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Suicídio aplaudido

Larissa Jansson

Na noite de 2 de junho de 2002, o repórter da rede Globo Arcanjo Antônio Lopes do Nascimento - mais conhecido como Tim Lopes - desapareceu na Vila Cruzeiro, na Penha, Rio de Janeiro. Lopes realizava uma matéria que denunciava o abuso sexual de menores e tráfico de drogas em um baile funk naquela comunidade.

Dias depois, uma microcâmera foi encontrada junto com os restos mortais carbonizados do jornalista numa área controlada pelo Comando Vermelho. Tim foi descoberto pelos traficantes, levado para o topo da Favela da Grota, no Complexo do Alemão, torturado e morto a golpes de espada pelo traficante Elias Maluco. Os bandidos esquartejaram e queimaram o corpo a fim de dificultarem a identificação.

Tim era também o autor da matéria que exibia o “Feirão das Drogas” no complexo do Alemão, Mangueira e outras favelas cariocas no ano anterior. As imagens levadas ao ar na Globo em agosto de 2001, mostravam traficantes vendendo drogas aos berros na rua e em plena luz do dia. O trabalho rendeu a ele e sua equipe um prêmio Esso. E também a fúria dos traficantes que tiveram seus lucros comprometidos nas áreas denunciadas devido à ação da polícia motivada pela reportagem.

A morte brutal de Tim Lopes chocou a sociedade, repercutiu internacionalmente e foi encarada como uma ameaça à liberdade de imprensa. E com a comoção e inúmeras homenagens, houve também a revolta. Muitos dizem que Tim na verdade foi vítima de uma armadilha e que seus patrões tentaram – e conseguiram – se esquivar da responsabilidade de sua morte. Muitas dúvidas sobre o ocorrido existem até hoje, quatro anos depois.

A rede Globo foi e continua sob suspeita e acusação de jornalistas e profissionais da área de justiça por não oferecer a segurança necessária aos seus jornalistas que trabalharam e trabalham nas mesmas condições de Tim.

Negligência

Uma das versões que lançam dúvidas acerca da honestidade da emissora carioca sobre o caso, são as denúncias da jornalista Cristina Guimarães que trabalhou na emissora por mais de dez anos e fez parte da equipe de Tim na reportagem do feirão das drogas. Poucos meses antes da morte do colega, Cristina teria alertado seus superiores para as constantes ameaças de passara a sofrer por parte do crime organizado depois a que matéria foi levada ao ar. Teve seus apelos ignorados e optou abandonar as atividades para garantir sua segurança.

De acordo com o site fazendomedia.com, Cristina foi convidada ao debate Globo: 40 anos de manipulação, realizado no dia 26 de abril de 2005, onde lançou dúvidas sobre as versões oficias da morte do colega: “Se vocês me perguntam quem matou Tim Lopes, eu acho que não foi o Elias Maluco, porque tudo foi mudado nessa história que se conta", disse.

"A TV Globo mandou o Tim pra lá, não pra cobrir o baile funk, como disseram, pois o baile começa às 23h e ele pediu para o motorista buscá-lo às 22h".

No artigo “Um caso ainda não esclarecido” do jornalista Mário Augusto Jakobskind, Cristina garante que a Globo arriscou a vida dos jornalistas, por ter como hábito obrigá-los a voltar aos locais onde as matérias foram produzidas caso as imagens não fossem satisfatórias.

"Eu mesma fui obrigada a voltar à Mangueira para repetir imagens porque as chefias exigiam, o que era um risco muito grande. Era isso ou perder o emprego. E o Tim Lopes foi lá no Complexo do Alemão por que queria? Ficou se expondo por que queria? Claro que não. É um absurdo terem mandado ele voltar em local de risco tão grande como o Complexo do Alemão. E ele voltou lá pelo menos umas quatro vezes."

Como uma emissora praticamente abandona um jornalista em um local extremamente perigoso, infestado de traficantes que ao que tudo indica já queriam a cabeça de Tim Lopes? E por que ao perceber que o jornalista havia desaparecido, preferiu agir por conta própria, acionando a polícia somente horas depois, na manhã seguinte?

A TV Globo afirma que o que motivou a reportagem foram as denúncias dos moradores da Vila Cruzeiro que, cansados da conivência da polícia, passaram a fazer as reclamações à emissora. Mas para muitos, Tim pode ter caído numa armadilha do tráfico, facilitada pela irresponsabilidade de seus patrões.

Outro fato a avolumar o festival de absurdos é que a pessoa que conduziu Lopes à Favela Cruzeiro na noite de sua morte simplesmente desapareceu. Ninguém sabe onde foi parar este guia – e importante testemunha. A viúva de Lopes, Alessandra Araújo Wagner em depoimento ao jornal O Dia , também levantou questionamentos sobre isso. E em um depoimento a viúva de Tim Lopes levantou a suspeita de que seu marido tenha sido traído por esse guia.

Todos os que moram no Rio de Janeiro sabem o que acontece nos bailes funks, bocas-de-fumo, favelas e tudo o que é dominado pelo tráfico. Esses cidadãos estão há anos reféns da violência dos bandidos e da inércia das autoridades. Nada disso é novidade para eles. Mas o afã sensacionalista e irresponsável da rede Globo obrigou um ótimo profissional a praticamente cometer suicídio triste, ridícula e cinicamente aplaudido dias depois pela redação do Jornal Nacional e outros hipócritas e desinformados que permeiam a sociedade brasileira.