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Mídia impressa sob suspeita

Deyse Fagundes e Jordane Perdoncini

Os debates televisivos realizados por ocasião do segundo turno repercutiram com intensidade nos veículos impressos. Qual o tom que os periódicos deram ao discurso dos presidenciáveis? Houve algum favorecido? A mídia foi imparcial na cobertura dos debates? Essas são algumas indagações que originaram esta pesquisa e que serão esclarecidas no decorrer da análise.

O objetivo desse artigo é identificar e comparar o viés predominante dos dois maiores jornais impressos de São Paulo: Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo na cobertura jornalística do debate no segundo turno das eleições presidenciais na televisão Bandeirantes. A análise das matérias se dará por meio dos conceitos de estilo de Bahktin, por Beth BRAIT (2004), dito e não-dito em manchetes e títulos por Maria Alice FARIA (2001) e enquadramentos narrativos de Luiz MOTTA (2006).

Fundamentação teórico-metodológica

O estudo da construção do discurso jornalístico em sua interação com o projeto gráfico do jornal apresenta uma rica variedade de elementos que permitem identificar, embora o discurso jornalístico valha-se essencialmente da linguagem referencial para atingir se objetivo informativo, posicionamentos ideológicos e até mesmos juízos de valor. Um dos termos que englobam essa definição é o conceito de “estilo”, segundo o pensamento bakhtiniano.

O “estilo” de um jornal ou de uma revista não é estabelecido apenas pela aparência visual ou pelas pautas do dia ou da semana – mas também pelas “escolhas verbo-visuais que são feitas para expor esses tópicos e, também, da relação que o jornal mantém, ou pretende manter, com seus leitores” (BRAIT, 2004, p.81). O “estilo”, portanto, é uma visão de mundo antes do que uma elaboração material meramente informativa.

Em relação direta com os conceitos de Bahktin encontra-se o trabalho de FARIA (2001), que toma como base para a análise de inferências, subentendidos e ideologias no texto a riqueza discursiva do título jornalístico, uma vez que “títulos e manchetes contribuem para dar ao leitor crítico uma imagem da identidade do jornal ou de sua linha de informações” (FARIA, 2001, p.196). Embora a luta pela imparcialidade jornalística se manifeste por meio do uso da “norma padrão em títulos e manchetes” e o afastamento de “intensificações emotivas e palavras contundentes”, quando se trata de matéria polêmica ou controversa, FARIA afirma que há um desvio do caráter informativo puro, típico da linguagem referencial (Ibid., p.206 e 207).

Dessa forma, os jornais “procuram palavras que não os comprometam mas que, ao mesmo tempo, tragam em seu significado algo de ambíguo (...) segundo a linha ideológica do periódico. E é por meio das discrepâncias e inferências que ocorrem nas fotos, títulos e manchetes que o veiculo expõe sua opinião e posicionamento ideológico, especialmente o político-partidário.

Segundo FARIA, uma das maneiras implícitas de ideologizar as matérias é o uso de fotos em contraste ou complemento ao texto. “Quando o jornal não quer estampar manchetes contundentes ou abertamente criticas, para não evidenciar demais a posição do periódico, o uso o fotojornalismo é um complemento indispensável ao não-dito pelas palavras” (2001, p.201). Para ela, a intensidade de significação em palavras sinônimas ou a substituição de certas palavras por outras podem tornar o titulo mais agressivo ou amenizar o teor da notícia.

Dessa forma, a percepção do “estilo” do jornal, sua visão de mundo e seu posicionamento ideológico por meio de títulos, manchetes e fotos é um meio inusitado mas não pouco eficaz de enxergar posicionamentos e vieses além da linguagem referencial. E essa visão de mundo, esse posicionamento ideológico diante dos fatos, “em época de eleição, (...) se revela de forma abundante e quase óbvia” (Ibid. p.84).

Ao encontro dos conceitos de FARIA (2001) e BRAIT (2004), a pesquisa em andamento de Luiz MOTTA (2006) propõe uma espécie de classificação ou enquadramento narrativo dos discursos jornalísticos sobre política. Apesar dos desafios epistemológicos que uma interpretação dos discursos jornalísticos na forma de enquadramento narrativo oferece, uma vez que “na linguagem objetiva do jornalismo as ressonâncias simbólicas são frágeis e fugidias” (MOTTA, 2006, p.14), esse tipo de classificação pode viabilizar mais claramente ao leitor uma análise de vieses, posicionamentos e ideologias.

