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O barato da bola

Larissa Jansson

Uma das coincidências das mais infelizes neste País é que nos anos de eleições presidenciais ocorre também a copa do mundo. Logo nestes tempos o povo brasileiro – famoso por sua passividade e apatia diante dos vários absurdos que permeiam praticamente todas as áreas da administração pública, por exemplo - parece mergulhar mais fundo neste torpor coletivo. E pior: com senso de patriotismo totalmente distorcido e uma esperança por algo, em última análise, desnecessário.

Durante um mês, uma nação inteira parece ser transportada para outra realidade onde tudo é futebol, e a seleção brasileira é a garantia da realização de todos os sonhos e necessidades. O patriotismo e identidade nacional surgem do nada com um vigor impressionante nos corações da maioria dos brasileiros. Um orgulho infundado toma conta do País.

As horas que antecedem aos jogos assemelham-se a uma preparação para uma guerra em que interesses, liberdade e a própria honra da pátria serão defendidos com sangue, suor e lágrimas. Tem-se a impressão de que a divina Seleção Brasileira de Futebol, se vitoriosa, assegurará um futuro promissor às próximas gerações de adoradores fiéis e soberania inquestionável ante o mundo.

Mas no mundo real...

Enquanto isso, no mundo real, as impunidades seguem firmes, os direitos básicos das massas violados, a omissão e cinismo da maioria dos governantes continuam. O momento pré-eleitoral se aproxima, e com ele uma chance de avaliar mais detidamente a situação política. Como resultado de profunda reflexão, os eleitores poderiam manter o quadro como está ou fazer uma faxina, se necessário fosse.

Mas lá no planeta para onde mais de 165 milhões de pessoas – incluindo um presidente palpiteiro - foram subitamente abduzidas, isso é irrelevante, já tudo é perfeito. A seleção é tudo: emprego, segurança, educação, justiça, liberdade, decência. A massa trajada de verde e amarela reflete a felicidade e contentamento de uma justiça social impecável.

Durante a ditadura, os militares adoravam a Copa, uma eficaz ferramenta para manter o povo distraído e iludido ao mesmo tempo em que era privado de seus direitos e o banho de sangue rolava solto. Os tempos são outros – em teoria o Brasil está numa era democrática – mas quem (des)governa agora também curte a “viagem” coletiva da massa. Deste modo, conforme seus antecessores, conseguem ter os já sonolentos olhos da opinião pública desviados de seus atos. E observa-se no atual governo, com o apoio da mídia, a tentativa de incentivar um patriotismo falso, vazio e volátil.

É interessante parar, pensar e tentar entender como evento esportivo consegue ter essa força hipnotizante. Basicamente trata-se de um jogo que consiste em 22 homens correndo atrás de uma bola com objetivo de colocá-la dentro da rede adversária durante dois períodos de 45 minutos. Mas mesmo assim tem potencial para envolver e emocionar de formas variadas os fãs. E isso não é problema. Lazer e emoção são importantes, pois ninguém é de ferro. O torcedor apaixonado precisa de algo para alimentar sua paixão.

Mas, o que ocorre é que a coisas talvez saíram de ordem. O esporte, que faz parte de um universo de coisas secundárias, rouba o lugar de assuntos e eventos indiscutivelmente mais relevantes. Os jogadores que têm sua vida restrita exclusivamente a essa atividade assumem papeis de semideuses, ganhando fortunas astronômicas ao passo que profissionais que formam mentes e salvam vidas, por exemplo, vivem realidades bem mais modesta e ingrata.

A “culpa” desta inversão das coisas sem dúvida alguma é da mídia em geral, principalmente a publicidade - perita em transformar o simples em transcendental, desejado e idolatrado -, além de outros interesses já citados. Se não fosse assim, o futebol continuaria a ser um lindo espetáculo unificador de povos. E só. Mas quando a ganância entrou em campo, tudo mudou e os crescentes absurdos são apenas os resultados encarados com assustadora naturalidade.