A Copa do Mundo sem dúvida é um acontecimento que mobiliza bilhões de pessoas. Exatamente por ter essa característica, a mídia investe milhões no mundial de futebol para transmitir e divulgar o maior número possível de matérias, reportagens, boletins e tudo que a imprensa pode oferecer em termos de notícia sobre futebol. Diante disso, há muito o que ser avaliado e discutido, para tanto o Canal entrevistou o comentarista esportivos Manoel Castanho que falará sobre a cobertura da mídia na Copa do Mundo 2006.
Castanho é carioca formado em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB). Além de ter participação em 12 antologias literárias, já escreveu sobre automobilismo e considera-se apaixonado por todos os esportes.
Canal da Imprensa - Que avaliação você faz sobre a cobertura da mídia brasileira na Copa do Mundo até agora, em termos de qualidade e ideologia?
Manoel Castanho - A mídia mundial transformou a Copa do Mundo no maior reality show que existe. Informa tudo o que os jogadores fazem ou deixam de fazer. Houve um momento em que me encheu a paciência ligar a televisão e ver notícias de Weggis (cidade suíça em que a seleção brasileira esteve treinando antes de ir para a Alemanha). A imprensa brasileira nos mandou uma enxurrada de matérias, mas quase sempre sem que o receptor tivesse uma idéia do que esperar quando chegasse a Copa do Mundo. Vemos hoje um Ronaldo lento e fora de forma. Será que isto já não era visto nos treinos? Ou será que era mais importante naquele momento informar que o Emerson e o Roberto Carlos foram para a balada no dia de folga? Em certo momento os próprios jornalistas já não agüentavam mais esta rotina e diziam coisas do tipo "eu quero que esta Copa comece logo" (me refiro mais concretamente ao José Trajano, da ESPN Brasil).
C.I. - Sem a cobertura da mídia, a Copa do Mundo teria a importância que tem hoje?
M.C. - Talvez não tivesse a mesma capacidade de fazer o mundo parar para acompanhar as partidas, mas certamente teria uma importância muito grande. O ditador fascista Benito Mussolini compreendeu esta importância quando a Copa do Mundo foi levada para a Itália em 1934. A ordem para a seleção italiana era ganhar ou morrer. E ganhou em 1934. No mundial seguinte, em 1938, a Itália venceu novamente e seu capitão Giuseppe Meazza, ao receber o troféu, prontamente fez uma saudação fascista (o que nos dias de hoje não seria permitido, haja vista o exemplo do atacante Paolo di Canio na última temporada). Vale destacar que entre estes dois mundiais, Berlim recebeu os Jogos Olímpicos de 1936, que Hitler quis usar como instrumento de propaganda das idéias nazistas e da superioridade ariana. Mesmo sem uma cobertura como a dos dias atuais, a Copa do Mundo tem importância sim. Não a mesma que tem hoje. Mas tem.
C.I. - Coincidência ou não, a Copa ocorre em ano de eleição, e para muitos ela acaba sendo mais um agente alienador. Como você avalia essa questão, a Copa atrapalha o brasileiro a votar consciente?
M.C. - Já imaginei que a Copa do Mundo afetasse fortemente as eleições, especialmente pelo que vimos em 1994: o Brasil foi campeão, a população escolheu Fernando Henrique Cardoso como presidente, ele que era ministro e que lançou o Real como moeda nacional. Mas em 1998 o Brasil foi derrotado, e FHC foi reeleito no primeiro turno. E em 2002, quando o Brasil voltou a ser campeão mundial, um candidato de oposição (Lula) foi eleito presidente.
Há um sentimento forte do povo por sua seleção, muito mais forte do que pelos políticos. A camisa da seleção vale tanto quanto a bandeira nacional nesta hora (e após a derrota de 1998, muitos brasileiros queimaram camisas juntamente com bandeiras). Enquanto a seleção for assunto, a política deixa de ser. E aí reside um problema: isto pode alienar o público e fazê-lo esquecer dos recentes escândalos. E estes fatos recentes não podem ser esquecidos.Governos anteriores já usaram a seleção brasileira como forma de propaganda política. Penso que o governo atual também quererá fazer o mesmo uso, caso venha o hexacampeonato. Mas não acho que o impacto de um possível título seja decisivo na próxima eleição.
C.I.- Analisando o futebol como agente unificador de povos, ele pode ser considerado mais que um simples esporte?
M.C. - Se analisarmos por vários ângulos diferentes veremos que o futebol é muito mais do que um esporte. Nem sempre é um fator unificador, mas pode ser usado como. Esta Copa do Mundo usa um slogan que diz "é tempo de fazer amigos", e seria lindo se fosse assim, mas nem todos os problemas estão reduzidos a uma partida de futebol.
Costuma-se falar de uma ocasião em que, na Nigéria, a presença do Santos de Pelé parou uma guerra. E tomando a história recente de nossa seleção, podemos ver um caso parecido. O Haiti, mergulhado numa guerra civil, literalmente parou para ver os jogadores da seleção brasileira, não só em campo, mas também fora dele (desfilaram em tanques pelas ruas da capital). A pergunta é: o que aconteceu depois? Como está o Haiti hoje?
