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Fundamentos nada essenciais

André Leite

O Ministério das Comunicações tinha quatro propósitos principais para a implantação da televisão digital no Brasil. O desenvolvimento da ciência e da indústria nacionais, a democratização da comunicação, a inclusão social e a criação de uma rede de ensino à distância. Com a adoção do padrão japonês de modulação, o Integrated Services Digital Broadcasting ( ISDB), um dos objetivos iniciais foi posto automaticamente de lado: o desenvolvimento da ciência nacional.

Restaram três fundamentos

As principais qualidades do ISDB são a imagem de alta-definição e a mobilidade. Nenhuma delas, no entanto, fortalece a democratização da mídia. Ao contrário, a alta-definição do ISDB acaba por reforçar o oligopólio das emissoras de televisão atuais. Fazendo um uso completo de todo o espaço destinado a transmissão do sinal digital, a alta-definição impede a abertura de novos canais. Segundo a professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Regina Mota, “com o padrão japonês, o negócio fica como está”.

A concorrência continua como agora, no sistema analógico de televisão. Não entram novas emissoras na disputa. A qualidade da programação não tem a oportunidade de ser alterada. A democratização da comunicação fica apenas nos papéis das primeiras metas.

Restaram dois fundamentos

Numa época onde a ajuda ao mais necessitado é a principal meta do Governo Federal, as palavras sobre inclusão social e digital pregadas com a vinda da televisão digital parecem ser levadas pelo vento. A professora Regina Mota, que acompanhou de perto o desenvolvimento do abandonado Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), disse ter ficado surpresa em uma reunião com os diretores do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD). Ao falar sobre o relatório que tocava nas questões sociais da TV digital brasileira, o que ela ouviu foi: “não vamos mexer com a inclusão social não”.

Com tal resposta vinda das pessoas responsáveis por analisar o futuro da televisão no Brasil, é perceptível o interesse com aqueles que mais deveriam ser beneficiados com a nova tecnologia. Em um governo que se elege graças a ação social, a integração do cidadão com pouco ou nenhum acesso a Internet e toda a realidade digital é tida como insignificante.

Restou um fundamento

Um dos programas educacionais à distância mais difundido no País foi o Telecurso 2000 . Uma ótima forma de se transmitir cultura. Porém, como mais um programa da TV analógica, uma ação de mão única. A interação existente em salas de aula como a aplicação de testes e questionários e a correção dos mesmos pelos professores é algo impossível de ser feito com a atual transmissão televisiva. Porém, com a vinda do sistema digital de transmissão essa interação será possível. Levando-se em consideração que mais de 90% da população brasileira possui um aparelho de TV, o número de pessoas alfabetizadas poderá multiplicar-se de maneira única.

Interessante é que o Japão não possui quase analfabetos e um programa como o que necessita a realidade brasileira não foi desenvolvido lá. Intrigante ainda é lembrar que antes do Brasil apenas o Japão havia adotado o seu padrão de modulação digital. Mais intrigante ainda é saber que boa parte do ISDB é feito com softwares da Microsoft. Se uma adaptação era necessária para a implantação de uma eficiente rede de educação, agora ela submetida as ações da Microsoft . No mínimo, mais dinheiro será cobrado. No máximo, pouquíssimas alterações poderão ser feitas em relação à educação à distância.

Não restam fundamentos. Não restam objetivos principais. Resta apenas uma boa qualidade de imagem que não será acessível a todos, afinal, a alta-definição não pode ser adquirida apenas por conversores. A alta-definição custará, em curto prazo, 10 mil reais. O futuro da TV digital terá um alto custo. Custo pago pelas grandes emissoras do País. Custo que a maior parte da população não poderá pagar.