Diante da crise de segurança pública desencadeada pelo PCC, pode-se dizer que a imprensa de modo geral fez o que é sua obrigação: informar. Mediante os veículos de informação a sociedade brasileira foi informada como aconteceram os ataques do PCC - facção responsável pelas ondas de ataques no estado de São Paulo além de rebeliões em diversos estados do País.
Mediante as páginas das revistas, jornais e dos principais noticiários os cidadãos conheceram melhor quem é Marcos Camacho, o Marcola. Tomaram conhecimento dos discursos vazios e irresponsáveis dos governos estadual e federal, que procuraram tirar proveito da situação, num ridículo empura-empurra da culpa em pleno ano eleitoral.
Detalhes sobre como o PCC funciona foram esclarecidos: histórico, hierarquia, principais líderes, arrecadação e movimentação financeira, influência dentro e fora dos muros das cadeias.
Demagogia
Um dos destaques foi a revista Veja, ao chamar o leitor de volta à realidade intencionalmente deturpada por políticos doidos para tirar uma casquinha da situação. Na coluna “Trololó Tucano” da edição de 19 de julho, André Petry traça uma retrospectiva mostrando a princípio tucanos como o candidato à presidência Geraldo Alckmin defendendo o sistema carcerário do estado de São Paulo, comparando os dados dos presídios com a realidade européia; explicando os ataques como resultado de uma ação correta do governo paulista ao prender um dos líderes do crime organizado e até coisas óbvias demais: “Nosso problema são os presos...”, descobriu o inocente candidato.
Contudo, ao ver a coisa sair do controle, o principal partido da oposição passa a ter um discurso oposto, chegando até a insinuar, sem evidências, uma aliança PCC - PT – quem proferiu a acusação irresponsável foi primeiramente o senador catarinense Jorge Bornhausen numa entrevista à Folha de S. Paulo do dia 13 de julho. A “justificativa” foi rapidamente adotada por Alckmin, que acabou se “esquecendo” do seu discurso anterior e caindo em flagrante contradição.
Além da mudança do discurso, o colunista observa que “Lula não fez nada na área de segurança pública. Na campanha de 2002, disse que seria sua prioridade, apresentou um programa bonitão, e, depois de eleito, engavetou as letras. (...) Mas, cá para nós: os tucanos governam São Paulo há doze anos, governaram o Brasil por oito anos e Lula há quatro no poder, é o único culpado pelo caos?”
Diferenças
Quanto à polêmica relutância do governador Cláudio Lembo de recusar ajuda do governo federal desde a primeira onda de ataques, afirmando – uma das vezes ao vivo durante o Jornal Nacional - que a situação estava sob controle, observou-se uma divisão nas opiniões. Veja deu a entender que o esforço do governo federal é inexpressivo, visto que as forças de segurança do estado de São Paulo contam com 130 mil agentes, contra os 40 mil da Força Nacional de Segurança prometidos por Lula.
A matéria de Carta Capital de 19 de julho , porém, informa que “(...) especialistas afirmam que tropas externas podem ajudar. Em uma situação de ataque, dizem, geralmente o contingente policial acaba concentrado em trincheiras, fazendo a proteção de delegacias e outros órgãos públicos, ou em bloqueios em estradas, e abandonam as ruas. Uma tropa federal não está apta para invadir uma favela ou vizinhança suspeita, mas é treinada para ficar em bloqueios, enquanto a polícia estaria na rua. Tratando de investigar ações e evitar novos ataques.(...) ‘Se São Paulo continua achando que a situação está normal, o governo federal não pode fazer nada' disse Lula.”
Uma das causas do impasse: novamente interesses ligados às eleições em outubro. Lembo estaria recusando auxílio por pressão interna de seu partido em Brasília. Os tucanos precisariam evitar a todo custo uma situação de dependência que prejudicaria Alckmin em outubro.
Outra questão interessante levantada pela imprensa é que, durante a reação da polícia em resposta aos atentados, estariam ocorrendo abusos e até mesmo um novo esquadrão da morte. A média de pessoas mortas pelos policiais neste período saltou de 0,7 para 14 por dia, totalizando 126 mortes oficialmente divulgadas. A esta acusação o secretário de Segurança de São Paulo, Saulo Abreu, negou garantindo que as estatísticas apenas revelavam o efeito “pronta resposta”: Se o bandido atira, morre. Contudo, organizações ligadas aos direitos humanos chamam a atenção para o fato de que em 70% dos casos existem indícios de execução.
Exagero
Uma louvável atitude de alguns órgãos da mídia foi colocar o PCC em seu verdadeiro lugar, alertando para o erro de superestimar os bandidos, o que justificaria a tomada de medidas extremas, impensadas e perigosas por parte do Estado. Não se trata de uma super organização liderada por gênios do crime com poder ilimitado. O PCC não tem planos de intimidar sociedade e autoridades a ponto de ser considerado um poder paralelo. E explica a mitificação de Marcola e sua turma como uma forma de minimizar a humilhação a que as autoridades em geral foram submetidas.
Outro ponto positivo é a identificação das causas do caos de segurança pública. Dentre elas um Estado omisso, falido, corrupto e desmoralizado há anos, independentemente do partido que ocupe o poder. E os veículos que além de críticas, apontaram soluções viáveis para a solução da bagunça que virou a segurança pública nacional, se preservaram do sensacionalismo, prestando um importante serviço à democracia. |