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Mídia: uma montanha-russa

Rizza de Matos

Desde o dia 12 desse mês o caos tomou conta de São Paulo. O movimento liderado pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), organizou ataques a policiais, rebeliões nos presídios, queima de ônibus e atirou bombas contra bancos. As ações foram um protesto da facção contra a transferência de alguns presos que lideravam o comando.A população paulistana entrou em clima de choque e pânico. O medo foi tão extenso que o comércio fechou suas portas mais cedo, e muitas faculdades suspenderam as aulas.

As emissoras não pouparam esforços para noticiar a crise. Com plantões e boletins, deixavam a sociedade a par da situação. Muitos só ficaram sabendo do caos por causa da TV. Nesse aspecto, ela cumpriu seu dever de utilidade pública.

Na segunda-feira, dia 15, a TV, se aproveitando da situação, levou ao ar uma programação “diferenciada”. O objetivo era mostrar a “cara do crime”. Foram exibidas reportagens especiais sobre o funcionamento dos celulares dentro das penitenciárias e algumas emissoras convidaram especialistas em segurança par opinar sobre a crise. William Bonner, do Jornal Nacional, chegou a apresentar as notícias fora dos estúdios. No entanto, as reportagens mostradas pela mídia geraram pânico sem precedentes nos cidadãos paulistanos. As pessoas deixaram de andar pelas ruas, alguns até se recusaram a ir trabalhar.

Com a exibição dos fatos criminosos as pessoas tiveram oportunidade de saber o que realmente estava acontecendo. Mesmo sem sugerir melhoras na segurança, as emissoras proporcionaram informações habilitando a tomada de precauções contra a ameaça urbana.

Mas existe o outro lado da moeda: a mesma TV que informou os fatos também incitou crime e vingança. Na quarta-feira, dia 17, uma emissora, com o objetivo de aumentar a audiência de seu telejornal, forjou uma entrevista com Marcos Camacho, o Marcola, líder do PCC. Essa falsa entrevista revela a perda do senso de jornalismo sério.

Outro ponto a ser avaliado foi o número de ataques em todo o estado. As emissoras deixaram a sociedade acreditar que os bandidos estavam ganhando. A mídia abriu espaço para os revoltados contra o sistema se esconderem atrás do PCC, realizando ataques contra a sociedade, propagando o terror entre a população e aumentando a popularidade da facção.

Mas não foi só a TV que noticiou os fatos dessa maneira. Os jornais impressos também, diga-se de passagem, foram responsáveis pela exaltação do terror. E mesmo as revistas semanais não escaparam desse sensacionalismo. Veja apresentou em sua capa uma reportagem na qual é traçado o perfil do líder do PCC (sua vida, como ele chegou ao poder, etc). A matéria contribui para transformar Marcola em uma celebridade nacional, dando-lhe a fama de gênio do crime.

Já a internet, por sua vez, foi o centro nervoso do terror na última semana. De lá, eram distribuídos centenas de e-mails alertando a população sobre o local e o horário de novos ataques, promovendo uma corrente de medo e desespero que extrapolou o mundo virtual e invadiu as ruas de São Paulo.

Todos esses exemplos levam a uma conclusão: a mídia tem a síndrome da montanha russa. Assim como o brinquedo, ela está sempre levando os cidadãos aos extremos. Ela transportou a sociedade ao ex-tremo do pânico, espalhou o medo pelo Brasil afora e em alguns momentos incentivou o crime e a violência, sempre em busca da audiência. Nestes tempos de crise, é importante deixar de acreditar que a mídia é a dona da verdade – é preciso usar a racionalidade em vez da emoção para lidar com as crises, sejam elas nacionais ou estaduais.

*Texto publicado originalmente na coluna Canal da Imprensa em O Regional (23/05/06).