home |
 

O show tem que acabar*

Charlise do Carmo

Denotando o poder que a mídia exerce sobre o ser humano, o filme O Show de Truman , de Peter Weir, retrata a mídia como um deus ditador que manda e desmanda no público, influenciando-o no que quiser. Considerado como uma das idéias mais originais do cinema norte-americano, o filme traz o ator Jim Carrey como o protagonista Truman Burbank. A personagem é casada com Meryl (Laura Linney) e trabalha em uma agência de seguros. 

Truman não tem consciência de que é o personagem principal de um reality show em tempo integral. Sua vida é exposta a milhares de espectadores desde o momento de seu nascimento. Sua mulher, patrões e vizinhos são atores que contracenam com ele. O personagem vive literalmente num cenário, a Ilha de Seahaven, construído exatamente para abrigar o espetáculo. 

Passam-se 30 anos ininterruptos da transmissão do "show" da vida de Truman. A direção de produção faz com ele sofra um trauma na infância, ao perder seu pai em acidente no mar. Entretanto, com uma quebra de roteiro, depois de muitos anos, Truman encontra seu "pai" na rua, e sob ordens do diretor, os contra-regras cercam seu pai-ator para tirá-lo de cena e não colocar nada a perder. Procurando-o, entra num prédio onde flagra o estúdio.

A partir desse momento Truman começa a despertar para a realidade e começa a se dar conta que seu "paraíso" é um cenário. Se assim podemos chamar, o "deus" (diretor), Christof, não consegue mais controlar sua vida. Truman resolve enfrentar seus medos, inclusive o mar, deixando claro que não quer participar mais desse grande espetáculo. A direção tenta evitar que isto aconteça, se colocando no lugar de Deus unicamente por uma questão de possível queda de audiência e da não aceitação popularesca. Uma vez que Truman aceitou o desafio de sua consciência, ele passa a não ser mais dirigido por Christof. Encontra a saída do estúdio e se liberta. Assim os telespectadores, que por mais de 30 anos acompanharam este show, simplesmente mudam de canal.

A linha que a direção do filme tomou com o protagonista critica a invasão da privacidade pela mídia. O filme é válido e traz a realidade cotidiana e, infelizmente, manipuladora da mídia. Este filme é um pouco cruel, mas  reflete no que muitas vezes acontece conosco, onde a mídia toma as decisões.

A televisão, por exemplo, faz e coloca no ar o que o povão quer, sem se importar com os valores éticos da sociedade. O programa Big Brother Brasil , exibido pela rede Globo, onde 12 participantes eram vigiados 24 horas por dia, é um exemplo disso. A única diferença é que era com o consentimento dos participantes. A curiosidade mórbida pela vida alheia parece ser um fenômeno contemporâneo da bisbilhotice. Como a audiência nestes programas é satisfatória, isto sempre vai se repetir. 

Reconheçamos que muitas criaturas da sociedade pós-moderna têm um pouco da ingenuidade e hipnotização de Truman. Não agem e nem possuem vontade própria, sendo dirigidos e manipulados pela mídia e, conseqüentemente alienados. A eterna platéia deve acordar para realidade e não ser mais um fantoche nas mãos da mídia.

*resenha publicada originalmente em 27 de novembro de 2002, na 8ª edição

Ficha Técnica

Título Original:   The Truman Show
Gênero:  Drama
Tempo de Duração: 102 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1998
Estúdio: Paramount Pictures
Distribuição: Paramount Pictures / UIP
Direção:  Peter Weir
Roteiro: Andrew Niccol
Produção: Edward S. Feldman, Andrew Niccol, Scott Rudin e Adam Schroeder
Música: Philip Glass e Burkhart von Dallwitz
Direção de Fotografia: Peter Biziou
Desenho de Produção: Dennis Gassner
Direção de Arte: Richard L. Johnson
Figurino: Marilyn Matthews
Edição: William M. Anderson e Lee Smith
Efeitos Especiais: The Computer Film Company / Cinesite Hollywood / EDS Digital Studios


Elenco

Jim Carrey (Truman Burbank)
Ed Harris (Christof)
Laura Linney (Meryl)
Noah Emmerich (Marlon)
Natascha McElhone (Lauren Garland / Sylvia)
Holland Taylor (Mãe de Truman)
Brian Delate (Pai de Truman)
Blair Slater (Jovem Truman)
Peter Krause (Lawrence)
Heidi Schanz (Vivien)
Ron Taylor (Ron)
Don Taylor (Don)
Paul Giamatti (Diretor da Sala de Controle)
Philip Baker Hall (Executivo)