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Pouco (a)caso com o debate da Globo

André Leite e Tales Tomaz

Introdução

Muitas vezes afirma-se que a mídia não está exercendo sua cobertura das eleições presidenciais de 2006 com isenção e imparcialidade. Em textos opinativos e críticos, essas afirmações costumam ocorrer com uma freqüência ainda maior e nem sempre estão embasadas em dados concretos. Essa é a razão pela qual este trabalho foi proposto. Sendo assim, foi analisada a repercussão do debate do segundo turno da Rede Globo, realizado no dia 27 de outubro. Com este trabalho visamos suprir a carência de informações sobre o assunto.

Fundamentação teórico-metodológica

Para atingir o objetivo, a pesquisa seguiu uma linha baseada em três conceitos: o dito e o não dito, de Maria Alice Faria (2001); estilo (de Bakhtin), de Beth Brait e Rosineide Melo (2005); e tipos de construção discursiva de textos de jornalismo político, de Luiz Motta (2006).

O estudo da construção do discurso jornalístico em sua interação com o projeto gráfico do jornal apresenta uma rica variedade de elementos que permitem identificar, embora o discurso jornalístico valha-se essencialmente da linguagem referencial para atingir se objetivo informativo, posicionamentos ideológicos e até mesmos juízos de valor. Um dos termos que englobam essa definição é o conceito de “estilo”, segundo o pensamento bakhtiniano.

O “estilo” de um jornal ou de uma revista não é estabelecido apenas pela aparência visual ou pelas pautas do dia ou da semana – mas também pelas “escolhas verbo-visuais que são feitas para expor esses tópicos e, também, da relação que o jornal mantém, ou pretende manter, com seus leitores” (BRAIT, 2004, p.81). O “estilo”, portanto, é uma visão de mundo antes do que uma elaboração material meramente informativa.

Em relação direta com os conceitos de Bahktin encontra-se o trabalho de FARIA (2001), que toma como base para a análise de inferências, subentendidos e ideologias no texto a riqueza discursiva do título jornalístico, uma vez que “títulos e manchetes contribuem para dar ao leitor crítico uma imagem da identidade do jornal ou de sua linha de informações” (FARIA, 2001, p.196). Embora a luta pela imparcialidade jornalística se manifeste por meio do uso da “norma padrão em títulos e manchetes” e o afastamento de “intensificações emotivas e palavras contundentes”, quando se trata de matéria polêmica ou controversa, FARIA afirma que há um desvio do caráter informativo puro, típico da linguagem referencial (Ibid., p.206 e 207).

Dessa forma, os jornais “procuram palavras que não os comprometam mas que, ao mesmo tempo, tragam em seu significado algo de ambíguo (...) segundo a linha ideológica do periódico. E é por meio das discrepâncias e inferências que ocorrem nas fotos, títulos e manchetes que o veiculo expõe sua opinião e posicionamento ideológico, especialmente o político-partidário.

Segundo FARIA, uma das maneiras implícitas de ideologizar as matérias é o uso de fotos em contraste ou complemento ao texto. “Quando o jornal não quer estampar manchetes contundentes ou abertamente criticas, para não evidenciar demais a posição do periódico, o uso o fotojornalismo é um complemento indispensável ao não-dito pelas palavras” (2001, p.201). Para ela, a intensidade de significação em palavras sinônimas ou a substituição de certas palavras por outras podem tornar o titulo mais agressivo ou amenizar o teor da notícia.

Dessa forma, a percepção do “estilo” do jornal, sua visão de mundo e seu posicionamento ideológico por meio de títulos, manchetes e fotos é um meio inusitado mas não pouco eficaz de enxergar posicionamentos e vieses além da linguagem referencial. E essa visão de mundo, esse posicionamento ideológico diante dos fatos, “em época de eleição, (...) se revela de forma abundante e quase óbvia” (Ibid. p.84).

Ao encontro dos conceitos de FARIA (2001) e BRAIT (2004), a pesquisa em andamento de Luiz MOTTA (2006) propõe uma espécie de classificação ou enquadramento narrativo dos discursos jornalísticos sobre política. Apesar dos desafios epistemológicos que uma interpretação dos discursos jornalísticos na forma de enquadramento narrativo oferece, uma vez que “na linguagem objetiva do jornalismo as ressonâncias simbólicas são frágeis e fugidias” (MOTTA, 2006, p.14), esse tipo de classificação pode viabilizar mais claramente ao leitor uma análise de vieses, posicionamentos e ideologias.

