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Fantasia para a imaginação

Tales Tomaz

A segurança pública entrou na agenda dos presidenciáveis para essa eleição inesperadamente. Até o início do ano, nenhum candidato pretendia tratar tão seriamente as questões que foram levantadas após o início dos ataques do PCC. Esse fato pode ajudar a explicar a cobertura que a Globo tem dado para os ataques e como ela tem abordado o PCC. Acreditar que as ações da Globo, como o grande veículo de comunicação que é, estão isentas de motivações políticas aproxima-se da crença em Papai Noel. Só que no bom velhinho acreditávamos quando éramos crianças.

Desde o início dos ataques, a cobertura global para os eventos relacionados ao PCC e às suas ações tem variado bastante na forma, mas não no objetivo. Nos primeiros dias, o Jornal Nacional se rendeu ao sensacionalismo com matérias fartas de imagens trágicas e pouco comentou sobre as reais causas dos ataques. Parecia até que a Globo estava jogando do lado do crime ao derramar sangue nas telas e aterrorizar a população – que “nem gosta de ver sangue”.

A ênfase nos números dos ataques e dos mortos começava a dar o tom das reportagens, e as imagens de carros e ônibus destruídos, em chamas, reforçavam o terror. Alguns textos de reportagens poderiam ser classificados como “quase poéticos”. Sabidamente, a poesia é a forma de conquistar o coração ou, em outras palavras, a emoção, uma forma simples e rápida de arrebatar a audiência. A edição do Fantástico que foi ao ar em 14 de maio, logo após o início dos ataques, seguiu a mesma linha, embora não tenha dado a mesma atenção ao assunto.

Somente a partir da metade da semana – mais precisamente na edição do dia 16 de maio – o JN passou a dar atenção aos problemas do sistema prisional brasileiro e fez uma comparação com o sistema norte-americano e suas leis. Matérias nessa linha coincidiram com a queda gradativa no número de ataques e motins. Algumas pareciam indicar que o governo de São Paulo não estava aceitando a ajuda do exército muito mais por questões políticas do que por qualquer outra razão, e o governador Cláudio Lembo era retratado como se desconhecesse os ataques que a população via pelas lentes da Globo. Foram constantes as ironias com o jargão “tudo está sob controle”.

O martírio de Alckmin

A forma como a segurança pública de São Paulo foi tratada pela Globo não repercutiu bem para o presidenciável tucano Geraldo Alckmin, que governou por quase 8 anos o Estado. Ele foi obrigado a lidar com questões que não estavam na sua estratégia política para assumir o Planalto, já que, segundo a cúpula do PSDB, bastaria tornar Alckmin conhecido no Brasil e mostrá-lo como bom administrador de São Paulo que sua campanha alavancaria.

Alckmin certamente não contava com esses problemas de segurança e muito menos com a repercussão gerada pelos meios de comunicação, tendo sempre a Globo como principal expoente. Quais seriam as razões para a Globo encabeçar essa luta disfarçada contra a gestão do ex-governador e dos tucanos, com quem sempre esteve aliada?

É muito importante lembrar que a Globo não arrisca mais a sua reputação como já fez no passado, com os escândalos de distorções e manipulação dos fatos. Hoje, com uma estratégia muito inteligente, ela só entra em uma luta em que certamente sairá vitoriosa. Foi assim com Lula em 2002, quando estava mergulhada em dívidas e, ao perceber que o petista estava muito próximo de assumir a presidência, passou a acenar gentilmente para Lula e sua campanha e terminou por confirmar sua vitória.

Lula “sangrou” com os escândalos de corrupção do ano passado sendo diariamente retratados na mídia (incluindo a Globo) mas, em 2006, Lula e seu governo tiveram uma estratégia brilhante. Em vias de aprovar o sistema de TV digital, desprezou os sistemas europeu e norte-americano para escolher o japonês, coincidentemente (ou não!) o que as emissoras, lideradas pela Globo, preferiam. Com o modelo japonês elas poderão aumentar sua concentração técnica e manterão seu domínio nos meios de comunicação. Vale lembrar ainda que havia estudos de um sistema brasileiro que, segundo os especialistas, tinha qualidade técnica simplificada mas eficiente e poderia democratizar a mídia. Obviamente não é do interesse da Globo.

Com esses fatos expostos, pode-se perceber que a Globo, pelo menos nos seus veículos mais populares como o JN, tem razões para apoiar Lula e seu governo, ainda mais por ter comprovado no seu primeiro governo que tudo continua como antes, ou seja, o poder continua nas mãos das mesmas pessoas.

A propaganda de um seqüestro

Agora, com o seqüestro do repórter e do auxiliar técnico da TV Globo, o JN se limitou a noticiar o crime e, depois, a libertação. Outros veículos de comunicação do grupo, como a rádio CBN, fizeram o mesmo e têm dado mais prioridade a entrevistas com especialistas em segurança pública, criminologia e direito. De fato, a CBN já privilegia um debate mais equilibrado desde a primeira onda de ataques e sinaliza maior independência.

Antes da libertação do repórter, no entanto, a TV Globo exibiu um DVD produzido pela facção, no qual é exigido o fim do regime disciplinar diferenciado. Os seqüestradores condicionaram a vida do repórter à exibição desse vídeo. O fato trouxe à tona a discussão de como a cobertura dos meios de comunicação fortalece ou enfraquece o crime organizado e o terrorismo.

Facção criminosa que honre os seus ideais – ainda que absurdos – precisa aterrorizar, ou perde o sentido de existir, e hoje só é possível alcançar a maioria da população com a mídia e por isso a ação da Globo é vista como um precedente. Ela permitiu que o PCC, utilizando-se do terror, conquistasse esse espaço na mídia. A própria Globo tentou se justificar no Fantástico e respaldar sua atitude pela opinião de diversos especialistas em liberdade de imprensa, jornalismo e segurança pública. Democraticamente, exibiu até mesmo uma opinião contrária.

Missão cumprida

Jogando as cartas na mesa, a situação da Globo parece ser incômoda. Nesse jogo, cada passo em falso a torna mais vulnerável, pois os pontos negativos podem ser supervalorizados. Se em algum momento sua cobertura jornalística da violência foi sensacionalista e até mesmo estimulava o terror, o seqüestro dos funcionários da organização mostrou que a própria emissora pode ser afetada com a violência ao tornar-se instrumento do terror. Com essa circunstância a Globo não contava.

Qual será a atitude da emissora de agora em diante? Será que a Globo continuará abertamente dando espaço na mídia para as ações do PCC? Será que o seqüestro pode mudar o modo como a Globo e as demais emissores cobrem a violência? Atingida, a Globo pode até isolar o PCC e dar um basta na exibição do poderio do crime, mas a essa altura o seu papel já está cumprido. O bom velhinho já deixou o presente dentro da botinha na janela e Lula está praticamente eleito. E tudo continuará como está, ninguém vê nada. A violência é só um espetáculo e preferimos viver no mundo da fantasia. Ponto para a Globo!