Naquela manhã de segunda nada mais ocupava as manchetes dos principais jornais a não ser o resultado surpreendente das urnas. As pesquisas erraram, tudo foi completamente incomum. O povo teria alguns dias a mais para pensar melhor e decidir o próximo governante do País. Lula ou Heloísa Helena – quem conseguiria vencer dessa vez?
Ninguém acreditou que ela iria tão longe. Nordestina, origem humilde e vontade de ferro. Heloísa chegou ao topo à custa de muito esforço e persistência. Mulher simples do interior e pobre poderia ter desistido e se conformado com o destino. Mas foi além e conseguiu muito mais que a maioria.
Do outro lado uma história parecida. Batalhador de muitos anos, o atual presidente também não teve uma infância de ouro. E baseado no discurso que acabou convencendo milhões a votarem nele em 2002, quatro anos mais tarde estava num embate contra alguém que em outros tempos já havia dividido com ele os mesmos ideais de partido.
Certamente, aquela estava sendo a eleição mais disputada da história. Nunca uma mulher tinha ido tão longe. Autêntica representante das minorias, com voz firme e discurso cheio de paixão por novos tempos, ela acabou conquistando o apoio de muitos. E até surpreendeu a todos que esperavam ver se repetir a ferrenha disputa PSDB X PT. Os tucanos ficaram felizes, mas uma felicidade velada que escondia os verdadeiros intentos e se preocupava mais com 2010. Os brasileiros que se resolvessem com os próximos quatro anos.
E com aquele segundo turno inusitado Lula sentiu o medo frio da derrota. Teria sido o dossiê? Os escândalos? Como os companheiros não avisaram para ele o risco que ele corria de não ser reeleito? Mas não pensou muito nisso, afinal, ele nunca ficava sabendo de nada mesmo...
Chegara o momento de arregaçar as mangas brancas da camisa e rever os planos, investir no que tinha dado certo e corrigir os erros. Heloísa começou a se sentir otimista e acreditar que as chances estavam lá e poderiam ser aproveitadas. Naquela manhã pensou em como seria, o que faria nos primeiros dias com a responsabilidade de representar milhões.
Do outro lado, o IBOPE, Vox populi, e todos os responsáveis por pesquisas eleitorais começaram uma corrida desenfreada atrás de novos números. Como puderam estar os resultados tão errados? Precisava ser feita alguma coisa para não acabar com a credibilidade. Afinal, nesses tempos já não eram poucos os que diziam por aí que as pesquisas eram compradas e serviam a interesses escusos.
Ao ver que Heloísa estava quase lá, muitos partidos procuraram uma possível coligação. Do outro lado, Lula ia em busca de novos adeptos para a segunda milha. Já não via televisão, visto que em todos os canais podia ouvir a voz feminina que insistia em chamá-lo de “vossa majestade”. Já não lia jornais, porque estava cansado das denúncias e escândalos. Se bem que nem fez tanta diferença, pois se considerava um homem muito ocupado e nem sempre se lembrava de ler e se informar. Os acessores e companheiros faziam isso por ele. Essas e muitas outras coisas não tão recomendáveis, segundo o noticiário.
Já na primeira semana era visível o número de brasileiros que apoiavam uma mudança e rejeitavam a reeleição. De norte a sul, Heloísa era o nome mais aclamado. Na TV, com voz firme e dedo em riste, a candidata do PSOL dizia que estava na mão do brasileiro fazer com que o tempo esperado para mudanças fosse agora. Convocou os idosos para exercerem seu direito. Lembrou os mais jovens da importância das eleições. Ao final de todos os discursos dizia: “não existe país subdesenvolvido. Existe país subadministrado”.
No primeiro debate o presidente não apareceu. No segundo, foi, mas acabou perdido entre papéis e falas esquecidas. Já não se podia negar a visível empolgação do povo, que de norte a sul pedia renovação. A oposição procurava de todas as formas possíveis encontrar algo que incriminasse a candidata. Varreram o seu passado, esmiuçaram sua história, mas não encontraram uma migalha sequer que manchasse a sua reputação. Mas não desistiram, já que não conseguiam entender como haveria alguém envolvido com política e que nunca desviasse uma verba, ou aceitasse alguma propina ao menos uma vez.
Chegou o dia da grande decisão, e as urnas confirmaram o que já se sabia. A vitória foi a mais espetacular que jamais houvera em toda a história do país. Os petistas teriam que arrumar as malas.
No discurso de posse, Heloísa, a nova heroína do povo, disse que o Brasil estava no início do período que entraria para a história. Menos desemprego, mais educação, saúde e segurança. E para os que a chamaram de utópica e surrealista e ela apenas sorriu e disse, “o que o povo sonha para o país eu ousarei realizar”. |