Marcelo Coelho, há mais de vinte anos articulista da Folha de S. Paulo , atua em seu blog Cultura e Crítica como um gentleman inglês que está presente em uma celebração anual. Conversa com todos de um modo compreensível e polido. O tema de seus diálogos é inteligível por grande parte dos presentes, pois nas palavras é de uma simplicidade elegante. Mas há muito conteúdo erudito que ele compartilha apenas com seus amigos mais próximos: literatura, música e teatro. Acessíveis apenas a alguns dos que estão na festa.
Lançado no início de junho deste ano, o blog de Marcelo Coelho é praticamente um calouro se comparado a outros como o do jornalista Ricardo Noblat. Mas apesar do pouco tempo na web, o espaço já é freqüentado por um público significativo e seleto. Com o intuito de comentar sobre livros, filmes, peças em cartaz, relacionamento entre pais e filhos e algum assunto relevante do cotidiano, o colunista da Folha atrai leitores interessados em análises mais profundas e ao mesmo tempo em um texto simpático, sem o peso dos ensaios acadêmicos. Sendo mestre em sociologia, a compreensão do jornalista sobre as atitudes de políticos e das intenções sociais de alguma peça teatral ou filme é mais ampla, facilitando o entendimento de seu texto.
Para citar um exemplo, no fato de FHC divulgar uma carta aos peesedebistas, falando sobre Alckmin e também sobre a diferença do PSDB e do PT, Marcelo Coelho vê esse discurso como um texto que dá voltas em si mesmo e como uma tentativa do ex-presidente de surgir como um "salvador" da campanha do PSDB. Assim como a seção sobre pais e filhos é praticamente um relato do que ele vive em família. Ele não busca incultir lições ao leitor, mas cabe ao último ler e achar interessante a disposição das palavras no texto, que tornam cômicos alguns fatos em família como a indisposição do filho mais novo em receber um pedaço de bolo menor que o do irmão mais velho ou de uma mordida na empregada.
A seção "Pizzas da Cidade de São Paulo" une um pouco de arte urbana e uma grande dose de ironia. Anúncios de pizzarias fotografadas pelo articulista e por leitores seus espalhados pelo país retratam a indignação do brasileiro ao ver toda a corrupção parlamentar terminar em pizza. Fotos e poemas também dão ao blog o aspecto da reflexão subjetiva. Pensando além dos fatos, além da compreensão palpável, as obras de arte e as poesias fazem com que o leitor do blog reflita em sua existência, em seu anonimato em meio a tanta gente, em sua singularidade em meio a tanta uniformidade de pensamento. Enfim, proporciona uma viagem ao invisível.
Leitores singulares
Um ponto incomum no blog de Marcelo Coelho são os seus freqüentadores. Comentários em prosa e críticas bem formuladas são presença constante no espaço cedido ao leitor. Há até o caso do rapaz que, não conseguindo inserir um comentário, mandou um e-mail para o jornalista explicando a situação e enviando o texto. A crítica foi colocada como um dos posts da seção "Pais e Filhos".
Interessante também é a maneira como Coelho responde os comentários ofensivos que lhe são dirigidos. Na maior parte das vezes referentes à maneira como trata os filhos - afinal, grande parte das publicações na seção Pais e Filhos é relato familiar do jornalista - ou como encara a educação infantil. Vivendo em uma sociedade onde libertinagem é entendida como liberdade, e onde excitação é combinada ao entretenimento, Marcelo Coelho é questionado quanto à censura do conteúdo de filmes que o seu filho pequeno assiste e ao fato de se sentir chocado ao ver uma explicação sobre o universo se transformar em uma série de gritos e pulos incontroláveis de criança. De certa forma elegante, o dono do blog e dos filhos responde dizendo que é um alívio para seu filho não ter que se responsabilizar por assistir o filme (com medo) ou desligar a TV, e que pagaria o mesmo preço da entrada no planetário para não ter toda aquela baderna, apenas o entretenimento e o conhecimento.
Alguns deslizes
Como não há gentlemen que não cometam erros em seus tratos e falas, Marcelo Coelho desliza em alguns pontos de sua argumentação. Incentivando uma leitura mais complexa e que estimule a criança a gostar de ler e não a gostar de livro (nesse caso, porque se trata de livros que abusam de figuras, inibindo, em certo ponto, a leitura) o jornalista aprecia grandemente os livros de Harry Potter. Sendo alguém que analisa o conteúdo das falas, dos atos e das artes de forma mais profunda, o estudo de Coelho sobre as obras de J.K. Rowling chega a ser superficial. Quando diz que Harry Potter incutiu uma vontade ímpar nas crianças pela leitura e aprecia o fato de essa ser uma história de alta complexidade e mistérios, ele põe de lado o conteúdo existente nos livros. O jornalista diz que Harry Potter obtêm pontos positivos ao não pregar valores sociais que tornariam o livro chato, mas se esquece de analisar que valores inversos são pregados na obra e definidos na frase que Harry precisa falar para ter acesso ao "Mapa do Maroto", uma espécie de GPS mágico: "Juro, solenemente, que não vou fazer nada de bom."
Talvez por ver uma empolgação anteriormente não vista em crianças e adolescentes pela leitura, Marcelo Coelho não tenha se lembrado de suas palavras ao dizer que se preocupava com a ação da mídia sobre as crianças ao tentar incutir-lhes valores contrários aos ensinados por grande parte de pais e professores. Harry Potter sempre infringe as regras da escola de Hogwarts para conseguir alcançar seus objetivos. Assim como Coelho argumenta a favor de um desestímulo a jogos eletrônicos de violência, poderia argumentar a favor de uma maior apreciação pela obediência e cumprimento de regras. |