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Em pé de guerra

Cígredy Neves, Rodrigo Galiza e Larissa Jansson

Introdução

Manter a imparcialidade ao realizar uma cobertura política como as eleições presidenciáveis não é uma tarefa nada fácil. Muitas vezes, os textos são embasados de acordo com a posição que o veículo defende. O objetivo deste artigo é analisar estas matérias. Foram avaliadas a repercussão dos debates do segundo turno do SBT e da Rede Record, veiculado na segunda-feira, 19 de outubro, e quinta-feira, 23 de outubro, respectivamente, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo.

Fundamentação teórico-metodológica

A pesquisa foi baseada em três conceitos: a definição de estilo de Bakhtin, por BRAIT (2004); o dito e o não dito, de FARIA (2001); e tipos de construção discursiva de textos de jornalismo político, por MOTTA (2006).

O estudo da construção do discurso jornalístico em sua interação com o projeto gráfico do jornal apresenta uma rica variedade de elementos que permitem identificar, embora o discurso jornalístico valha-se essencialmente da linguagem referencial para atingir se objetivo informativo, posicionamentos ideológicos e até mesmos juízos de valor. Um dos termos que englobam essa definição é o conceito de “estilo”, segundo o pensamento bakhtiniano.

O “estilo” de um jornal ou de uma revista não é estabelecido apenas pela aparência visual ou pelas pautas do dia ou da semana – mas também pelas “escolhas verbo-visuais que são feitas para expor esses tópicos e, também, da relação que o jornal mantém, ou pretende manter, com seus leitores” (BRAIT, 2004, p.81). O “estilo”, portanto, é uma visão de mundo antes do que uma elaboração material meramente informativa.


Em relação direta com os conceitos de Bahktin encontra-se o trabalho de FARIA (2001), que toma como base para a análise de inferências, subentendidos e ideologias no texto a riqueza discursiva do título jornalístico, uma vez que “títulos e manchetes contribuem para dar ao leitor crítico uma imagem da identidade do jornal ou de sua linha de informações” (FARIA, 2001, p.196). Embora a luta pela imparcialidade jornalística se manifeste por meio do uso da “norma padrão em títulos e manchetes” e o afastamento de “intensificações emotivas e palavras contundentes”, quando se trata de matéria polêmica ou controversa, FARIA afirma que há um desvio do caráter informativo puro, típico da linguagem referencial (Ibid., p.206 e 207).

Dessa forma, os jornais “procuram palavras que não os comprometam mas que, ao mesmo tempo, tragam em seu significado algo de ambíguo (...) segundo a linha ideológica do periódico. E é por meio das discrepâncias e inferências que ocorrem nas fotos, títulos e manchetes que o veiculo expõe sua opinião e posicionamento ideológico, especialmente o político-partidário.

Segundo FARIA, uma das maneiras implícitas de ideologizar as matérias é o uso de fotos em contraste ou complemento ao texto. “Quando o jornal não quer estampar manchetes contundentes ou abertamente criticas, para não evidenciar demais a posição do periódico, o uso o fotojornalismo é um complemento indispensável ao não-dito pelas palavras” (2001, p.201). Para ela, a intensidade de significação em palavras sinônimas ou a substituição de certas palavras por outras podem tornar o titulo mais agressivo ou amenizar o teor da notícia.

Dessa forma, a percepção do “estilo” do jornal, sua visão de mundo e seu posicionamento ideológico por meio de títulos, manchetes e fotos é um meio inusitado mas não pouco eficaz de enxergar posicionamentos e vieses além da linguagem referencial. E essa visão de mundo, esse posicionamento ideológico diante dos fatos , “em época de eleição, (...) se revela de forma abundante e quase óbvia” (Ibid. p.84).

Ao encontro dos conceitos de FARIA (2001) e BRAIT (2004), a pesquisa em andamento de Luiz MOTTA (2006) propõe uma espécie de classificação ou enquadramento narrativo dos discursos jornalísticos sobre política. Apesar dos desafios epistemológicos que uma interpretação dos discursos jornalísticos na forma de enquadramento narrativo oferece, uma vez que “na linguagem objetiva do jornalismo as ressonâncias simbólicas são frágeis e fugidias” (MOTTA, 2006, p.14), esse tipo de classificação pode viabilizar mais claramente ao leitor uma análise de vieses, posicionamentos e ideologias.

