|
|||||||
![]() |
|||||||
|
|
|||||||
Eu, tu e a violência |
|||||||
Tiago Cabreira |
|||||||
O cenário lembra as tensões da guerra civil espanhola. O medo de andar nas ruas pela manhã é o mesmo que aflige durante a noite. Os transportes públicos que deveriam circular entre as avenidas da cidade ardem em chamas ou se desfazem em cinzas. Jornalistas e seus ideais libertários são seqüestrados e chantagiados. O pânico, portanto, intimida grande parte da população. Como a professora Karine Caldas que não vai a São Paulo com medo de ser vítima de um novo ataque do Primeiro Comando da Capital – PCC. Karine abre bem os olhos, coloca a mão no peito e comenta espantada sobre os ataques na capital. Amedrontada, prefere não sair do interior do Estado onde leciona aulas de história. “Eu tenho medo de viajar para São Paulo, só vou com a minha mãe”, confessa a professora de 27 anos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos assegura a todos os membros da sociedade o direito à segurança social. De acordo com o delegado divisionário do Deinter 2 de Campinas, Luiz Henrique Zago, o poder público ainda mantém a ordem social. “O PCC está disseminando mais o pânico do que a insegurança em si. Hoje os casos de ação do movimento são localizados e enfraquecidos. Os principais alvos são estabelecimentos, guardas municipais, seguranças e policiais que moram nas periferias, geralmente locais onde a polícia não tem uma grande estrutura de funcionabilidade”, argumenta. Para ele, embora exista o medo, a sociedade ainda não enfrenta um colapso da segurança pública. “Há pontualmente um problema, não um caos”, esclarece o delegado de polícia. Zago avalia o PCC como um movimento ilegal e criminoso. No entanto, não acredita que a polícia seja ineficaz em sua tarefa de impedir a violência. “O PCC é uma organização criminosa que, com certeza, as instituições de segurança pública poderão resolver”, afirma convicto. O professor e coordenador do curso de Comunicação Social do Unasp Vanderlei Dorneles, concorda que não há um colapso da segurança. Entretanto, acredita que há uma guerra no Brasil, principalmente em São Paulo. “O colapso seria uma situação de falência geral do aparelho do Estado. Mas isso ainda não acontece, mesmo que em alguns momentos o País se sinta em estado de sítio”, explica. Já o cientista social José Humberto Moura condiciona o combate ao crime organizado a uma reestruturação do sistema público de segurança. Segundo ele, o PCC, como um movimento de reação à ordem e ao direito, alcançou status no cenário brasileiro em virtude da fragilidade da lei e da própria polícia para manter a ordem e a segurança. “A facção encontrou espaço para se fortalecer nas brechas que a lei e a justiça permitem”, averigua. Moura ironiza dizendo que o Brasil está sofrendo uma “colombinização”. Ou seja, o PCC está transformando o País em uma Colômbia. De acordo com o cientista social, o movimento tem o objetivo de desestruturar a sociedade, eliminando princípios e valores éticos. “Seguramente, eles compram a política, a justiça, os advogados, a imprensa, eles compram tudo. Não importa a origem, o dinheiro compra tudo”. O jornalista Ruben Holdorf, mestre em educação, vai mais longe ao tentar definir o problema. “Nós vivemos uma guerra civil não declarada”, afirma. Holdorf credita na antiga separação de classes a culpa da criminalidade e violência brasileira. “Como é que as classes populares conseguem sobreviver num país com a maior taxa tributária do mundo? O salário é um disfarce legal para camuflar a continuação da escravidão”. O jornalista afirma ainda, que não há diferença entre viver num regime escravo e ganhar um salário mínino. “Pelo menos os escravos tinham casa, roupa e comida”, satiriza. Cúmplices do crime A cobertura jornalística que diariamente publicou notícias espetaculares como “A guerra entre o bem e o mal”, também pode ter promovido e incentivado as ações criminosa. É o que