Considerando que “a matéria prima do jornalismo são os dramas, tragédias e conflitos do cotidiano” (Ibid, p.14), Motta classificou o discurso jornalístico em enquadramentos narrativos que expressam a visão editorial e ideológica na reconstrução da realidade. Ao retratar a realidade política, “a expressão jornalística torna-se ambígua e contraditória, [pois] tende para o racional, mas não escapa do ficcional. Quer ser o espelho fiel da realidade, mas não consegue liberar-se das determinações culturais e simbólicas” (Ibid. p.14).

Ele utiliza, na cobertura política, seis categorias de classificação, das quais cinco serviram como base para a presente pesquisa:

Guerra: enquadramento onde predomina uma idéia temática de luta entre as forças do bem e do mal, destruição do adversário, relato de ações em combates, guerreiros, cólera e rancor, ataque e defesa, contra-ataque, exército inimigo ou aliado, vitórias, ocupação, conquistas, derrotas, concessões, negociações, acordos, espião, embaixador, etc.

Jogo de xadrez: enquadramento onde predomina uma idéia temática do jogo de xadrez e de seu tabuleiro, a supremacia de um sobre o outro, a tomada de controle sobre o adversário, jogo que põe em ação a inteligência e a sabedoria; o tabuleiro como representação do mundo e das disputas políticas, como campo de ação de estratégias e táticas, movimento de peças, avanços, recuos, xeques-mates, vitória final sobre o adversário, etc.

Jogos esportivos: enquadramento onde predomina uma idéia temática de oposição de um campo a outro, disputa entre poderes polarizados, competição contra forças adversárias, jogo contra o medo e a fraqueza; equipes, parceiros e interesse comuns, adversários e interesses antagônicos; o respeito às regras do jogo e o exercício da liberdade e da astúcia, oportunidades e risco, destreza e habilidades individuais, sorte e azar, vitória ou derrota final, empate, etc.

Corrida de cavalo/carro: enquadramento onde predomina uma idéia-força temática de quem chega primeiro, quem alcança o final de maneira mais rápida ultrapassando adversários e deixando-os para trás, impetuosidade do desejo, valorização da rapidez, da velocidade, da dianteira frente aos adversários, liderança e distanciamento, superação de obstáculos e adversidades para permanecer na frente, etc.

Quebra-cabeças: enquadramento onde predomina uma idéia temática tipo complicação e impasse, procura de encaixe de peças, emaranhado de possibilidades (semelhança com o labirinto), combinação de partes, objetivo de procurar à união dos fragmentos para se chegar à totalidade, ao sentido e à compreensão.” (Ibid, p.15)

Esses cinco enquadramentos narrativos forneceram a pesquisa, juntamente com os conceitos de FARIA (2001) e Bahktin como se encontra em BRAIT (2004), orientações para a identificação de vieses e posicionamentos ideológicos nas capas, fotos e títulos dos jornais da semana que sucederam o debate televisivo da Bandeirantes entre Geraldo Alckmin e Luiz Inácio Lula da Silva, transmitido no dia 08 de outubro de 2006, a saber as edições de 09/10 até 13/10 da Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo.

Em um primeiro momento, fez-se a leitura de todas as matérias selecionadas da Folha e do Estadão sobre o debate televisivo. Depois, fez-se uma análise de capas, fotos e títulos conforme os conceitos apresentados na fundamentação teórica, o que permitiu relacionar a análise aos enquadramentos narrativos propostos por MOTTA (2006).

Análise dos jornais

A manchete da Folha de segunda feira, 09 de outubro de 2006, impressiona pela linguagem utilizada, com teor agressivo. É notável no título em destaque a utilização do verbo “ataque” (presente do subjuntivo do verbo atacar), que aparenta o estilo adotado pelo veículo de apresentar uma versão hostil do debate, tratando-o como um confronto. Todo o conjunto visual da capa insinua uma disputa agressiva entre os adversários. Um exemplo evidente é a utilização de imagens cuja linguagem corporal reforça o sentido de combate apresentado no título “Lula e Alckim partem para o ataque no primeiro debate”. O modo como o candidato Geraldo Alckmin aponta o dedo indicador para o opositor, na Língua Brasileira de Sinais (Libras), expressa o significado de “ofensa”, “acusação”. O gesto do Tucano reforça a legenda da foto, cuja frase irônica e acusatória serve de provocação ao adversário. “O presidente é uma das pessoas mais bem informadas do país. Então eu pergunto: de onde veio o dinheiro sujo, o R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo para comprar o dossiê fajuto?”