Considerando que “a matéria prima do jornalismo são os dramas, tragédias e conflitos do cotidiano” (Ibid, p.14), Motta classificou o discurso jornalístico em enquadramentos narrativos que expressam a visão editorial e ideológica na reconstrução da realidade. Ao retratar a realidade política, “a expressão jornalística torna-se ambígua e contraditória, [pois] tende para o racional, mas não escapa do ficcional. Quer ser o espelho fiel da realidade, mas não consegue liberar-se das determinações culturais e simbólicas” (Ibid. p.14).
Ele utiliza, na cobertura política, seis categorias de classificação, das quais cinco serviram como base para a presente pesquisa:

Guerra: enquadramento onde predomina uma idéia temática de luta entre as forças do bem e do mal, destruição do adversário, relato de ações em combates, guerreiros, cólera e rancor, ataque e defesa, contra-ataque, exército inimigo ou aliado, vitórias, ocupação, conquistas, derrotas, concessões, negociações, acordos, espião, embaixador, etc.

Jogo de xadrez: enquadramento onde predomina uma idéia temática do jogo de xadrez e de seu tabuleiro, a supremacia de um sobre o outro, a tomada de controle sobre o adversário, jogo que põe em ação a inteligência e a sabedoria; o tabuleiro como representação do mundo e das disputas políticas, como campo de ação de estratégias e táticas, movimento de peças, avanços, recuos, xeques-mates, vitória final sobre o adversário, etc.

Jogos esportivos: enquadramento onde predomina uma idéia temática de oposição de um campo a outro, disputa entre poderes polarizados, competição contra forças adversárias, jogo contra o medo e a fraqueza; equipes, parceiros e interesse comuns, adversários e interesses antagônicos; o respeito às regras do jogo e o exercício da liberdade e da astúcia, oportunidades e risco, destreza e habilidades individuais, sorte e azar, vitória ou derrota final, empate, etc.

Corrida de cavalo/carro: enquadramento onde predomina uma idéia-força temática de quem chega primeiro, quem alcança o final de maneira mais rápida ultrapassando adversários e deixando-os para trás, impetuosidade do desejo, valorização da rapidez, da velocidade, da dianteira frente aos adversários, liderança e distanciamento, superação de obstáculos e adversidades para permanecer na frente, etc.

Quebra-cabeças: enquadramento onde predomina uma idéia temática tipo complicação e impasse, procura de encaixe de peças, emaranhado de possibilidades (semelhança com o labirinto), combinação de partes, objetivo de procurar à união dos fragmentos para se chegar à totalidade, ao sentido e à compreensão.” (Ibid, p.15)

Esses cinco enquadramentos narrativos forneceram à pesquisa, juntamente com os conceitos de FARIA (2001) e Bahktin como se encontra em BRAIT (2004), orientações para a identificação de vieses e posicionamentos ideológicos nas capas, fotos e títulos dos jornais da semana que sucederam o debate televisivo do SBT e da Rede Record entre Geraldo Alckmin e Luiz Inácio Lula da Silva, transmitidos, respectivamente, nos dias 19/10 e 23/10 de 2006: a saber, as edições de 20/10 a 22/10 e 24/10 a 27/10 da Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo.

Em um primeiro momento, fez-se a leitura de todas as matérias selecionadas da Folha e do Estadão sobre o debate televisivo. Depois, fez-se uma análise de capas, fotos e títulos conforme os conceitos apresentados na fundamentação teórica, o que permitiu relacionar a análise aos enquadramentos narrativos propostos por MOTTA (2006).

A análise da repercussão do debate do SBT teve como objeto uma matéria na edição de 21 de outubro do Estado de S. Paulo . A Folha nada publicou de destaque sobre o debate. Já a análise da repercussão do debate da Record se ateve a duas matérias do Estadão e a uma matéria da Folha. O primeiro jornal tinha uma página inteira enquanto a Folha tinha um espaço de uma coluna. Nenhum dos jornais traz o debate da Record na primeira página. Na Folha houve apenas duas notas: “DEBATÉDIO! Chega! Quem viu um viu todos!” e “Na hora do debate, José Serra vai à Mostra de Cinema”.

Analisou-se o conteúdo das reportagens, as fotografias e a função que elas desempenham. Assim, identificamos o viés jornalístico predominante.