afirma Humberto Moura: “A mídia acaba exercendo um papel favorável ao crime. Isso porque transformou-se num braço de agitação social”. Ele acrescenta que no momento em que a mídia passa a divulgar de forma sensacionalista aquilo que os bandidos estão fazendo, ela se torna o próprio bandido. “A representação dos fatos tende a uma expansão deles, principalmente se é um fato que atende as demandas do sensacionalismo”, diz o professor Dorneles. Segundo ele, a espetacularização das notícias em torno do PCC é a única semelhança entre o nosso 15 de maio e o 11 de setembro. As imagens impressionantes e as fotos chocantes foram os recursos mais explorados pela mídia em ambos os casos. “O sensacionalismo é uma tendência”, comenta o comunicador. O professor interpreta a exploração das manifestações criminosas como uma forma de pôr em descrédito a política e o desenvolvimento do País. “Quando há uma desorganização do sistema dentro dele mesmo, o fato é focado ao extremo para que através de uma antítese se possa mostrar o quão desorganizado e desinstrumentalizado está o Estado brasileiro”, esclarece. O professor Paulo Roberto Azevedo, mestre em Comunicação Social , nega a hipótese de o PCC ser um produto midiático. Entretanto,salienta que a imprensa pode estar sendo vítima de si mesma. “A mídia não está criando o produto. Ela está magnificando um produto”. “As coberturas jornalísticas de cunho sensacional”, explica Vanderlei Dorneles, “normalmente potencializam as estratégias que foram preparadas pelos criminosos”. Assim, o confronto entre bandido e Estado é assistido pela sociedade e mediado pela mídia. Ao mesmo tempo, contudo, a mídia também corre atrás de seu público garantido. “Crime, sangue, violência, têm mais público do que onde há somente informações corriqueiras”, completa. Embora seja válida a idéia de que a mídia, consciente ou inconscientemente, criou uma imagem maior do que a identidade do PCC, a violência continua sendo real. De acordo com Dorneles, o que pode ser figurado é a maneira como ela é apresentada. “No campo simbólico as coisas adquirem uma dimensão maior do no campo dos fatos”, ressalta. Liberdade ameaçada Considerando o período de eleições presidenciais, o PCC pode estar usando a mídias como canal de manipulação de votos? Ou a mídia pode estar manipulando o PCC como objeto estratégico? Ou ainda pode se afirmar que, na verdade, “está tudo dominado”? Dorneles explica que não há nenhum pacto entre a imprensa e os criminosos. “O que existe é uma coincidência de interesses”, esclarece. O fato é que o produto final da mídia acaba satisfazendo os criminosos. Tanto a imprensa se beneficia com a divulgação de informações e coberturas jornalísticas, quanto à facção na questão eleitoral. Assim, “tanto imprensa quanto criminosos podem prejudicar candidatos, ou influenciar decisões no calor das emoções e do medo”, conclui. Segundo Roberto Azevedo, não há poder do PCC sobre imprensa, ou da imprensa sobre o PCC. “Dizer que um ou outro está manipulando, é ir muito além”, discorda. Para ele, o que existe são grupos políticos tentando tirar benefícios da atual situação do sistema de segurança pública paulista. “O grupo que está no governo diz que o ex-governador não agiu adequadamente. O governador diz que o governo federal não deu o dinheiro para o estado realizar as medidas. Ou seja, um acusa o outro porque fez ou deixou de fazer. E os políticos usam isso em benefício a sua plataforma eleitoral”, analisa. Azevedo, no entanto, defende a idéia de que as pessoas são seres inteligentes e que sabem tomar decisões sensatas. Por isso, acredita que o elemento decisivo das eleições não será, explicitamente, o jogo de acusações. Para ele, há outros fatores muito mais importantes para quem vai votar. “O indivíduo que recebe bolsa família está mais interessado no auxilio mensal, do que saber que houve um tiro num bar”. De acordo com Azevedo, o que influencia na decisão