home |
 

A esperança de mudanças tem de ser no cidadão

Tales Tomaz

 

O segundo turno não apresentou questões novas para a discussão da política, entretanto, serviu para se observar o comportamento da mídia. O jornalista Milton Jung concedeu uma entrevista para o Canal da Imprensa e disse o que achou do comportamento da mídia. Ressaltou ainda que não tem esperanças de que os políticos mudem sua postura sozinhos. Para Jung, “a esperança tem de ser no cidadão”.

Formado em jornalismo pela PUC-RS, em 1985, começou um ano antes na rádio Guaíba de Porto Alegre. No Rio Grande do Sul, também trabalhou na rádio Gaúcha, jornal Correio do Povo e SBT. Em 1991, foi para São Paulo, a convite da TV Globo. Foi repórter e âncora na TV Cultura, RedeTV! e Jornal do Terra (Portal Terra). Hoje é âncora da rádio CBN, apresenta o programa CBN São Paulo. Jung também é autor dos livros Jornalismo de Rádio (Editora Contexto) e Conte Sua História de São Paulo (Editora Globo).

Canal da Imprensa Qual é a contribuição que o jornalismo opinativo pode dar em época de eleições?

Milton Jung - O jornalismo opinativo é uma das formas de situar o cidadão no cenário político.

CI - Você acha que é possível a imprensa factual ficar totalmente isenta e imparcial na cobertura da corrida presidenciável?

MJ - A imparcialidade é um mito. Nascemos, convivemos, estudamos e compartilhamos idéias com diferentes grupos sociais. Cada um desses segmentos influencia nossa maneira de agir e pensar. E esta cultura se reflete nas escolhas que fazemos durante a cobertura jornalística.

A isenção, sim, é necessária. E para isto cabe ao jornalista dar oportunidades semelhantes aos diferentes pontos de vista e ideologias.

CI - Em palestra na Semana de Comunicação do UNASP, em 28/09, você disse que a imprensa, de uma forma geral, estava exagerando na cobertura dos escândalos do governo Lula. Agora, com o segundo turno, você acha que esse ataque velado da imprensa se intensificou ou diminuiu?

MJ - Em muitos casos, o ataque deixou de ser velado para ser explícito. Os exageros se repetiram e o destempero de alguns setores da sociedade se refletiu na cobertura jornalística.

CI - O jornalista Luciano Costa, na véspera das eleições em primeiro turno, disse que "a imprensa perdeu as eleições, porque perdeu a oportunidade de discutir em profundidade os problemas reais do país". Você concorda com essa afirmação?

MJ - A cobertura eleitoral foi contaminada pelas denúncias de corrupção. Diga-se de passagem, tema importante a ser debatido. Mas deixou-se de tratar com mais profundidade dos demais assuntos que influenciam o cotidiano do brasileiro. Não atribuo, no entanto, a culpa apenas aos meios de comunicação. Os partidos e os candidatos não pareciam, também, dispostos a aprofundar estes temas.

CI - E no segundo turno? Como a imprensa se comportou em relação aos principais problemas do país?

MJ - Não detectei mudança de comportamento dos meios de comunicação do primeiro para o segundo turno.

CI - Qual você acredita ser a principal razão para Lula ter se reeleito com tamanha vantagem?

MJ - Desde a implantação do sistema de reeleição, o candidato que está no poder leva vantagem. Foi assim com Fernando Henrique, foi assim com Lula. Fenômeno que se repete à medida que candidatos e partidos se assemelham, não conseguem mostrar diferenças fundamentais.

Lula teve capacidade, ainda, de se comunicar com parcela significativa da população e se descolar das denúncias de corrupção em seu governo. Sem contar que foi beneficiado por ações sociais desenvolvidas em áreas mais carentes do País e pela política de transferência de renda.

CI - E se Heloísa Helena tivesse ido ao segundo turno, ao invés de Alckmin. Você acha que Lula venceria com essa mesma facilidade?