Análise sobre a repercussão do debate do SBT

A única matéria do O Estado de S. Paulo, intitulada “Candidatos voltam a citar números errados em debate” (21/10, pág. A14) ateve-se a um aspecto isolado do embate entre Alckmin e Lula. A matéria não teve relevância de capa. Foi um “tira-teima”, conforme classificado pelo próprio jornal. É o único material disponível sobre o debate do SBT para a análise a que este artigo se propõe, considerando o silêncio da Folha sobre o assunto.

Talvez ao optar por se limitar a essas questões, não houve por parte do jornal analisado a classificação do debate sob conotações como “ataque e defesa”, “estratégia”, “disputa”, - o Estadão simplesmente não apontou um vencedor do debate.

Na matéria única matéria sobre o debate, o jornal destacou os erros e exageros dos dois candidatos ao apresentarem suas propostas e ao questionarem o oponente. O título da matéria chama atenção do cidadão comum a não se deixar levar pela apresentação mal-intencionada de números e dados - que muitas vezes violam a verdade e o bom senso, visando subestimar a inteligência da sociedade – num ambiente permeado pela ironia.

O debate foi chato, cansativo. Nada de novo ali se mostrou, o que prejudicou os indecisos. O Estadão também chamou atenção para esse fato, lembrando que as mesmas perguntas do debate anterior, veiculado dias antes na Rede Bandeirantes, foram repetidas, por exemplo.

O Estado de S. Paulo foi eficiente em colocar os dados apresentados pelos candidatos em contraste com a realidade. O estilo utilizado pelo Estadão para fundamentar sua matéria foi sóbrio e direto. Ao comparar as afirmações de ambos os candidatos e confrontá-las com a realidade – objetivo principal da matéria -, o jornal ateve-se aos fatos, provando com dados reais e matérias próprias várias irregularidades. Com isso, mostrou implicitamente aquilo que se pode classificar como má fé de Lula e Alckmin.

Destacou-se também a pouca familiaridade de Lula com os números de seu próprio mandato, e as gafes do candidato ao tentar improvisar. O jornal, portanto, apontou nas entrelinhas um despreparo do candidato do PT.

O periódico solicitou também a opinião de três cientistas políticos: Leôncio Martins Rodrigues, que acredita que o candidato à reeleição concentrou-se em estatísticas para mostrar a eficiência de seu governo em detrimento da ideologia, alem de ter propostas semelhantes às de Alckmin; Fábio Wanderley Reis, que classificou o debate como “enfadonho” e incapaz de influenciar a eleição; e Marcus Figueiredo, que acredita que o debate em nada ajudou os indecisos. Ao fazer isso, deixou para especialistas a tarefa de analisar um momento importante na campanha eleitoral e incentivou a análise crítica do evento por parte dos leitores.

Como a Folha de S. Paulo nada publicou sobre o debate do SBT nas edições seguintes ao evento, não é possível estabelecer comparações sobre os aspectos aqui levantados ao analisar O Estado de S.Paulo. Ao deixar de abordar este evento, a Folha de S. Paulo deixa uma lacuna importante, que prejudica os leitores que fazem deste jornal uma ferramenta para embasar e tomar suas decisões políticas.

Análise do Estado de S. Paulo

Na página A8 do Estado de S.Paulo (25/10), especial da cobertura das eleições 2006, o jornal apresenta três matérias. A primeira reportagem (“Lula bate Alckmin por 61% a 39% dos votos válidos, informa Datafolha”) mostra resultados da pesquisa de intenção de voto, não mencionando o debate da Record especificamente.

Uma foto grande de 19 cm x 14 cm divide a página e dá a impressão de que os dois estão se cumprimentando com as mãos opostas, o que não é verdade. Esta imagem, pela sua proporção, é o destaque da página. Com o fundo azul, o candidato Alckmin aparece na direita com um sorriso no rosto, acenando o polegar direito de maneira positiva. Por outro lado, Lula aparece com a afeição mostrando preocupação e desconfiança.

Abaixo da foto, a matéria “Guerra dos números inclui apenas munição reciclada” demonstra a característica de um viés jornalístico de guerra. Baseado no conceito de MOTTA (2006), esse viés usa uma linguagem típica de conflitos. O Estadão usa nesta matéria as palavras “guerra”, “munição” e no subtítulo, “arsenal”. No decorrer do texto é possível perceber o mesmo viés, por meio das palavras “atacar” e “rival”.

