O mundo tem assistido há algum tempo uma fantástica evolução nas tecnologias da comunicação. Cada salto nessa cadeia evolutiva surpreende os olhos da humanidade, não por parecer improvável sua ocorrência, mas pela rapidez cada vez maior com que têm galgado seus degraus. A comunicação percorreu um longo caminho e o espaço entre cada novo estágio da comunicação se tornou menor. Rádio, televisão e finalmente a internet, que fez da tecnologia da comunicação e conseqüentemente do mundo, algo dinâmico, em constante transformação. A rede revolucionou a era da informação. Trouxe uma promessa de interatividade nunca imaginada antes. E é nesse contexto de constante mudança que se pode classificar o blog como um novo estágio na cadeia da evolução comunicativa.
O termo blog, originalmente, deriva-se da palavra “Boardlog”, que significa diário de bordo em inglês. Nesses diários, os comandantes dos navios anotavam tudo o que acontecia durante a viagem, cada novo procedimento necessário, para que pudessem refazer suas viagens com segurança. De certo modo os blogs hoje são como diários de navegação no mundo virtual. “O autor registra o que encontrou de interessante na rede e abre caminho para outros internautas”, declaram os jornalistas André Siqueira e Felipe Mendonça, em reportagem para Carta Capital .
Em uma definição mais simples, blog é um diário que pode ser criado e mantido por qualquer um na internet. Foi em 1994 que o estudante Justin Hall criou o primeiro blog do mundo e o chamou de links.net . Mas somente em 1997 que o termo se tornou conhecido. John Barger denominou seu diário na rede de Weblog , “registro na rede”.
Em 1999 Peter Merholz, um programador americano, quebrou o termo e o transformou em trocadilho. “We blog”, que quer dizer, “nós blogamos”. A partir de então a palavra blog estava oficializada. Foi também em 1999 que o site de hospedagem Xanga.com , disponibilizou as primeiras ferramentas, para criação e manutenção desses diários, inteligíveis para leigos. Assim os próprios usuários poderiam criar a página e escrever o que quisessem. E exatamente aí é possível identificar mais um salto evolutivo na comunicação. O fim da velha ordem. Segundo Siqueira e Mendonça, o advento da verdadeira liberdade de expressão. “Os blogs são o primeiro passo para que todas as pessoas alfabetizadas tenham sua própria plataforma no mundo, um espaço onde podem declarar quem são, o que querem e o que pensam”, afirma John Batelle, jornalista e professor norte-americano.
Hoje o número de blogs na rede mundial ultrapassa 40 milhões e tende a dobrar a cada seis meses. Eles se tornaram a realidade das promessas sobre liberdade universal de expressão, promessas trazidas pela internet. Por intermédio do blog pode-se escrever sobre qualquer coisa, ser lido em qualquer lugar do mundo e ter as opiniões discutidas, comentadas, questionadas, transformando o que seria uma simples manifestação pessoal em um fórum, algo que produz e dissemina novos conhecimentos. Uma reconstrução da informação. É nisso que acreditam os jornalistas da revista Época Ricardo Amorin e Eduardo Vieira. Segundo eles, a população deixa de ser mera coadjuvante para ser participante ativa no processo midiático. “A internet não é mais apenas um meio de comunicação de massa, é também um meio de comunicação construído pela massa”, declaram.
Atualmente os blogs exercem um papel que está além de seu próprio conceito. Deixaram de ser meros diários on-line e passaram a ser controladores de massa. Alguns deles noticiam, outros contam piadas, alguns vivem das sátiras, outros fazem política. Existem os que filosofam e os especialistas em atualidades. Os mais acessados falam de tecnologia. Entre os dez mais acessados do mundo, três são sobre tecnologia e ciência. “O fascínio que o blog exerce vem do fato de que eles são feitos por pessoas e as pessoas adoram falar uma sobre as outras”, explica Batelle. Um exemplo claro disso, é o caso do terceiro blog na lista dos “10mais”. Chama-se PostSecret . Neste blog qualquer pessoa pode postar um segredo anonimamente. É como um site de desabafo. As pessoas entram, lêem o segredo, comentam, mas não sabem quem escreveu. E quem escreveu tem a oportunidade de contar o que de outra maneira seria inviável.
No Brasil a coisa é diferente. Os primeiros na lista dos mais acessados são aqueles que escracham alguma coisa. O número um, Jesus me chicoteia , pertence ao jornalista Marco Aurélio dos Santos. No blog, Marco Aurélio está reescrevendo a Bíblia a seu próprio modo. Em sua visão, Javé, Deus do antigo testamento, é vingativo, impiedoso, xinga seus profetas e o povo. No blog existem até depoimentos de pessoas que atestam ser esse tipo de texto o que os leva a ler a Bíblia. Lêem para comparação. O numero dois, Kibe Loco , faz humor debochado e pertence ao publicitário Antônio Tabet. Produz sátiras ao governo e por causa disso ganhou um quadro no programa Caldeirão do Huck . Entre os mais acessados do Brasil também está o blog Pensar Enlouquece . Produzido pelo bancário Alexandre Inagaki, trata apenas de atualidades. Com textos bem escritos e cobertos de fina ironia, Inagaki arrebata a atenção do leitor. No site é possível encontrar sempre notícias em primeira mão. O autor, por sempre estar à frente na divulgação das novidades, é reconhecido como um garimpeiro da internet.