Considerando que “a matéria prima do jornalismo são os dramas, tragédias e conflitos do cotidiano” (Ibid, p.14), Motta classificou o discurso jornalístico em enquadramentos narrativos que expressam a visão editorial e ideológica na reconstrução da realidade. Ao retratar a realidade política, “a expressão jornalística torna-se ambígua e contraditória, [pois] tende para o racional, mas não escapa do ficcional. Quer ser o espelho fiel da realidade, mas não consegue liberar-se das determinações culturais e simbólicas” (Ibid. p.14).

Ele utiliza, na cobertura política, seis categorias de classificação, das quais cinco serviram como base para a presente pesquisa:

Guerra: enquadramento onde predomina uma idéia temática de luta entre as forças do bem e do mal, destruição do adversário, relato de ações em combates, guerreiros, cólera e rancor, ataque e defesa, contra-ataque, exército inimigo ou aliado, vitórias, ocupação, conquistas, derrotas, concessões, negociações, acordos, espião, embaixador, etc.

Jogo de xadrez: enquadramento onde predomina uma idéia temática do jogo de xadrez e de seu tabuleiro, a supremacia de um sobre o outro, a tomada de controle sobre o adversário, jogo que põe em ação a inteligência e a sabedoria; o tabuleiro como representação do mundo e das disputas políticas, como campo de ação de estratégias e táticas, movimento de peças, avanços, recuos, xeques-mates, vitória final sobre o adversário, etc.

Jogos esportivos: enquadramento onde predomina uma idéia temática de oposição de um campo a outro, disputa entre poderes polarizados, competição contra forças adversárias, jogo contra o medo e a fraqueza; equipes, parceiros e interesse comuns, adversários e interesses antagônicos; o respeito às regras do jogo e o exercício da liberdade e da astúcia, oportunidades e risco, destreza e habilidades individuais, sorte e azar, vitória ou derrota final, empate, etc.

Corrida de cavalo/carro: enquadramento onde predomina uma idéia-força temática de quem chega primeiro, quem alcança o final de maneira mais rápida ultrapassando adversários e deixando-os para trás, impetuosidade do desejo, valorização da rapidez, da velocidade, da dianteira frente aos adversários, liderança e distanciamento, superação de obstáculos e adversidades para permanecer na frente, etc.

Quebra-cabeças: enquadramento onde predomina uma idéia temática tipo complicação e impasse, procura de encaixe de peças, emaranhado de possibilidades (semelhança com o labirinto), combinação de partes, objetivo de procurar à união dos fragmentos para se chegar à totalidade, ao sentido e à compreensão.” (Ibid, p.15)

Esses cinco enquadramentos narrativos forneceram a pesquisa, juntamente com os conceitos de FARIA (2001) e Bahktin como se encontra em BRAIT (2004), orientações para a identificação de vieses e posicionamentos ideológicos nas capas, fotos e títulos dos jornais da semana que sucederam o debate televisivo da Globo entre Geraldo Alckmin e Luiz Inácio Lula da Silva, transmitido no dia 27 de outubro de 2006, a saber as edições de 28/10 e 29/10 da Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo.

A metodologia incluiu a leitura criteriosa de cada elemento da matéria que fazia referência ao debate e aos presidenciáveis. Com os conceitos de estilo em mãos, identificamos se as referências aos presidenciáveis eram favoráveis ou desfavoráveis, e analisamos o contexto geral das reportagens. Foram analisadas as fotos e qual é o papel que desempenham, assim como o que elas expõem que não está dito no texto. A conclusão será baseada na identificação do viés predominante.

Análise panorâmica

Nas edições de sábado, 28/10, o dia seguinte ao debate da TV Globo, nenhum dos periódicos conseguiu fechar matérias posteriores ao debate. Assim sendo, se limitaram a citar a preparação de Alckmin. A Folha citou ainda a liminar que a Inter TV Cabugi, afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Norte, recebeu para transmitir o debate, após ter sua programação suspensa pela Justiça.

No domingo, 29/10, dia das eleições, Folha e Estadão deram destaque para o embate nas urnas, e não na TV. A Folha fez uma pequena referência na capa à falta de vigor de Alckmin nos debates – sem citar o debate da Globo no dia 27/10. Vale citar que a Folha postou nos seus editoriais um artigo de Lula e outro de Alckmin, sob o título de “Tendências/Debates”.