A foto do candidato Luís Inácio Lula da Silva paralela ao do ex-governador de São Paulo segue a mesma lógica do exemplo apresentado acima. A gesticulação do presidente mas remete a um significado diferente - o gesto de Lula é típico de alguém que expressa o sentimento de “basta” ou “chega”. Em Libras, tal gesto significa “acabar”. No caso, “acabar” estaria em relação direta com a tentativa do presidente de terminar com o direito à reeleição, como se apreende da legenda: “O governador poderia dizer onde é que começou a compra espúria de voto nesse país? Ele por acaso se esqueceu da emenda da reeleição, que não foi apurada por nenhuma CPI?” A relação com do sentido de “acabar” na foto e o verbo “começar” na legenda apontam para um contraste ideológico: enquanto Alckmin seria responsável pelo começo do “mal” da reeleição, Lula seria o responsável por dar fim a esse problema. 

Já no Estado de S.Paulo do mesmo dia, o Estado utilizou um tom mais ameno na manchete e também nas fotos, ao tratar sobre o debate. Nas fotos os gestos dos candidatos dão à idéia de uma discussão, sem contudo transmitir a idéia de conflito ou agressão, e a própria a manchete “Lula e Alckmin se acusam e perguntas ficam sem resposta” apontam para um debate ou discussão de idéias em detrimento de um conflito mais agressivo mostrado pela Folha.

Nas capas do Estado de S.Paulo, o jornal pareceu assumir uma tentativa de amenizar a vantagem de Lula como expressa na pesquisa divulgada no dia 11/10. O Estado parece conferir mais importância à reação de Alckmin diante da campanha, considerada ofensiva, do presidente do que as vantagens de Lula nas pesquisas. Na quarta-feira, 11 de outubro de 2006, a edição do Estado estampou o seguinte título: “PT intensifica tática do medo e Alckmin reage” [grifo nosso]. O olho abaixo do título nessa mesma edição afirma uma atitude ofensiva de petistas, mas finaliza com uma sentença de revogação tucana: “Lula, ministros e aliados alegam que o tucano vai cortar ações sociais e causará recessão; ‘mentem', diz Alckmin [grifo nosso]”. O mesmo se dá na edição de terça, 10/10, onde mais uma vez o candidato do PSDB dá a última palavra no olho do texto da segunda manchete: “Presidente chama Alckmin de ‘delegado de porta de cadeia'; candidato tucano justifica: ‘Externei a indignação que estava na garganta do povo'” [grifo nosso]. Até mesmo a legenda da foto da primeira dama, Marisa Letícia, fazendo campanha eleitoral na edição de quarta-feira 11/10, termina com uma contraposição tucana: “Acompanhadas de cerca de 500 militantes, a primeira-dama, Marisa Letícia (foto), e a mulher do vice-presidente, Mariza Gomes, caminharam pela zona central de Brasília por 1 hora e meia, distribuindo panfletos eleitorais e conversando com ambulantes. Um deles, Silvino Fontinelli, recusou o folheto oferecido por Marisa. ‘Meu voto é do Alckmin', disse.” Soma-se a isso o fato do Estado não ter publicado o resultado da pesquisa de intenção de voto, divulgada na quarta-feira, 11/10, o fazendo apenas na sexta-feira, 13/10.

Folha: Sexta, 13 de outubro de 2006

Na sexta-feira, 13/10, as duas fotos estampadas ao lado da manchete da capa apontam uma profunda relação apesar de dos ângulos distintos em que foram tiradas. A foto da esquerda traz, de baixo para cima, a foto de Dom Eusébio Scheid, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, de costas, com o típico traje vermelho. Em destaque, a imagem do Cristo Redentor. A foto, tirada por ocasião da celebração de 75 anos do Cristo, contrasta com uma foto tipicamente de campanha política: Alckmin, de cima para baixo, mãos para trás, calvície exposta. As duas fotos, embora tematicamente diferentes, possuem forte conotação política. A cor vermelha da roupa do arcebispo, uma referência a cor do Partido dos Trabalhadores, e a imagem do Cristo Redentor dão uma conotação bênção ou favorecimento divino. Por sua vez, o ângulo em que se encontra a foto de Alckmin e a posição de suas mãos indicam uma busca pelo favorecimento divino, algo que ainda não se possui. Juntas, uma das fotos parece transmitir uma certa superioridade sobre a outra – no caso, o conjunto visual da foto na qual se encontra Alckmin, bem como o título da legenda da mesma foto dão o sentido de desvantagem tucana: “Oração tucana”.

