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Pesquisa, a solução

Rodrigo Galiza

Duas frases podem ser consideradas de fundamental importância para uma análise da imparcialidade de um jornal. A primeira: “deve-se desconfiar de um autor de uma só fonte”. A segunda: “um fato possui quantas versões verdadeiras, quantas forem as testemunhas”. Ou seja, um acidente de carro pode ser descrito de maneiras diferentes pelas testemunhas, mas, todos relatando o mesmo acidente verdadeiramente. Neste ano de eleições para presidência da república é importante atentar para esses conceitos. Tanto os que escrevem quanto os lêem.

Quando se aplica esses princípios ao escritor do jornal, sabe-se que o jornalista tem por obrigação procurar saber a verdade e transmiti-la da maneira mais fidedigna possível. Esse é o papel principal do profissional da comunicação. Para isso ser feito ele deve então averiguar as fontes mais diversas sobre o assunto. Deve-se exaurir as possibilidades. Isso não quer dizer que um jornalista saberá sempre de tudo sobre o assunto. Mas, deveria buscar sabê-lo, para assim transmitir ao público.

Esse primeiro passo, no entanto, não é o suficiente para chegar a imparcialidade almejada pelos jornalistas. Pois um jornalista que sabe toda a informação sobre um caso de corrupção, como o dossiê , por exemplo , pode manipular a informação de maneira apenas a selecionar o que lhe apraz e não divulgar informações vitais a população. É por isso que os jornais muitas vezes têm sido acusados de influenciarem decisões importantes para o País. Mas este é o papel do jornalismo, influenciar.

Mas então, onde fica a imparcialidade? Tendo exemplo a Folha de S. Paulo, neste ano de campanha eleitoral, não é de se estranhar que os jornais dêem mais atenção aos candidatos e assuntos que envolvem a política. Os exemplares da Folha nessas últimas três semanas, trazem em 84% de suas capas o assunto envolvendo eleição, tendo PT ou PSDB como envolvidos. Mesmo na cobertura das eleições, que é dedicada cerca de 50% de seu espaço a isso, dos sete candidatos á presidência apenas três deles são mencionados. Os três primeiros nas pesquisas.

E mesmo na cobertura desses três, Heloísa Helena é pifiamente retratada, uma vez aqui e outra ali sem muita importância. E os outros candidatos? Onde estão? Não merecem uma voz na imprensa? Querendo ou não, todo jornalista ao narrar um fato é tendencioso, pois ao escolher o que falar e o que deixar de falar ele retrata o fato na sua visão. Mas “um fato possui quantas versões verdadeiras quantas forem as testemunhas”. E a Folha tem priorizado os partidos maiores. Isso é imparcialidade. Ela favorece mais os partidos de expressão nacional a outros.

Numa reportagem publicada em 10 de setembro, foi estampado “Cobertura da Folha sobre eleição tem a aprovação de 86%”. A pesquisa revela que 70% acham que a Folha não favorece nenhum candidato. Por isso o jornal afirma no editorial de 24 de setembro, “Esta FOLHA mantém, como sempre, o compromisso de apartidarismo que esta entre as razões de ser de sua atividade jornalística”. Mas e a ênfase no PT e PSDB?

A imparcialidade da Folha de S. Paulo tem sido em retratar o fato assim como ele é. Mas existe outras formas de ser imparcial. Como no caso do espaço dedicado a certo partido. E nesse caso, a Folha tem dedicado nesses últimos meses mais espaço á Lula e ao PT que aos outros partidos.

Outro exemplo de parcialidade. No periódico de 23 de setembro é destacado a crítica de Lula contra o ‘golpismo' da oposição. Nessa mesma página o jornal, numa pequena matéria no pé da página, menciona o caso da montagem do PT em sua campanha, onde aparece Lula na ONU supostamente aplaudido de pé. Há um maior destaque á critica de Lula que ao fato contra ele.

Mas aí é que entra o erro de alguns comunicadores. Há uma falsa ilusão que isso é errado. Fala-se tanto em imparcialidade que causa a impressão que isso é essencial. Nunca irão existir duas versões iguais sobre o mesmo fato, isso é imparcialidade. Pois detalhes serão destacados por um e não serão pelo outro. Mas não quer dizer que a verdade não tenha sido relatada pelos dois. O fato é o mesmo, apenas de prismas diferentes. No caso da Folha dedicar mais espaço ao Lula pode ser explicado pelo fato dele ser presidente da república.

No editorial de 24 de setembro, a Folha afirma que os fatos atualmente são contra o PT e por isso, a ênfase no partido. Em sua cobertura sobre as eleições o diário tem relatado o fato fidedignamente, mas sempre em sua versão, isso não quer dizer que sua versão seja a completa. Não, pelo contrário, e por isso a importância do conceito “deve-se desconfiar de um autor de uma só fonte”.

Assim como o jornalista deve escrever uma matéria possuindo muitas fontes para retratar as várias versões sobre o assunto, o leitor deve também buscar várias fontes para formar a sua opinião. E nesse quesito os jornalistas estão de parabéns, já alguns leitores... Não é só lendo Folha de S. Paulo que o brasileiro terá uma visão melhor do País e do mundo. É preciso formar uma opinião sólida analisando o maior número de fontes possíveis.

Lembre-se, todo ser humano é parcial. O homem é um ser com diferenças entre si. Na descrição de um fato cada um dará maior ênfase àquilo que lhe impressiona mais. Isso não quer dizer que ênfase de um é mais importante que a do outro. Assim nos jornais e nos leitores. A parcialidade é inevitável, mesmo que retratando a verdade. Pois “um fato possui quantas versões verdadeiras quantas forem as testemunhas”.

Por esse motivo, ao invés de criticar os jornais, é melhor criticar o leitor. Pois muitas vezes este forma sua opinião com uma única fonte. E em última instância, por mais que alguém possa ser influenciado, a decisão é pessoal. Deve-se desconfiar de uma opinião de fonte única. Parcialidade inevitável, pesquisa, a solução.