Após essa análise panorâmica, fez-se uma análise parágrafo por parágrafo da matéria “Guerra dos números inclui apenas munição reciclada”, cujo objetivo é comentar algumas declarações que ambos os candidatos fizeram no debate.

O primeiro parágrafo apenas informa que os dois candidatos usaram a mesma estratégia dos debates anteriores. No segundo, a afirmação de Alckmin comprova a tentativa frustrada de acusar o seu oponente: “tentou... sem sucesso”. No terceiro parágrafo, Lula é retratado como se estivesse fugindo de responder a pergunta de Alckmin sobre os gastos da Presidência. A expressão “fugiu” dá um peso maior à acusação. A expressão “deixou de responder” poderia ter suavizado a informação.

No parágrafo seguinte, a matéria mostra que o presidente omite informações. Ao falar sobre a queda do nível de pobreza de seu governo, Lula omite, de acordo com o jornal, que a renda média familiar caiu e 60% ficaram mais pobres ou estagnados. Além disso, o nível de desemprego continuou acima de 11%, criticando assim o candidato do PT por sua política de bolsa-família que ajuda apenas os mais pobres.

Lula é novamente retratado de forma negativa no próximo parágrafo. “Falso marketing” foi a descrição do jornal sobre a declaração dele sobre política econômica de seu governo. A matéria complementa logo em seguida que a acusação do Lula sobre rombo no governo de São Paulo “não existe” e mostra dados da Secretaria de Tesouro Nacional, que desmente o presidente.

Apenas nos dois últimos parágrafos Alckmin volta a ser criticado. A acusação é de exagero por parte do candidato do PSDB. “Inflar” e “exagerou” foram expressões usadas para transmitir a informação, mas o argumento usado na reportagem é de que o candidato tucano ainda possui alguma razão.

No caso da acusação exagerada de Alckmin ao incriminar Lula de “destruir a indústria brasileira” exportando matéria-prima e importando manufaturados, o jornalista afirma que as exportações de bem de consumo “de fato estão crescendo” mais que os bens de capital. Apesar do exagero de Geraldo, o Estadão dá credibilidade à informação do candidato.

Ao fazer um balanço nesta matéria, percebe-se que as acusações sobre o candidato Lula foram mais pesadas. Termos como “fugiu”, “não existe”, “falso” e “omite” foram usados freqüentemente contra ele. Já no caso do tucano, as acusações foram mais leves. Apenas “tentou sem sucesso” e duas vezes que “exagerou”. Exagerar é diferente de mentir e omitir. O peso em Lula é maior e a foto acima do texto contribui com esta visão.

A terceira matéria, ainda na página A8, o texto, cujo título é “Nos argumentos erros, exageros e muitas omissões”, também apresenta um viés de guerra. Palavras como “ataque”, “desqualificou”, “acusou”, “defendeu” podem comprovar isto.

O subtítulo “Alckmin cita falta de seguro agrícola, que Lula diz ter criado – e existe desde 73” mostra a tentativa de neutralidade da matéria. “Os candidatos” são retratados como errando e exagerando nos argumentos usados durante o debate. Primeiro Lula é apresentado como apoiando o Jefferson e no debate, desqualificando o ex-deputado do PTB-RJ.

No segundo parágrafo, Lula “omitiu” que política econômica dos militares tinha participação chave de Delfim Neto, consultor de Lula para a política econômica do segundo mandato. Essa omissão aconteceu quando Lula responde à acusação de Alckmin sobre política econômica. Nessa resposta Lula afirma que governo militar não baixou nível de pobreza mesmo elevando taxas de crescimento econômico. Aqui é mencionado que Alckmin não “explorou” o assunto.

Outra vez Lula é enfatizado pelo Estadão. No parágrafo seguinte, o presidente “deu uma resposta dúbia” quando questionado se é a favor da liberdade de imprensa. Ao responder, ele afirmou que uma candidata estadual foi ao ar 66 vezes enquanto o opositor nenhuma, tentando mostrar a falha da imprensa. Mas o jornal mostra que nos único dois estados onde há candidatas, as emissoras de TV negam a afirmação do presidente.

“Lula escamoteou os fatos também”. Este foi o início do quarto parágrafo. Nele, o presidente é acusado agora de concordar com Vedoin e o dossiê. Entretanto, Lula afirma que não foi beneficiado e acusou Serra e Barjas Negri como envolvidos na máfia dos sanguessugas.