Trazendo a discussão para um caso de Copa do Mundo: em 1998 jogaram Irã e Estados Unidos. Os jogadores iranianos levaram flores para os americanos. Foi um momento bonito. Mas o resultado final foi 2 a 1, o que eliminava a equipe norte-americana, e bastou isto para que alguma autoridade iraniana dissesse que "Alah nos enviou para expulsar Satã da Copa". Por estes exemplos, podemos ver o futebol como algo que é muito mais que um esporte, mas o futebol não é tudo o que dizem ou esperam dele. O futebol sozinho não vai unir os povos.
C.I.- Sabe-se que os patrocinadores influenciam muito na vida dos jogadores.Até que ponto um patrocinador pode determinar a escalação de um jogador em uma seleção?
M.C. - No caso específico da seleção brasileira, houve um contrato firmado com a Nike em 1997, no valor de 400 milhões de dólares, por 10 anos (40 milhões anualmente). Algumas cláusulas do contrato eram secretas, e entre elas suspeita-se que estivesse a escalação de uma quantidade determinada de jogadores que fossem patrocinados pela Nike. Em 2001 aconteceram os ataques de 11 de setembro e seguido a isto um enorme esfriamento na economia mundial. Os diretores da Nike se reuniram com dirigentes da CBF e definiram uma diminuição nos valores do patrocínio. Em troca, a Nike perdeu certos privilégios.
Hoje é comum alguns torcedores suspeitarem que Ronaldo está escalado na equipe por imposição de patrocinadores, mesmo jogando mal, mas não acredito que isto aconteça. Talvez em 1998 tenha acontecido. Mas hoje a situação é outra.
C.I. - A seleção brasileira tem vários patrocinadores, entre eles a companhia de cervejaria Brahma. Não seria incoerente a CBF aceitar esse tipo de patrocinador?
M.C. - Houve uma campanha forte no mundo todo para proibir a associação da propaganda de cigarro com o esporte. O mesmo ainda não aconteceu com cerveja ou outras bebidas alcoólicas. Muitos jogadores acreditam que não são responsáveis pelos produtos que divulgam. Eles fazem a propaganda, colocam mais algum dinheiro no bolso e fica por isso mesmo. Futebol e cerveja estão bastante associados e os bares ficam lotados na hora dos jogos. A CBF está fazendo o mesmo: ganhando dinheiro em cima deste patrocínio.
Vejo incoerência no fato de um jogador aceitar fazer propaganda de uma cerveja. Afinal, se a torcida souber que algum jogador costuma beber muito, certamente vai pegar no pé deste jogador. Já vi no estádio a torcida gritar para um atacante, após ele perder uma jogada na corrida contra um zagueiro: "é a cerveja que está te acabando".
Vejo como condenável o desfile que aconteceu em Brasília, por ocasião do título de 2002. Os jogadores recusaram o caminhão de bombeiros (o mesmo que havia levado a seleção de 1970, os próprios bombeiros fizeram uma vaquinha para fazer alguns reparos nele) para desfilar num caminhão da Brahma. Estavam fazendo propaganda de um produto que provavelmente não puderam utilizar (ou se puderam certamente foi muito controlado) enquanto estiveram concentrados na Coréia e no Japão.
C.I. - Como você avalia o desempenho da seleção brasileira até aqui?
M.C. - O que estou vendo é mais ou menos o que todos estão. O chamado quadrado mágico foi testado em 2005 nas eliminatórias contra o Paraguai e Argentina e depois na Copa das Confederações. Em nenhuma destas ocasiões Ronaldo esteve presente.
Entre o primeiro e o segundo jogo, houve uma mudança no comportamento de Ronaldo: ele tentou participar mais, buscar mais o jogo. Mas ele ainda está acima do peso, e o que é pior, já não tem a mesma mobilidade. Adriano também é pesado, mas esta sempre foi a característica dele - é diferente de um Ronaldo que não consegue fazer hoje o que fazia quando era magro. Robinho e Fred são dois jovens motivados, que estão apenas começando a brilhar na Europa, por isso eles contam com uma motivação elevada. Defendo que entrassem Adriano e Robinho no primeiro tempo, e no segundo tempo fosse colocado o Fred.
Outra coisa que preocupa é a atuação de Ronaldinho. Falam que ele não é o mesmo no Barcelona e na seleção. Esta situação aconteceu antes com Rivaldo. O Barcelona joga em um 4-3-3 e Ronaldinho faz parte dos três do ataque, jogando pela esquerda, com Eto'o no meio e Messi na direita. Vem um meio-campista de trás e há um Eto'o bastante ágil para fazer jogadas com ele. No Brasil é diferente: há dois atacantes parados no meio, há Kaká pela direita e ninguém chegando para fazer esta função pelo meio. É neste momento que a entrada do Robinho ajuda, porque ele e o Kaká se alternam entre o meio e a direita. É isto que os comentaristas afirmam quando dizem que Robinho "cola" o meio-campo.
C.I. - Um palpite para a final da Copa.
M.C. - Brasil e Alemanha. E aposto mais numa vitória alemã, porque eles estão em casa e historicamente isto sempre pesou em Copas do Mundo. Prova disso é que na última o Japão chegou às oitavas-de-final e a Coréia do Sul ficou com o quarto lugar. A Alemanha vinha sendo criticada (e continua sendo, por ter jogado contra adversários de menos força na primeira fase) e seu treinador também, mas o time vem se acertando e uma vez iniciado o torneio, toda a torcida apóia o time. |