Dizem que jornalismo e poder caminham juntos. Poder entende-se por política e jornalismo entende-se veículos de comunicação brasileiros.
Dias atrás a população brasileira pôde exercer seu status de nação democrática. Por meio do voto direto, o cidadão tupiniquim elegeu presidente, governador, senador, deputados federais e estaduais de acordo com suas convicções políticas ou influenciados pela mídia. Para constatar tal fato, basta pesquisar a lista dos que chegaram ao poder com a ajuda do povo que antes reclamava da conduta ética do político que ajudou eleger.
Para falar sobre o relacionamento da mídia com a política e o resultado das eleição majoritárias, o Canal entrevistou por e-mail o mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, João Plaça, que acredita não haver isenção no jornalismo político exceto para aqueles profissionais que escrevem com autonomia no seu próprio veículo.
Canal da Imprensa - Como você avalia a cobertura da política brasileira em época de eleições?
João Plaça - A cobertura da política brasileira é realizada de acordo com os interesses de cada grupo empresarial. Como é de conhecimento público, são pouquíssimas as famílias que dominam a área de comunicações no Brasil. Há uma exceções saudáveis, como Carta Capital e Caros amigos.
CI - Você acredita que a seqüência de escândalos na política afetou o modo de fazer jornalismo político?
J.P. - Acredito que tal seqüência é orquestrada de acordo com cada um dos grupos econômicos citados na resposta anterior.
CI - Desde a explosão do escândalo do mensalão, o povo brasileiro tem sido bombardeado com notícias sobre corrupção e as mazelas da política brasileira. Diante dessa realidade, como você acha que o eleitor brasileiro foi às urnas votar?
J.P. - O eleitor, certamente, foi às urnas sob o peso das últimas informações (imagens do $$$) divulgadas. A questão do mensalão parece um pouco mais longe desse tipo de relação e, acredito, a não reeleição de alguns envolvidos talvez se deva a outros fatores. Cabe lembrar que só sabemos dos escândalos porque, agora, está chegando ao conhecimento do público, em razão da transparência, através da divulgação dos fatos apresentados/relatados nas CPI's, sobretudo as transmissões da TV Senado, em tempo real.
CI - De acordo com os resultados divulgados pelo TSE, oito acusados de ligação com o mensalão foram eleitos deputados nesta eleição. Em sua opinião, isso "ainda" prova que o brasileiro não sabe votar?
J.P. - Acredito que a formulação está errada. Vez que, se o eleitor não sabe votar, caberia a pergunta: alguém está interessado em ensiná-lo? A quem competiria fazer tal afirmação? Lembro que isso foi dito no final dos anos 70 pelo Pelé, que não parece ser um exemplo a ser seguido nesse terreno. Vale lembrar, também que o tal mensalão, apontado por um parlamentar de estranha trajetória política, só aconteceu para benefício próprio (e de alguns poucos), pois sequer lhe foi cobrado que apresentasse e/ou devolvesse a dinheirama (segundo ele mesmo seriam 4 milhões de reais) que recebeu em nome do partido que presidia...
Sobre o saber ou não saber votar, conheço um intelectual de referência que me disse ter votado no Clodovil para apreciar como virá à tona o que, de fato, significa ser político no Brasil. Aliás, outro agora nobre deputado federal eleito (recém-saído da cadeia por desvio de verbas públicas calculadas em milhões de dólares transferidos para contas em paraísos fiscais no exterior), quando perguntado se considerava honesto, respondeu de pronto: “Sou tão honesto quanto qualquer um dos políticos brasileiros”.
CI - O governo de Lula protagonizou os maiores escândalos da história brasileira. Apesar de um surpreendente segundo turno, como a imagem de Lula pôde suportar tanta exposição negativa na mídia?
J.P. - Não concordo com a primeira afirmação, que está sendo veiculada pelos opositores dele. Não se pode esquecer um fato recentíssimo, protagonizado pelo finado governo FHC: quanto ($$$) e para quantos (parlamentares) foi pago para a aprovação do projeto de reeleição para os cargos executivos, que possibilitou o segundo mandato de FHC. Lembremos que vários deputados encontrados com a mão na massa -$$$- renunciaram aos cargos para se livrar dos processos, autor (FHC) do maior escândalo que foi a manutenção irreal do câmbio em 1998 e a quebra da promessa de campanha (desvalorizando o Real em 30%) já no primeiro mês de governo após a reeleição (em janeiro de 1999), além dos ridículos processos de privatização (que o jornalista Élio Gaspari chama de privataria – neologismo que acrescenta o termo pirataria à questão), que estabeleceram, por exemplo, um novo Tratado de Tordesilhas, distribuindo as concessões telefônicas – consideradas as “jóias da coroa” - a empresas de Espanha e Portugal...
Também é preciso lembrar que os escândalos das ambulâncias (sanguessugas) e do comércio de sangue (máfia dos vampiros), teve início há, no mínimo, 8 (oito) anos antes de Lula tomar posse. Mas, nos áureos tempos de governos do PSDB, aliado ao PFL, era proibido, repito: proibido haver CPI... Também para isso, quanto foi pago?
Sobre a capacidade de Lula suportar tal massacre contra a própria imagem, acredito que é mérito pessoal dele, que está conseguindo se descolar da impressão negativa que o partido vem imprimindo.
CI - A ausência de Lula no debate da Globo pode ter sido uma das causas do segundo turno?
J.P. - Com certeza. A avaliação dos assessores (quem conta com tal tipo de assessor não precisa de inimigos) de Lula foi a de que haveria pouca perda eleitoral, e consideravam que ele dispunha de gordura suficiente para ser queimada (e o culpado foi o churrasqueiro). Porém, a perda política foi imensa. Se dependesse só do Lula, ele teria ido ao debate. Como deu ouvido aos assessores...
CI - Para onde caminha a política brasileira e até onde o jornalismo político já sujou as mãos nos predicados do poder?
J.P. - Há um velho adágio popular que estabelece: cada povo tem o governo que merece. Acredito que isso se deve ao fato de tanto um quanto outro participarem do mesmo processo de formação do país. Mas é sempre bom lembrar o quanto incomodou as oligarquias a intromissão de uma pessoa de origem humilde nos altos círculos do poder.
Quanto ao jornalismo político, só há isenção dos profissionais que escrevem com autonomia. E isso só pode ser feito em veículo próprio. Como exemplo disso, temos a experiência desenvolvida por alguns grupos de corajosos intelectuais durante o período da ditadura militar, destacando-se jornais como Movimento e o mais conhecido e duradouro deles O Pasquim. Atualmente, só conheço um jornal (Jornal Pessoal), bravamente tocado pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, em Belém do Pará. |