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Além da profissão

Kimberly Santana

 

Concluir um curso superior faz parte de um processo importante para ingressar numa carreira profissional. Mas o mercado de trabalho infelizmente não favorece a todos. Para alguns, é muito complicado conquistar seu espaço. Já para outros, o primeiro emprego na área em que se formou vem mais cedo.

Para falar sobre o assunto o Canal conversou com a jornalista Cléia Kattwinkel, formada em Jornalismo em 2005 pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo – Unasp. Hoje Cléia trabalha em Kigali, Ruanda, e conta sua experiência no mercado de trabalho, os desafios, propostas, aprendizado entre outras coisas.

Canal da Imprensa – Como você recebeu o convite para trabalhar na África?

Cléia Kattwinkel - É uma longa história, mas vou resumir. Eu estava no Unasp e no meu último ano começou a nascer uma vontade de trabalhar na área social, ajudando as pessoas, e eu sempre quis conduzir a minha carreira nessa área. Eu conversava com as pessoas sobre isso, mas tudo parecia ser parte de um sonho bem distante. Então, no final do ano passado, exatamente no dia da entrega do meu TCC [Trabalho de Conclusão de Curso], uma amiga que conhecia outra pessoa que trabalhava no departamento de comunicação da Adra em Kigali, Ruanda, me ligou e perguntou o que eu achava da idéia de ir para África. Bem, quase caí da cadeira! Não podia acreditar no que estava acontecendo comigo. Depois disso foi todo um processo de mandar currículo, esperar por respostas, e me estressar tentando conseguir dinheiro pra passagem.

CI – Conte mais sobre o que é a Adra e o que você faz exatamente em Kigali.

CK – ADRA é Adventist Development and Relief Agency [Agência de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais]. Uma ONG normal, como qualquer outra. Meu cargo, na verdade, é de relações públicas, mas o que eu faço fica mais próximo do que um assessor de imprensa faria. Temos um website, publicamos um jornal, fazemos relatório anual, entre outras coisas.

CI – Por quanto tempo você vai trabalhar na África?

CK - Ao total vai ser pouco mais de oito meses. Era para ficar um ano, mas tive outra proposta de trabalho e estou voltando antes.

CI – Como você fez para se adaptar à língua?

CK – Aqui é tudo em inglês*, o que é um desafio. Eu era fluente na fala, mas não na escrita, por isso apanhei bastante no início.

CI – Então, falar outra língua fez toda a diferença pra você...

CK - Toda diferença! Aliás, sem inglês seria impossível.

CI - Foi difícil entrar no mercado de trabalho?

CK - Não posso falar que foi difícil, meu caso foi bem diferente, foi por indicação. Não precisei competir com muita gente. Ainda mais porque não é todo mundo que está disposto a ir para a África e nem todos tem a vantagem da língua também.

CI – Nesse caso pode-se ver que ter contatos é muito importante, não é?

CK - Com certeza! Facilita tudo! Na verdade, penso que em qualquer situação da vida, contatos fazem toda a diferença.

CI - Como é acabar de se formar e já sair trabalhando numa instituição grande como essa?

CK - No começo é um pouco assustador. Você muda de país e já entra numa organização grande! Mas está sendo fantástico.

CI – De acordo com a experiência que você tem agora, o que mudou na sua visão sobre o mercado de trabalho?

CK - O que eu posso dizer é que, na verdade, não é tão “romântico” como imaginava. É empolgante em certos momentos e muitas vezes frustrante, ou simplesmente chato. Mas existem outros momentos que realmente te empolgam e te dão energia para o resto. Eu continuo vendo o mercado de trabalho como um desafio, e mais do que nunca vejo a necessidade de crescimento e procura por mais conhecimento, principalmente quando você tem um departamento na mão. Daí você percebe o quanto ainda tem para aprender e dá vontade de voltar para o primeiro ano da faculdade. Como isso não é possível, vamos procurando o nosso caminho. Imagino que essa seja a melhor forma de aprender. Penso também que isso é normal. Enquanto você está na faculdade, na verdade, você não sabe o quanto vai precisar de toda aquela informação da sala de aula, mas principalmente dos conselhos práticos que os professores nos dão.

CI - Mas você se sente satisfeita com seu trabalho?