dos eleitores é o sentimento de que o poder aquisitivo da família aumentou ou que o emprego melhorou. “O que define o eleitorado é a visão de que a situação é melhor ou pior em relação a anterior. Além disso, há o fator da militância política”, lembra o professor. Ele afirma que mesmo com toda a manipulação que possa ter existido por parte do grupo ou da imprensa, “as pessoas ainda pensam, raciocinam e tomam decisões”. Briga de pelada Agosto de 1993. Oito detentos do Centro de Reabilitação Penitenciária de Taubaté, chamada de “Piranhão”, resolvem iniciar um pacto de confiança. Depois de uma partida de futebol que acabou em morte, os presos Misael Aparecido da Silva, vulgo "Misa", Wander Eduardo Ferreira, vulgo "Eduardo Cara Gorda", António Carlos Roberto da Paixão, vulgo "Paixão", Isaías Moreira do Nascimento, vulgo "Isaías Esquisito", Ademar dos Santos, vulgo "Dafé", António Carlos dos Santos, vulgo "Bicho Feio", César Augusto Roris da Silva, vulgo "Cesinha", e José Márcio Felício, vulgo "Geleião", decidiram organizar um partido que lutasse contra a “opressão” dentro do sistema prisional paulista e que os fizessem escapar da punição daquele dia. No início, o acordo ficou conhecido como Partido do Crime, na pretensão de vingar a morte de 111 presos no massacre do Carandiru. A proposta, porém, tomou tamanhos descomunais tornando-se a maior rebelião generalizada de presos da história do Brasil. Em fevererio de 2001, Idemir Carlos Ambrósio, o "Sombra", também chamado de "Pai", tornou-se o líder mais expressivo da organização ao coordenar, por telefone celular, rebeliões simultâneas em 29 presídios paulistas. Sombra, entretanto, foi espancado até à morte no Piranhão cinco meses depois, numa luta interna pelo comando geral do PCC. Em seguida, o movimento recebeu a liderança de "Geleião" e "Cesinha", responsáveis pela aliança do grupo com a facção criminosa do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho. Ambos passaram a coordenar atentados violentos contra prédios públicos, a partir do Complexo Penitenciário de Bangu , onde se encontravam detidos. No entanto, por serem considerados muito “radicais” pela grupo “moderado” da organização, Geleião e Cesinha foram “destronados” e jurados de morte em novembro de 2002. Insatisfeitos com a política do PCC, os ex-líderes fundaram o Terceiro Comando da Capital – TCC. Cesinha foi assassinado pouco depois no presídio de Avaré. Desde então, o grupo está sob o comando do atual líder da organização, Marcos Willians Herbas Camacho, o "Marcola". O líder teria sido o mentor do assassinato do juiz-corregedor António José Machado Dias, o "Machadinho", que dirigia o Centro de Readaptação Penitenciária – CRP – de Presidente Bernardes, hoje a prisão mais rígida do Brasil. Os membros do PCC temem ser transferidos para o CRP, pois lá os detidos passam vinte e três horas confinados às celas, sem acesso a jornais, revistas, rádio ou televisão. Os membro dos PCC exigem que os "irmãos" (os sócios) paguem uma taxa mensal de cinqüenta reais, se estiverem detidos, e de quinhetos reais, se estiverem em liberdade. É assim que a organização consegue dinheiro. Normalmente, o dinheiro é usado para comprar armas e drogas, além de financiar acções de resgate de presos ligados ao grupo. De acordo com o delegado Luis Zago, o êxito do PCC é resultado da exploração dos mais fracos pela liderança. “Os detidos são explorados economicamente, a fim de sustentar a organização. E os que estão em liberdade, saem do presídio ou têm contato lá fora são usados pelos líderes para dirigirem a organização criminosa”, descreve. O suposto estatuto do PCC, divulgado em jornais brasileiros no ano de 2001, além de pregar a luta pela “liberdade, justiça e paz”, também prevê “pena de morte, sem perdão”, para todos os membros estruturados e livres do partido que não contribuirem para a manutenção do sistema e o bem estar dos demais membros presos da facção. |
|||||||