MJ - Temo que muitos dos que se situam nos segmentos mais reacionários da sociedade iriam cortar os pulsos.  Seria, sem dúvida, uma disputa interessante, apesar de entender que a vantagem de Lula pudesse ser ainda maior. Para começo de conversa, o PSOL não teria estrutura partidária para uma campanha nacional, enquanto Lula, certamente, receberia o apoio maciço do sistema financeiro pouco interessado em ver uma “radical” no poder.

CI - Como será a governabilidade de Lula no segundo mandato?

MJ - Difícil imaginar isto neste momento, vai depender de como Lula formará seu governo, do comportamento dele e da oposição nos próximos quatro anos. Provavelmente, será a seqüência destes últimos quatro anos. Lula dizendo que nada tem a ver com isso, a oposição esperneando para provar o contrário, e o Brasil esperando que alguém pense no cidadão e faça pelo cidadão.

CI - Em sua opinião, o brasileiro está votando mais conscientemente?

MJ - Não tenho dúvida, apesar de a parcela da população que pode ser identificada como opinião pública ainda ser insignificante. Temos mais fontes de informação, mais entidades organizadas interessadas em mobilizar a sociedade e mais discussão. Por outro lado, temos uma democracia ainda jovem e um sistema de educação precário. Este precisa ser desenvolvido para que a democracia seja mais bem exercida.

CI - Você acredita que a Cláusula de Barreira, que praticamente restringe o número de partidos, foi positiva para o cenário político brasileiro?

MJ - No Brasil, boa parte das vezes, copia-se regras de outros países pela metade. A cláusula de barreira é um desses exemplos. Por isso, durante algum tempo, ainda teremos uma profusão de siglas a poluir o processo político e não representar segmentos significativos da sociedade.

Uma das intenções é limitar a ação das siglas de aluguel, que vendem o espaço a que têm direito para defender a idéia de quem pagar mais. E talvez esta se alcance à medida que os partidos que não alcançaram votação mínima sofrerão restrições do fundo partidário e na divisão de tempo no rádio e na televisão.

Hoje, alguns desses partidos já se aglutinam formando novas siglas.

CI - Já foi sugerido o fim da reeleição em todos os níveis da política, ou seja, tanto para presidente e governadores quanto para senadores, deputados, prefeitos e vereadores. O que você acha dessa idéia?

MJ - O sistema de reeleição ainda é novo no Brasil, para os cargos de prefeito, governador e presidente, por isso gostaria de testá-lo por mais tempo. Agora, se houver a intenção de acabar com a reeleição deve-se aumentar o tempo de mandato.

O melhor que o Brasil poderia fazer era discutir, a sério, uma reforma política com revisão em vários pontos que fortalecessem a constituição de um partido: fidelidade partidária, voto distrital, financiamento de campanha, etc.

CI - Quais são os rumos da política daqui para frente? O que esperar na disputa pela presidência de 2010?

MJ - A disputa pela presidência em 2010 já começou e o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, talvez tenha sido vítima deste processo dentro de seu partido.

Já o presidente Lula vai ter de usar de toda sua habilidade para conter a saga dos partidos que comporão seu governo pela manutenção do poder, a partir de 2010. Ou seja, em 2010, o primeiro problema será resolver as diferenças e disputas internas dos partidos.

O PT, por exemplo, terá de fazer ampla revisão interna e desta discussão, provavelmente, sairá o seu representante para a disputa da eleição nacional daqui quatro anos.

Quanto aos rumos da política daqui para frente, não tenho esperança de que haja mudanças no comportamento dos partidos e políticos. A esperança tem de ser no cidadão, este pode se capacitar a mexer no destino do País organizando-se, mobilizando-se, unindo-se a segmentos que lhe representem, fortalecendo-se para pressionar a autoridade pública a agir de acordo com o desejo da sociedade.