Outra inferência sobre o posicionamento ideológico dos jornais por meio dos títulos e do foto-jornalismo encontra-se na matéria da página A4, intitulada “Lula acusa golpe e diz que dia do debate foi ‘um dos mais tristes' de sua vida”. A foto que acompanha matéria, no entanto, atribui maior conotação emotiva do que os dizeres do título. A posição em que o presidente está, sentado, com uma das mãos segurando a perna e a outra apoiando a cabeça, olhos fechados, aponta mais preocupação e frustração do que propriamente tristeza. A chamada do título comenta o motivo do sentimento expresso no título. “Em discurso, presidente chama Alckmin de candidato de uma nota só por insistir em discutir corrupção.” Associada a foto, a chamada pretende atribuir uma causa à preocupação de Lula: a corrupção que assola do governo. Mas porque a corrupção o preocupa? Será que o candidato esconde algo que possa ser descoberto? São estas indagações que surgem ao se dar atenção para a parte visual da matéria.

Enquadramentos narrativos e conclusão

As análises de estilo e de viés feitas edição por edição permitiram uma espécie de padrão narrativo nas matérias analisadas. Em ambos os jornais, a maior parte da linguagem usada nas matérias, títulos e fotos encaixam-se na categoria estipulada por Luiz Motta como “guerra”, “enquadramento onde predomina uma idéia temática de luta entre as forças do bem e do mal, destruição do adversário, relato de ações em combates, guerreiros, cólera e rancor, ataque e defesa, contra-ataque, exército inimigo ou aliado, vitórias, ocupação, conquistas, derrotas” (MOTTA, 2006, p. 15). A linguagem utilizada se enquadra dentro da categoria de guerra.

Alguns exemplos da adequação da linguagem a esse enquadramento encontram-se na edição de sexta-feira, dia 13, do Estado de S.Paulo, no segundo parágrafo da pág. A5 “...a artilharia de Alckmin foi uma resposta ao Lula”; “PT ataca família de Alckmin e se desculpa” (Folha, 13/10), “Lula e Alckimin partem para o ataque no primeiro debate” (Folha , 09/10). “PT intensifica tática do medo e Alckmin reage” (11/10).

A presença de palavras como “agressividade”, “defensiva”, “rival”, “duelo”, entre outras, podem ser facilmente percebidas na edição do dia 10 e 12 de outubro na Folha. Soma-se a isso um número razoável de fotos onde os candidatos são dispostos frente a frente na página, cuja expressão facial fortalece a idéia de embate entre os candidatos.

Em geral, a Folha assumiu um tom mais agressivo, interpretando e analisando o debate em uma construção discursiva de batalha e combate. Já o Estado adota termos mais amenos na para reconstruir o debate. Assim como na linguagem, as fotos do Estado estão menos dramáticas e agressivas do que as da Folha. No entanto, embora Estado adote métodos menos comprometedores para descrever o resultado do embate, a Folha conseguiu maior isenção ao abordar e repercutir o debate televisivo. Conquanto tentasse manter a imparcialidade almejada pela linguagem referencial, o Estado fez diversas contraposições a matérias cujo espaço deveria ser somente do candidato Lula, utilizando sentenças de revogação ou contestação ao final de legendas e chamadas.

A típica construção jornalística no viés de guerra, segundo os enquadramentos de Luiz Motta, e a relação criativa entre legendas, fotos e manchetes reforça os conceitos desenvolvidos por Beth Brait e Maria Alice Faria, de que nas entrelinhas do conjunto visual e do discurso jornalístico há um posicionamento ideológico concreto, cujas malhas da linguagem referencial não podem deter.

Referências Bibliográficas:

BRAIT, Beth (org). Bahktin – conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2004. p.79-102.

FARIA, Maria Alice. Manchetes e títulos no ornalismo brasileiro: o dito e o não-dito. In: AZEREDO, José Carlos (org). Letras & Comunicação. Petrópolis: Vozes, 2001.

MOTTA, Luiz. Enquadramentos narrativos: a forma jornalística de organizar a realidade. Texto a ser apresentado no IV Encontro Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), em Porto Alegre, nos dias 05 a 07 de novembro de 2006.

Pesquisa em andamento, a ser apresentada por ocasião do IV Encontro Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), em Porto Alegre, (05-07/11).

As edições analisadas da Folha de S.Paulo foram as de número 28.313 até 28.317 e as do Estado de S. Paulo as de número 41.264 até 41.268.