um agente social, a favor dos desfavorecidos. Mesmo não transformando o país em uma sociedade igualitária, ele contribui para que a população saiba o que realmente acontece nos bastidores do poder. E para os que estão no poder, mostra que a eles que não estão imunes e que suas ações podem e dever ser descobertas.