Nas páginas internas, ambos os jornais trouxeram o caderno Eleições 2006 e reportagens se referindo ao debate.

Análise da Folha de S. Paulo

A Folha fez uma matéria cujo título é “Alckmin diz sentir ‘onda da virada' após debate” (29/10, pág. 5 do especial das eleições) acompanhado da linha de apoio “Tucano encerra campanha no RJ e diz que, na Globo, Lula estava ‘brabo', e ele, ‘zen'”. Ao lado está uma foto de Alckmin no aterro do Flamengo. Conforme explica FARIA (2001), deve-se analisar se a foto reforça, complementa ou contradiz o título e o texto. Essa foto mostra Alckmin praticamente sozinho, andando sobre as pedras da orla (seria o “caminho das pedras”?), com o mar ao fundo bastante calmo (não há sinal de ondas, muito menos de viradas), contradizendo a “onda da virada” à qual Alckmin se refere. A linha de apoio aparentemente não tem relação com o título. No contexto, a Folha parece desacreditar o discurso de Alckmin.

Isso se reflete também no corpo do texto. A matéria utiliza expressões como “última cartada” e “espalhar o discurso de que o debate poderia virar o jogo eleitoral na última hora”, falando em seguida das “pesquisas que apontam vitória com folga do presidente Lula”. A lógica construída é a de que Alckmin e o PSDB supervalorizaram o debate por causa do desespero ao se aproximarem da derrota. A matéria cita Alckmin ao dizer que “o debate foi muito importante”, e reforça ainda que “no percurso, Alckmin perguntava às pessoas ao cumprimentá-las se haviam acompanhado o debate”. “Melhor performance” é o intertítulo que a Folha coloca para se referir ao desempenho de Alckmin no debate, muito positivo à imagem do peessedebista. Somente no texto percebe-se que essa é a opinião dos aliados do candidato.

Quanto à classificação de MOTTA (2006), é possível perceber a predominância do viés esportivo. O uso constante de palavras e expressões como “vitória”, “reta final”, “virar o jogo”, “mau desempenho”, “performance” e “resultado” (pág. 5) confirma a tendência de tratar o debate e as eleições como um competição esportiva.

Essa matéria configurou-se um flagrante contraste com a matéria sobre Lula, na página ao lado (pág. 4 do especial das eleições). O título “Por acordo, Lula sinaliza trégua à oposição” é suave e tem a expressão “trégua à oposição”, que soa muito bem para o eleitorado. A linha de apoio “‘Tem a hora de brigar e a hora de votar e administrar o país', diz presidente, que busca agenda comum com governadores e partidos” também sugere acordos, algo que é positivo para o candidato.

Os conceitos de estilo de Bakhtin, abordados por BRAIT (2004), também exigem que seja feita a análise dos outros elementos que compõem a página. No lado de Alckmin, há mais duas matérias: “FHC rejeita concertação, mas admite conversar” e “Tucano evita Garotinho e Maia no Rio”. O próprio uso de verbos de oposição como “rejeitar” e “evitar” já dá um tom negativo à página. Por outro lado, a página de Lula tem mais três matérias, cujos títulos são “Petista já explica sua vitória e cita união de forças”, “Presidente acusa tucanos de montar armadilha para deflagrar crise do dossiê” e “Ministros cantam e brincam em vão a caminho do debate”. Exceto a matéria que fala sobre acusação, as outras duas apresentam um ambiente festivo de vitória e união até mesmo com adversários.

Entretanto, o maior contraste pode ser percebido nas fotografias. A foto de Lula tem praticamente o dobro da área da foto de Alckmin. Além disso, Lula está sendo ovacionado por dezenas de pessoas com as mãos estendidas em direção a ele, enquanto Alckmin tem apenas dois militantes que caminham em direção oposta a sua, dando idéia de abandono. Na página de Lula há ainda uma outra foto, na qual uma criança segura um retrato antigo do ex-metalúrgico. Nessa foto também há uma multidão apoiando o candidato à reeleição. Claramente a Folha induz a seguinte conclusão: Lula já ganhou.

Análise de O Estado de S. Paulo

No caderno de eleições do Estadão (29/10), houve apenas uma matéria na pág. H3 do caderno especial sobre o debate da Globo, no entanto, em outras duas matérias o debate foi apenas citado.

