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...o cinema brasileiro investisse em filmes de cunho investigativo?

Daniel Liidtke

(Take 1)

Mais um toque na sala de redação da Folha . O barulho insistente do telefone finalmente encontra um ouvido disposto. Ao burburinho do lugar, mistura-se imediatamente uma trilha de suspense. Do outro lado da linha, uma voz tensa se identifica como Roberto Jefferson. Ele tinha uma denúncia.

Mas como num bom filme, o tal Jefferson não entrega o assunto de bandeja, muito menos as cabeças que nela seriam colocadas. Marca entrevista. A jornalista suspira forte e sente que em breve participará de uma grande reportagem.

E nós, do lado de cá da tela, temos certeza que assistiremos a um grande filme.

(Produção)

O Brasil tem uma riqueza ainda pouco – ou quase nada – explorada: o cinema de cunho investigativo. Num país de tanta estrutura jornalística, o ouro continua inutilizado. Com tantos casos estourando – e estourados – nas esquinas, com tantos repórteres competentes e especializados em investigação, e uma produção cinematográfica crescente, o Brasil poderia usar a sétima arte para difundir histórias que dariam ampla repercussão social. Seria a era de ouro do cinema brasileiro.

Os Estados Unidos já garimpam com sucesso essa área. Filmes como Todos os homens do presidente, Capote , O informante , O Jornal , O grito de liberdade , Os gritos do silêncio e outros gritos, fizeram sucesso no cinema ao alardear histórias reais, montadas como grandes reportagens.

Bem, enquanto isso, o Brasil contenta-se com seus pedregulhos de sexo, violência e humor. Mas pelo menos alguns estão tentando entrar na trilha da investigação.

(Já nas locadoras)

Carandiru , inspirado no livro do médico Dráuzio Varella, chegou perto. A questão é que não foi bem jornalismo investigativo, já que trata-se de um romance vivido pelo próprio Varella.

Em Cidade de Deus , O que é isso Companheiro? e Redentor , jornalistas ocupam papéis periféricos, mas não protagonistas de uma investigação. Já Olga é resultado da pesquisa histórica do jornalista Fernando Morais de seu livro publicado em 1985. O filme conta a história de uma judia alemã e militante comunista, recrutada pelo governo soviético para proteger Luís Carlos Prestes, que seria seu esposo. Olga aproxima-se da idéia de jornalismo investigativo, e parece abrir portas para o estilo.

(Aguarde!)

Já que muito do sucesso do cinema brasileiro resulta de livros, por que não esperar a cinematização de obras como Narcoditadura , de Percival de Souza e Rota 66 , de Silio Boccanera, entre tantos?

Esse parece ser o caminho do sucesso do cinema brasileiro: filmes com “conteúdo”, de relevância nacional e até mundial, e que de alguma forma contribuirão para formar opinião. Como sétima arte, integrando todos os elementos – som, cor, volume, espaço, palavra e movimento – das outras seis artes, o cinema é que tem maior poder de influência social. Mais que entretenimento, nosso cinema seria notícia.

Talvez esse seja o grande filão do cinema do País.

E se... realmente o cinema brasileiro investisse em filmes de cunho investigativo?

(Bastidores)

Mais um toque na sala de estar da casa de Roberto Jefferson. Dessa vez, na vida real. Antes de colocar o telefone no ouvido, ele já ouve os gritos neuróticos de sua tia explodindo no fone:

- Jefferson, ligue a TV agora! O filme com a história do mensalão ganhou o Oscar de melhor filme! Você tá em Hollywood!

- Sério? – Exclama o sobrinho. – Acho que vou fazer outras denúncias!

(The End)