As pessoas de Lula, Alckmin, Heloísa Helena e Cristovam foram as protagonistas das eleições deste ano. Falar em “pessoas” é proposital.
Graças às novas tecnologias, esta foi provavelmente a campanha política que trouxe mais possibilidades para o eleitor esclarecido acompanhar candidatos e propostas. Infelizmente, essas tecnologias ainda não estão acessíveis à grande maioria da população, mas a sua existência já é um avanço muito importante para a obtenção de mais informações.
É preciso ressaltar, no entanto, que apenas a televisão tem o alcance nacional – ou quase –, chegando a todos os cantos do País. E isso causou uma mudança sensível no modo de praticar política. Um excelente artigo do jornalista Gustavo Pandiani publicado no Sala de Prensa mostra que a TV, por ser um meio tão abrangente, precisa agradar a todos e não pode ter uma linguagem complexa, como a do meio político. Portanto, a televisão “simplificou” a prática política.
Além disso, outro efeito comprovado que a TV trouxe foi a personificação da política. Os ideais são resumidos e agregados a uma pessoa e não mais ao partido. Daí a importância de mostrar a história, a vida, os relacionamentos e cada pormenor que possa criar simpatia entre o público e o candidato. Não é necessário saber a linha ideológica dos militantes, tão pouco o que eles pretendem fazer no governo, mas o quanto o candidato parece melhor.
A comprovação
As eleições de 2006 constituem prova cabal de que os argumentos de Pandiani são passíveis de comprovação. Apesar das denúncias de corrupção do partido do presidente, o PT, o candidato à reeleição permaneceu durante toda a campanha como vencedor em primeiro turno e somente após o debate da Globo perdeu essa condição. Os demais candidatos esforçaram-se em mostrar a corrupção do governo petista e associar essas irregularidades à pessoa de Lula.
Como as denúncias ocuparam o palco das discussões políticas na mídia, os candidatos também não apresentaram propostas de governo definidas senão muito próximo das eleições. Sabiam que isso não era o mais importante. O que vale, afinal, é tornar-se íntimo do eleitor, simpático, uma pessoa agradável de se ter em casa.
Isso é lamentável porque reflete mais uma vez a caminhada da sociedade atual, que se distancia de seu conhecimento racional adquirido e do debate de idéias. A política não apresenta mais idéias para serem debatidas, mas pessoas.
Existe alguma possibilidade de que isso mude? Existe. Contudo, é preciso saber se a sociedade está interessada em uma mudança. Será mesmo que ela quer se politizar e cobrar os seus direitos diante de seus governantes, lutando e se manifestando por uma melhor gestão dos recursos públicos?
Ao que tudo indica, a resposta é não . A tendência da alienação é muito forte. O pensamento vigente parece estar mais para o ditado “cada um por si e Deus por todos”, que reflete um comportamento individualista e egoísta.
Outro ponto que favorece a manutenção do estado atual das coisas, o status quo , é a relação entre o que o governo faz e o que o cidadão vê. Há uma tendência generalizada de pensar em governo como algo extremamente distante, um pensamento que parece justificável mas carece de profundidade.
É por essas razões que a simplificação da política e a personificação de seus ideais acontecem e tendem a crescer. É mais fácil optar por pessoas do que por idéias. Há somente uma idéia que pode reverter esse processo: a educação crítica. A capacidade de criticar – e é importante ressaltar que a crítica não é necessariamente negativa – é fundamental para melhorar qualquer situação. Um indivíduo só muda algo quando questiona ou é questionado.
A conseqüência do esvaziamento de propostas na política é claro. Se as pessoas da sociedade abandonarem os seus governos, serão dominadas pelas pessoas da política. Quais pessoas vencerão? |