A seguir, o candidato Lula é novamente o ponto focal. Quando ele afirma que o Brasil tinha conseguido unidade na América do Sul, o Estadão escreve que Bolívia “não prorrogaria o prazo para definir a situação da Petrobrás”. Pelo caso da nacionalização do gás boliviano não ter sido positivo economicamente para o Brasil, a colocação tem um peso ainda mais crítico.

Logo em seguir, o jornal explica que a razão pela qual a China deve ser reconhecida como economia de mercado pelo Brasil gira em torno do interesse oriental de investimento em siderurgia. Ao contrário, Lula ressaltou no debate que o reconhecimento acontecia porque incrementava exportação para aquele país.

Alckmin é citado apenas no último parágrafo. Ele mentiu ao afirmar que o país não possuía seguro agrícola. Por outro lado, Lula também cometeu o mesmo erro ao falar que ele era o criador. Segundo o Estadão, o seguro foi criado em 1973, no governo de Médici, ou seja, ainda quando Alckmin é retratado negativamente, Lula está junto.

Análise da Folha de S. Paulo

A única matéria que o jornal Folha de S. Paulo trouxe sobre o debate da Record possui apenas quarenta linhas. Ela aborda a denúncia feita pelos tucanos sobre a existência de um ponto no ouvido de Lula. O título da matéria foi “Para Garcia, suspeita sobre ponto é ridícula e mostra que denúncia é infundada” e apresenta um viés jornalístico de guerra, como classificou Luiz Motta.

No primeiro parágrafo, o jornal informa que o marqueteiro do PT telefonou para o coordenador de comunicação de Alckmin reclamando da denúncia feita. A seguir a matéria relata apenas que após o debate os tucanos teriam questionado à emissora sobre a possibilidade do uso do ponto pelo “rival”.

Já no terceiro parágrafo, existe uma declaração do coordenador de campanha do PT sobre o assunto. Ele acusa o PSDB de “preconceituoso” e “ridículo”. E através do verbo usado no final “alfinetou”, realça a intriga entre os partidos. Isso é aumentado pelo peso da página que possui uma matéria maior ao lado sobre os “debates saturados”. Nela, o jornal classifica os debates da mesma forma e considera que eles “não acrescentam nada”.

No último parágrafo, há uma declaração da rede Record. A rede nega a existência de um ponto. Conclui-se que a matéria não possui uma aparente parcialidade.  O que pode ser visto é um reforço negativo de Alckmin apenas em acusar o presidente. Esse fato foi ruim para o PSDB nas pesquisas e foi reforçado com a matéria.

Comparação entre Folha e Estadão

Ao analisar as coberturas que O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo fizeram do debate da Record, é possível notar a escassez de informações. Entretanto, isto acontece com maior freqüência na única matéria publicada pela Folha.

Já no Estadão, Lula é retratado de forma mais negativa do que o seu oponente tucano. Apesar do título, subtítulo e início do primeiro parágrafo tentarem transmitir uma imparcialidade, as críticas são em maior número ao Lula.

Apenas duas vezes Alckmin é diretamente citado como errado. Uma delas foi quando não soube aproveitar o erro do oponente. Enquanto isso, Lula “omitiu”, “deu uma resposta dúbia” e é inconstante ao apoiar e depois denunciar Jefferson.

A presente pesquisa reforçou, conforme os conceitos desenvolvidos por Beth Brait e Maria Alice Faria, a existência de um posicionamento ideológico concreto nas entrelinhas do conjunto visual e do discurso jornalístico, apesar da força da linguagem referencial.


Referências Bibliográficas:

BRAIT, Beth (org). Bahktin – conceitos-chave . São Paulo: Contexto, 2004. p.79-102.

FARIA, Maria Alice. Manchetes e títulos no ornalismo brasileiro: o dito e o não-dito. In: AZEREDO, José Carlos (org). Letras & Comunicação. Petrópolis: Vozes, 2001.

MOTTA, Luiz. Enquadramentos narrativos: a forma jornalística de organizar a realidade. Texto a ser apresentado no IV Encontro Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), em Porto Alegre , nos dias 05 a 07 de novembro de 2006.

As edições analisadas da Folha de S.Paulo foram as de número 28.328 até 28.331 e as do Estado de S.Paulo as de número 41.276 até 41.278.