Expressões como globalização, mundialização da economia têm se tornado comuns na sociedade como um todo. Essas expressões podem não ter grandes significados conceituais no imaginário popular, mas todos nós sentimos os efeitos dessa realidade. As questões mundiais estão mais próximas da minha rede de relações e decisões que as questões relativas ao meio "bairro" e até de grupos mais íntimos de relações.
A responsabilidade pela manutenção do mundo globalizado cabe à "máquina mundial da informação". A perpetuação dos caracteres de uma era desterritoriada e globalizada tem como instrumento de manutenção as redes de comunicação de massa. A difusão e o controle das opiniões globais e nacionais é o grande objetivo dos mass media . Se a comunicação foi no passado uma garantia de unificação e manutenção de grandes impérios, hoje a questão não é diferente. O domínio do sistema capitalista em âmbito mundial será mantido quanto maior e mais influente for a informação gerada na hora de se criar uma opinião "nacional e global".
Para que a população construa sua opinião é necessário ter acesso às informações. É na mídia onde mais rapidamente se obtém informações atualizadas, onde se garante a sensação de contemporaneidade. Dessa maneira, formar opinião para uma população de 60% de analfabetos estruturais - sem qualquer acesso a linguagem informatizada - a capacidade de leitura de diferentes tipos de texto, a uma língua estrangeira, os veículos de comunicação de massa são o único acesso disponível para chegar a algum tipo de informação e, a partir daí, construir a opinião.
Em ano eleitoral, o povo está sendo atraído, sensibilizado, motivado pelos meios de comunicação a participarem do "grande direito do cidadão" - o voto. Num momento em que a população está sendo "convidada às urnas" para participar da escolha de candidatos a vagas no Legislativo e Executivo, essa mesma população sente a necessidade de buscar mais informações sobre candidatos que possam representar suas expectativas nacionais.
Os constantes resultados de pesquisas diversas sobre a intenção de voto da população, os horários eleitorais e as notícias do dia-dia dos candidatos passam a ser as informações que estão à disposição diária da população para vir a se efetivar em uma opinião de voto. Não podemos deixar de ressaltar que esse momento político é de extrema relevância para o mundo globalizado, onde quaisquer mudanças devem ser são controladas por grandes grupos econômicos, com repercussões de efeito mundial.
Dessa forma, os meios de comunicação em um mundo globalizado têm o papel de não apenas trazer a informação até as massas como também "formar" a opinião das massas. Nenhum efeito social-político é mais territorial, mas sim mundial, global.
As pesquisas feitas sobre a preferência do eleitorado são feitas com uma parcela da população sem deixar clara representação de setores sociais e econômicos. As notícias divulgadas naquela semana sobre a economia nacional, escândalos partidários ou comportamentos particulares de determinados candidatos influenciaram a intenção de voto no da entrevista. A informação da semana já se transformou em opinião.
Ao divulgarem-se as pesquisas eleitorais, os indecisos mais afastados das questões diárias formarão sua opinião política a partir dessas tendências. Muitas vezes, pela forma como são apresentados, os resultados das pesquisas parecem ser absolutos, inalteráveis.
O horário eleitoral estabelecido no espaço dos meios de comunicação também exerce um papel de informador e formador de opinião. Os candidatos que possuem mais verbas e mais tempo dispõem de maior capacidade para envolver o eleitorado, tornando muito difícil que esse eleitorado busque efetivamente apenas informação, e que através de sua vivência e reflexões individuais e grupais forme concretamente suas opiniões.
Por fazermos parte de vários grupos sociais nossas opiniões não são verdadeiramente neutras ou individuais. Elas são construídas a partir de uma vivência, de produções culturais assimiladas, mas que podem e devem ser elaboradas a partir de uma ótica particular. Mas quando falamos em meios de comunicação estamos também falando de um mínimo de ética ao transformar fatos em notícia, para que a liberdade individual de opinar possa ser respeitada. Não é essa realidade que temos sentido no Brasil, principalmente nesse momento eleitoral, onde há tantos interesses mundiais em jogo. O sistema não permitirá que escolhas efetivamente nacionais se concretizem.
* Elna Cres é cientista social e ex-professora de Sociologia do curso de Comunicação do Unasp.
**Artigo publicado no Canal da Imprensa em 4 de setembro de 2002.
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