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De olhos semi-abertos

André Leite

É conhecido o gosto do brasileiro por novelas. Desde os capítulos escritos nos diários fluminenses, atendendo à imaginação das burguesas em seus espartilhos, até a telenovela “global” das oito, cativando, inclusive, marmanjos com mais de cem quilos, a apreciação pelo gênero é perceptível no cidadão tupiniquim. O que ainda não se sabia era que a política brasileira também seria transformada em uma novela. Não analisando o termo com a conotação popular de “questão que se prolonga indefinidamente”, porque essa já se faz conhecida há muito tempo no consciente do cidadão e nas ações da política nacional. Mas pelo fato de as eleições diretas deste ano terem tido uma cobertura televisiva tal qual um enredo de telenovela.

Fazendo promessas sobre jornalismo de qualidade, Bandeirantes e Rede Globo, principais emissoras a cobrir as eleições de 2006, criaram um clima de espetáculo em torno da disputa eleitoral. O Brasil foi transformado num dos cenários do Projac, a disputa eleitoral virou enredo de Glória Perez, os debates foram tratados como pré-estréias, com direito a canhões de luz e vídeos promocionais, e os presidenciáveis Lula, Geraldo Alckmin, Heloísa Helena e Cristovam Buarque foram praticamente postos nas condições de protagonistas estrelinhas.

A busca por polêmica, intriga, emoção, bons ângulos e, é claro, audiência, moveu as duas emissoras de TV para a criação de uma programação que buscasse causar fascínio no eleitor. A provocação da Band em seu anúncio veiculado na Folha e no Estadão dizendo que a Globo apenas prometia uma boa cobertura das eleições, mas quem poderia cumprir as promessas era ela, marcou o início da disputa entre ambas.

Peça monótona

No primeiro debate entre os presidenciáveis, a produção da Bandeirantes parecia estar noticiando a entrega do Oscar. Luzes e holofotes dando o glamour do evento, entrevistas exclusivas da Band buscando produzir uma sensação de qualidade ímpar e a exposição da chegada dos presidenciáveis tal qual a entrada de atores do escalão de Tom Hanks eram sinais pitorescos da transformação novelística das eleições. A auto-promoção da emissora ao divulgar, por mais de uma hora, em vídeos e depoimentos, a qualidade do seu jornalismo político podia ser comparada a uma galinha que cacareja e faz barulho durante um dia inteiro para anunciar que botou um ovo.

Interessante é notar também como a emissora quis declarar a supremacia da sua cobertura de eleições. É coerente dizer que ela foi a primeira emissora a promover um debate entre políticos, mas também faz parte da realidade o fato de que o último debate entre presidenciáveis que ela havia feito até então fora o de 1989. Uma omissão de dezessete anos é um quesito importante quando se fala de jornalismo. Proclamar essa supremacia após tanto tempo de ausência parece ser arrogante.

Quanto ao debate de 2006, a ausência de Lula, acontecimento comum nos outros dois debates produzidos, tanto pela TV Gazeta quanto pela Globo , tornou o evento ainda mais desinteressante do que se esperava. Parecendo apenas uma reprise do que já podia ser visto nos horários eleitorais gratuitos na televisão, a discussão entre os candidatos foi marcada por pontos incomuns como a falta de atenção do próprio jornalista que mediava o debate. Tédio talvez.

Atuação global

Enquanto a Band se preocupava com sua auto-proclamação, o jornalismo da Globo decidiu percorrer o país para coletar a dose de sentimentalismo necessária para comover o eleitor. Com o título de “Sonhos do Brasil”, a caravana do Jornal Nacional foi a várias cidades do Brasil para saber quais eram as maiores necessidades do povo e quais eram as histórias que poderiam promover piedade entre os telespectadores. O espetáculo já começou a ganhar tons de drama.

Já que o cenário estava montado, o enredo sendo traçado e a pré-estréia iluminada com holofotes, cabia aos presidenciáveis fazerem os seus papéis como atores. Talvez Luiz, Geraldo, Helô e Buarque fossem nomes coerentes com as propostas das emissoras.

Com uma série de entrevistas no Jornal Nacional , no Bom Dia Brasil e no Jornal da Globo , os candidatos foram apresentados como iguais, porém com as particularidades novelísticas cabíveis. Luiz era questionado sobre o mistério principal da novela: “Como não sabia de nada?” Geraldo, com seu sotaque peculiar, parecia o estereótipo do bom moço com boas intenções. Helô, a principal mulher em cena, lembrava por alguns segundos a vilã, mais por sua fúria incontrolável do que por suas ações, porém fazia o papel cômico quando chamava os entrevistadores de “lindinho” e “meu amor”. Para Buarque restou o papel do tio coadjuvante que possui um raciocínio invejável, transmite o conteúdo intelectual da trama, mas sendo um coadjuvante que não deve passar disso.

Com os elementos da novela em mãos, restou à Globo promover o seu debate. Com mais uma ausência do personagem Luiz, a discussão mediada por Willian Bonner também teve a sua dose de tédio. Mais alguns minutos de horário político, troca de elogios entre o tio Buarque e a exaltada Helô e a indignação dos três candidatos presentes com o estrelismo de Luiz foram as cenas protagonizadas durante o programa.

Deslumbre dos olhos, vislumbre da mente

Assim como economia e política são apresentadas de forma superficial no jornalismo de TV, a cobertura das eleições de 2006 não fugiu dessa realidade. A produção do espetáculo jornalístico fez o telespectador se sensibilizar com os seus compatriotas, perceber que votar deve ser uma atividade levada a sério e encarar os candidatos através dos estereótipos de “presidente ausente”, “o candidato inteligente”, “a maluca exaltada” e o “cara da educação”.

A cobertura feita, principalmente pela Globo e Bandeirantes, foi amplamente divulgada, destacada pelos holofotes, enredada pelas necessidades cinematográficas dos brasileiros e protagonizada por candidatos pouco analisados mas muito expostos. Apesar de ter ensinado aos brasileiros que se interessar por política é importante, o telejornalismo ainda deve em conteúdo mais profundo. Apesar das limitações impostas pelo tempo disponível em TV, é possível alcançar essa proposta. Enquanto os olhos são deslumbrados, a mente vê apenas vultos de informação, mas pela quantidade de luz exposta o brasileiro acha que está vendo tudo quando, na verdade, mira a realidade com olhos semi-abertos.