CK - Com certeza. Apesar de ter enfrentado muitas dificuldades, principalmente com a barreira da língua e do próprio sistema interno de onde trabalho (que também é novo e também está descobrindo seu próprio caminho na área de comunicação), não trocaria esta experiência por nenhuma outra. Para ser honesta, estou muito apaixonada pela área de desenvolvimento (social). Mas muitas vezes é difícil escolher no que você vai trabalhar, ainda mais quando se está começando a carreira. Você acaba optando pelo “emprego” mesmo. Entre trabalhar em uma área que você não gosta muito e ficar desempregada, é preferível estar empregada, não é? Mas com certeza o ideal sempre existe e deve ser buscado. Tudo tem seu tempo. Ou seja, devemos ter um objetivo claro, mas estar dispostos e abertos a passar por todas as etapas necessárias pra chegarmos lá.

CI – Conte sobre alguma experiência interessante sobre você aí na África.

CK - O que posso falar em relação a isso é como me senti na primeira vez que fui ao campo de trabalho, fora do escritório. Fui para o interior, visitar um dos projetos da Adra, e o que eu ví lá foi exatamente tudo aquilo que a mídia já tinha me dito. Nada era novidade em termos de conhecimento. Eu sabia das pessoas que moravam em casas de barro e cobertas com palha. Sabia que muita gente vive na mais completa miséria. Mas foi totalmente diferente chegar lá e ver. Assim como nenhum jornalista conseguiu transmitir para mim a realidade, sei que também não posso transmitir agora, não dá para explicar. Foi aí que eu vi o quanto o jornalismo, ou a área de comunicação ainda deve crescer ou melhorar, ou achar o seu caminho. Foi bem complexo o que eu percebi naquele momento. Percebi que na verdade não temos todo o poder que pensamos que temos, sabe? Quando você lê sobre uma catástrofe em qualquer lugar, que duas ou três mil pessoas morreram, você pensa “ah, nossa, que coisa!”, e passa para a próxima página, e na verdade, todas aquelas pessoas continuam lá sofrendo, morrendo, etc.

CI – E você está vendo isso de perto agora...

CK - Exatamente. Eu vi todas aquelas pessoas que não têm água encanada dentro de casa, nem banheiro, nem assoalho, muito menos eletricidade. E o que mexeu comigo de verdade e posso dizer que me mudou para sempre minha vida foi ver o sorriso deles ao nos verem. Não foi triste, foi emocionante, inexplicável. Entender que eles não são números ou porcentagens, sabe?

CI - Eles sabem que vocês chegaram ali pra dar ajuda.

CK - Claro que sabem, mas a alegria deles é vir passar a mão no meu braço para sentir a textura da pele branca, ou simplesmente pela curiosidade. O que me impressionou é que não vi nenhum deles reclamando da vida. Estavam ali, felizes por nos verem, sem pedirem nada, só admirando nossa presença. Estavam rindo, rindo muito. Cada vez que eu olhava nos olhos de alguma criança, ou mesmo das mulheres, e sorria, elas riam de vergonha até contentamento. Foi aí que eu também percebi que tudo o que fazemos é muito distante da realidade. Enchemos um jornal com as informações mais importantes e mais chocantes, e a pessoa lê e passa para a página seguinte. Na verdade, acabamos contribuindo pra que o leitor perca o senso de realidade do que é só imagem.

CI – Foi assim que você sonhou em trabalhar?

CK - Depois dessa visita percebi que é preciso fazer mais. Por isso, quando me perguntam se era assim que eu sonhava as coisas acontecendo pra mim, digo que sim. Na verdade aconteceu muito mais do que eu sonhava, foi além. A experiência de uma outra cultura é uma coisa fascinante, mas a questão social cresceu muito dentro de mim, e sei que o jornalismo tem tudo a ver com isso, apesar de quase não se dar ênfase nisso enquanto estamos na faculdade. Em resumo, esta primeira visita marcou demais minha carreira, e posso dizer que deu outro rumo a ela, porque minha prioridade de agora em diante é me dedicar à área social, dentro ou fora do jornalismo.

inglês*: deve-se lembrar que as línguas oficiais em Ruanda são o francês e o quiniaruanda ou quissuahili.