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Um criminoso intelectual

Cássila Carvalho

Filho de um boliviano e uma dona-de-casa brasileira, Marcos Willian Camacho é o homem por trás da maior organização criminosa do País, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Também conhecido como Marcola, teve uma infância pobre, mas não miserável. Perdeu a mãe aos nove anos de idade, vítima de afogamento, e o pai aos dez num acidente automobilístico. Órfão, Marcola foi morar junto com o irmão mais novo, Alejandro, na casa da tia.

No crime, Marcola começou cedo. Deixou a escola na quarta série para furtar carteiras e toca-fitas na baixada do Glicério, Centro de São Paulo. Lugar conhecido pela pobreza e por abrigar menores infratores.

Hoje, aos 38 anos, Marcola já passou por pelo menos 15 presídios. Cumpriu pena em regime semi-aberto, em liberdade condicional, com quatro tentativas de fuga. Em uma delas procurou abrigo no Paraguai e só foi capturado quando tentou visitar o irmão em São Paulo.

Apesar do que o histórico possa sugerir, Marcola é considerado um homem culto. Gaba-se por ter lido diversos livros. Entre eles, O Pequeno Príncipe do fracês Antoine Saint-Exupéry, A Arte da Guerra, do filósofo chinês Sun Tzu, e várias obras do escritor russo Fiódor Dostoievski.Também está sempre com o cabelo bem cortado e penteado e com uniforme impecável. Sua fala é pausada e educada.

Esse gosto ele deve a sua ex-mulher Ana Maria Olivato. Amiga de uma tia de Marcola, Ana o conheceu quando decidiu ir à prisão para ajudá-lo no processo. Onze anos mais velha, a estudante de direito deparou-se com um rapaz de 18 anos por quem se apaixonou e com quem se casou em 1990, na própria cadeia. Estiveram juntos por 11 anos.

Acusado de planejar e praticar crimes a sangue frio, principalmente assaltos a bancos, Marcola foi condenado a 44 anos de prisão. É o principal suspeito de ser o mandante do assassinato do juiz e corregedor de Presidente Prudente, Antônio José Machado Dias, morto com três tiros em 14 de março deste ano. Marcola nega essa e todas as acusações, e mesmo pertencer ao PCC. Mas a polícia tem motivos para acreditar em sua culpa.

Mesmo com todo esse conhecimento, espera-se que Marcola não fique impune por seus crimes. A população aguarda que depois de todo caos e sofrimento causado por eles e seus comparsas à população de São Paulo, ele continue onde está. Pois ler Dostoievski ou Exupéry não inocenta ninguém.