Inagaki acredita que os blogs são como mensagens colocadas dentro de garrafas e jogadas ao mar. Flutuam sobre a internet em busca de leitores interessados no assunto. “Graças à comunicação feita por links e comentários deixados em outros blogs, estas garrafas virtuais coligam-se em comunidades, amealhando leitores de modo similar ao fenômeno boca-a-boca que transforma filmes obscuros em sucessos cult” , afirma. O poder que um blog tem é quase inacreditável. A facilidade com que se pode acessar a informação, comentar, espalhar, através dele, faz com que se torne uma arma com potencial nuclear. Foi através de um blog, por exemplo, que o senador Antonio Carlos Magalhães foi desmoralizado por plagiar um discurso e foi um blog que divulgou o fato que pôs fim ao governo de Bill Clinton, seu caso com a estagiária Mônica Lewinsky.
Por isso, não parece estranho dizer que o blog é o novo estágio na evolução midiática. Seu crescimento geométrico e o fascínio que exerce sobre as pessoas, revelam que é por meio dessa mídia que a comunicação alcançará outros níveis de desenvolvimento. Ainda assim, essa não é uma mídia totalmente confiável. A rapidez com que a informação se alastra e a impossibilidade de checar as fontes faz dela uma produtora de inverdades em potencial. Nada é 100% confiável. Hoje em dia existem até agências especializadas em divulgar mentiras publicitárias através dos blogs.
Então o que faz um blog ser bom? O que lhe dá credibilidade? Segundo Ruben Holdorf, professor do curso de Jornalismo do Unasp (Centro Universitário Adventista), para um blog ser bom ele tem que escrever coisas bem fundamentadas. “A credibilidade do blog vem do que ele publica, da seriedade do que fala”, explica. Sreenath Sreenivasan, professor de Novas Mídias na Columbia University também compartilha dessa opinião. “Os melhores blogs são aqueles com uma voz forte. Não demonstram sua credibilidade com algum selo ou credenciais, mas a partir das coisas que escrevem”, acrescenta. De acordo com Sreenivasan, o tempo encabeçará um fenômeno seletivo que poderá trazer certa segurança para as informações publicadas em blogs. “Primeiro haverá um reajuste drástico, em que muitos blogs com pouco tráfego devem desaparecer. Depois os sobreviventes, os melhores blogs, devem atrair uma multidão de leitores”, diz.
Muitos têm divulgado o blog como uma ferramenta poderosa na educação, talvez uma nova metodologia. Segundo o estudante de Jornalismo Tales Tomaz ter um blog lhe concede uma vantagem acadêmica. “Primeiramente porque escrevo mais e isso ajuda no meu crescimento profissional. Depois porque, para escrever sobre o que me propus, preciso estudar, ler muito, e isso possibilita a evolução do meu senso crítico” comenta. Ele também explica que no blog pode submeter sua opinião a análise de várias pessoas e os comentários dessas pessoas são o termômetro que determina a excelência do que escreve. Ainda assim há aqueles que não acreditam no blog como utilitário educacional. Vêem nele uma liberdade de expressão e uma falta de compromisso com a verdade que não colaboram para um crescimento acadêmico. “Não acredito no blog como ferramenta didática. Acho que é mais uma coisa para ser usada no meio jornalístico”, declara Holdorf.
Como ferramenta jornalística o blog não poderia ser instrumento melhor. Não são poucos os profissionais que se utilizam dessa mídia para publicar o que pensam. “Tenho um blog há dois anos. É uma forma de publicar textos, dizer coisas, que em outros lugares seria impossível fazer”, afirma Holdorf. Os jornalistas blogueiros fazem notícia, analisam a notícia, dão furos jornalísticos, conduzem discussões políticas, e o melhor, escrevem tudo o que pensam sem a preocupação de se aterem às linhas editorias dos veículos. Então, até que ponto os veículos tradicionais da comunicação estariam ameaçados por essa nova mídia? Num futuro recente não há o que temer. É possível que, por enquanto, os blogs jornalísticos exerçam apenas uma função mais interpretativa. Num futuro distante o blog pode ser a maneira pela qual a arte de noticiar será redimensionada. Seu espaço não é uma coluna estática, como em um jornal, onde o jornalista coloca sua opinião simplesmente. No blog as pessoas podem discutir a opinião do jornalista diretamente com ele.
Um exemplo clássico é o Blog do Noblat (que está entre os dez mais acessados no Brasil). Depois de ser demitido do jornal Correio Brasiliense , o jornalista Ricardo Noblat começou a investir em seu blog. O objetivo era falar sobre política. Discutir, ironizar, analisar. A audiência foi tão grande que ele foi contratado por O Estado de São Paulo. Noblat afirma que ser um jornalista blogueiro é mais arriscado do que trabalhar em uma redação. Na redação o erro tem muitos pais. A edição, o repórter, o chefe da redação. No blog o erro pertence somente ao jornalista. “Nada ou pouca coisa separa o blogueiro dos leitores. Do médico se diz que ele pensa ser Deus. Do jornalista, que tem certeza. Ao fazer um blog o jornalista descobre que não é Deus. Se não descobrir, deixará de ser blogueiro em pouco tempo”, explica sabiamente.
A comunicação em uma busca constante de novos caminhos, encontrou nos blogs a direção para seu futuro. O blog talvez exprima em si mesmo a idéia de que comunicação com liberdade total de expressão não é utopia conceitual, mas algo perfeitamente possível. Algo que não figura apenas em ideais filosóficos, mas algo que faz parte da busca de todo comunicador comprometido. “Um blog promove o fomento de debates em tempo real, estimula a comunicação de idéias, a democratização da publicação de conteúdo na Web e, principalmente, a liberdade de expressão”, conclui Inagaki. |