A revista Veja, em seus mais de 40 anos de existência, conquistou o respeito e a admiração da sociedade brasileira. Um trunfo que não foi obra do acaso, mas resultado de um trabalho que à primeira vista, sempre foi sério e responsável. Contudo, é preciso questionar se de fato isso é uma realidade constante no periódico, se essa seriedade é mantida em todos os momentos. Antes de resolver a questão, no entanto, é valido lembrar que o jornalismo atual está afogado num mar de concorrência pela informação no qual muitas vezes, se lança mão do sensacionalismo para se sobrepor aos rivais da imprensa.
O caso recente dos ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) a civis, militares, patrimônios públicos e privados do estado de São Paulo serve como um exemplo para acabar com essa questão com relação do periódico. O episódio, iniciado no dia 12 de maio deste ano, recebeu a primeira cobertura de Veja na edição do dia 17 do mesmo mês. Mas foi só uma semana depois, no dia 24, que o acontecimento ganhou relevância na revista. Nessa edição, o periódico trouxe a matéria “Terror em São Paulo”, reportagem de capa.
Apesar de o título parecer sensacionalista, a matéria não foi. Nela, Veja deixou de lado as cenas de violência da organização criminosa e enfatizou outros três assuntos: como age e como está estruturado o PCC, o que poderia ser feito para solucionar o problema da insegurança pública no País e qual é parcela de culpa que o Estado brasileiro tem pelos ataques dos bandidos.
Na mesma edição o articulista Roberto Pompeu de Toledo fez uma alusão a um possível acordo que o estado firmou com o líder do PCC, Marcos Camacho, quando enviou até o criminoso uma comitiva que supostamente negociaria com ele o fim dos atentados a São Paulo.
Embora Veja não tivesse criado nenhum espetáculo até a última seção citada, o periódico aparentemente apresentou um sensacionalismo. Isso aconteceu na edição do dia 12 de julho, quando a revista, ironicamente, comentou a situação precária daqueles que aterrorizaram SP: integrantes do PCC (1443 criminosos do presídio de Araraquara) que estavam isolados num bloco daquela cadeia, após destruírem boa parte da mesma em uma rebelião.
Fora essa exceção, Veja continuou com sua seriedade jornalística no que diz respeito a cobertura do caso. Na edição de 19 de julho - última vez que o assunto teve relevancia na revista - o periódico trouxe a matéria “O poder nas mãos dos bandidos” que discorreu sobre a estrutura que sustenta a força do PCC em SP e o que pode ser feito para acabar com o terror desse tipo de organização criminosa. Na página 56, Veja trouxe outra matéria (“A riqueza roubada”), na qual falou sobre quanto o Brasil deixa de ganhar com a criminalidade de facções criminosas.
Como se percebe, as triviais fotos alarmantes e aqueles textos jornalísticos, que mais parecem roteiros de filme de terror, não tiveram espaço na cobertura de Veja a violência ocorrida no estado mais rico do Brasil. A linha editorial do periódico preferiu sugerir soluções para a crise de segurança pública do que mostrar o lado cruel e “sensacional” dos ataques do PCC.
O resultado dessa escolha gerou elogios por parte da sociedade. Na edição do dia 31 de maio, a revista publicou na seção Cartas a opinião da leitora Helga Maria Saboia Bezerra: “Tudo o que ocorreu se deve a ausência de Estado. Veja diagnostica com maestria o problema da segurança no Brasil”. Na seção de 26 de julho a revista recebeu mais um elogio, desta vez do paulista Johnson Franklim Ramos Pimentel, de Ribeirão Preto, que qualificou o trabalho do periódico como “brilhante e bastante contundente”.
É fato que não se pode avaliar a opinião pública com apenas um ou dois comentários de cidadãos. Contudo, é necessário admitir que, na cobertura do caso PCC, Veja foi séria e responsável. |