home |
 

“Eu tenho um sonho”

Andréia Moura

Ainda me lembro de minha primeira aula de jornalismo. A pedido do professor deveríamos escrever um texto opinando sobre a atitude da juíza Carla Rister, ao tentar revogar, em 2003, a necessidade de diploma para o exercício do jornalismo. Em toda minha inexperiência defendi a importância da formação universitária de maneira apaixonada. Aos argumentos infundados da juíza ("o jornalista não requer qualificações profissionais específicas, indispensáveis à proteção da coletividade, diferentemente das profissões técnicas”) respondi com certa insolência. Felizmente, a essa altura do campeonato já havia percebido que jornalismo não é ciência, mas jornalismo tem ciência.

Declarei enfaticamente que para ser jornalista era preciso mais que mera formação cultural diversificada, sólida. O jornalismo é uma arte movida por procedimentos técnicos que devem ser absorvidos na faculdade e pelo talento inato que é aprimorado, lapidado durante o período universitário. Hoje, quatro anos mais velha e quatro anos mais experiente, reflito sobre declarações que fiz no calor do idealismo. Me conforta saber que não estava equivocada e que esta verdade percebida por meus olhos ainda ingênuos, corresponde, indubitavelmente, a realidade. No entanto, que farei agora que, certamente não pela vontade da meritíssima Rister, tenho o sonhado diploma em mãos?

Não me resta dúvida alguma. Saio pelos portões desta instituição em direção ao mundo para fazer aquilo para o qual me preparei. Correr atrás da notícia. Medos? Muitos. Certezas? Apenas uma: não nasci para outra coisa senão para ser jornalista. Tal certeza sobrepuja meus temores e impulsiona a vontade que corre em minhas veias, noticiar. Como já dizia Mark Twain, “coragem é resistência ao medo, domínio do medo e não ausência do medo”.

Saio daqui para enfrentar poderosos, entrevistar intocáveis, dizer o que creio ser a verdade, investigar o que estiver oculto, lutar contra as injustiças sociais, denunciar aquilo que prejudique a sociedade. Utópico? Certamente, mas a questão está exatamente aí. O bom jornalista é movido por idealismo. Para que consiga exercer coerente e brilhantemente sua função precisa ser idealista. Considero esta, a doutrina mais importante que já aprendi.

O bom jornalista compreende que o mundo não é cor-de-rosa, mas ainda assim vive em constante perseguição de seus ideais. Seu bom trabalho nada mais é que resultado de sua busca incessante por tais objetivos utópicos. E é somente por compreender isso que admito: eu tenho um sonho. Com a permissão de Martin Luther King, sonho que um dia a verdade, o fato, serão mais importantes que as linhas editorias dos veículos e os jornalistas poderão escrever aquilo que deve ser dito. Tenho um sonho de que um dia a vergonhosa união entre política e jornalismo não impere mais neste País. Sonho que um dia jornalistas não serão abandonados no campo, durante exercício de sua profissão, porque seus empregadores não têm coragem de enfrentar mafiosos.

Neste dia, profissionais como Tim Lopes poderão ter suas vidas preservadas. Sonho que a polícia deste país desempenhe seu papel com honestidade e que proteja profissionais do jornalismo ameaçados em suas casas, sem deixar que estes sejam assassinados friamente sob os olhos de suas famílias. Sonho que um dia bons profissionais não pensem duas vezes em desenterrar falcatruas nem exitem em erguer o tapete para olhar de perto a sujeira. Sonho com um mundo onde falar a verdade e ajudar ao povo não seja crime.

É atrás destes sonhos que saio agora, com este diploma em mãos. Na busca por estes ideais é que, tenho certeza, desempenharei corretamente a função que me compete. Colocando em prática aquilo que me foi ensinado e que julgo ser o certo. Nada mais, nada menos. Não poderia terminar este texto de outro modo que não citando um dos trechos mais inspiradores escritos por Gabriel Garcia Márquez: "Pois o jornalismo é uma paixão insaciável (...) Ninguém que não a tenha sofrido pode imaginar essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida. Ninguém que não a tenha vivido pode conceber, sequer, o que é essa palpitação sobrenatural da notícia. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderá persistir num ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra se acaba depois de cada notícia como se fora para sempre, mas que não permite um instante de paz enquanto não se recomeça com mais ardor do que nunca no minuto seguinte”.

 

Nome: Andréia Moura

Nascimento: 14/04/1983

Experiência Profissional: Natural de São Paulo, SP, Andréia Moura chegou ao Unasp em 2003. Escreveu durante seis meses (fev/2004 à jul/2004) para a página da ACEAN (Associação Comercial e Empresarial de Artur Nogueira) no jornal Folha da Semana. Produziu 30 artigos para o Canal da Imprensa. Um ano de experiência na Unaspress, editora do Unasp (2005), como revisora e diagramadora. Revisou livros como O Fascínio dos milagres, O que Deus diz Sobre a Música, Cristãos em Busca de Êxtase, Educação para Escolha Profissional, Música Sacra Cultura e Adoração, Campo dos Quevedos. Escreveu para a Revista Escola Adventista, veículo no qual também foi editora associada. Diagramou a revista Acta Científica durante 2005. Trabalhou um ano na ABJ (Agência Brasileira de Jornalismo) como secretária de redação (2006), diagramou também a página que o Unasp produzia para o jornal O Regional.