Na primeira matéria, “Ibope prevê reeleição de Lula com 61% a 39% dos votos válidos”, houve uma citação da pesquisa que o Ibope fez entre aqueles que assistiram ao debate. Para 51% dos entrevistados, Lula venceu; enquanto para 34% Alckmin triunfou.

Logo abaixo estão duas matérias. A primeira é “Em Jacarepaguá, o último debate”, com a linha de apoio “Lula, Alckmin e as torcidas, vistos de dentro do estúdio”. A abordagem foi mais voltada para os bastidores. O texto tem tom de despedida, melancólico, revelando a luta dos candidatos e assessores para conquistar alguns poucos indecisos. Escrito em forma narrativa, submete os candidatos a uma análise humanizada de antes e depois do momento televisivo.

A matéria usou expressões mais negativas para Lula que para Alckmin. “Cabeça baixa, braços caídos, o presidente lembra um desses brasileiros que se vê pelos bairros das grandes cidades, parado numa esquina, numa tarde de sábado, ar levemente entediado, de quem espera alguma coisa”, diz a matéria. Sobre Alckmin, ela afirma que o candidato “reencarna na biografia de quem foi professor de cursinho. Tira o lenço do bolso, cruza a perna, acena para platéia”. Obviamente é melhor ser comparado a um professor do que a um desocupado. Em contrapartida, há ainda a referência negativa ao desempenho de Alckmin com a frase “jogando para perder de pouco”.

Segundo os critérios de MOTTA (2006), a matéria tem viés de guerra, com o uso de expressões como “fuzilam”, “aliados”, “conquistado”, “rivais” e “tratado de paz”.

A segunda matéria é “Como numa guerra, 1ª vítima foi a verdade”. “Foram 75 dias de espertezas e muitos números errados”, complementa o título. Ao lado dessa segunda matéria está a foto dos candidatos no debate da Globo apertando as mãos. Esta foto, na verdade, é a única referência ao debate na segunda matéria. Porém, conforme explica FARIA (2001), é preciso analisar como a foto se relaciona com o título. Assim, é possível afirmar que o Estadão procurou relacionar a matéria – que é geral, e não específica do debate ­ – ao que aconteceu na Globo, complementando as idéias. Vale ressaltar que os candidatos sorriem na foto, cuja legenda diz “Truques – Os candidatos na caça de votos: um jogo nem sempre sério”. Cria-se a sensação de que os candidatos estão sorrindo na foto apenas para enganar o eleitorado, o que conta negativamente para ambos.

Comparação entre Folha e Estadão

Colocando lado a lado as coberturas que Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo fizeram do debate da TV Globo, notamos que os jornais apresentaram uma cobertura escassa do tema. Procuramos esmiuçar ao máximo cada elemento para identificar o viés dos jornais na cobertura do debate.

O Estadão deu exposição negativa para ambos os candidatos, mas Lula teve mais referências negativas que Alckmin. Fica claro que, em cada oportunidade, o Estadão procurou subjetivamente favorecer Alckmin, o que pode ser percebido por meio dos conceitos de dito e não dito, de FARIA (2001) e de estilo, de MOTTA (2006).

Folha só relacionou o debate a Alckmin, expondo-o como estando em vias de ser derrotado, contrapondo o peessedebista a um Lula festivo e confiante na vitória. A Folha foi mais crítica a Alckmin, enquanto mostrava Lula como vencedor antecipado. Os conceitos de FARIA (2001) foram ainda mais evidentemente aplicados pela Folha. O diário fez uso de vários elementos para dizer aquilo que ela queria dizer, sem deixar explícita a sua interpretação dos fatos.



Referências Bibliográficas:

BRAIT, Beth (org). Bahktin – conceitos-chave . São Paulo: Contexto, 2004. p.79-102.

FARIA, Maria Alice. Manchetes e títulos no jornalismo brasileiro: o dito e o não-dito. In: AZEREDO, José Carlos (org). Letras & Comunicação. Petrópolis: Vozes, 2001.

MOTTA, Luiz. Enquadramentos narrativos: a forma jornalística de organizar a realidade. Texto a ser apresentado no IV Encontro Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), em Porto Alegre , nos dias 05 a 07 de novembro de 2006.

As edições analisadas da Folha de S.Paulo foram as de número 28.332 e 28.333 e as do Estado de S.Paulo as de número 41.283 e 41.284.