Uma notícia de assassinato no jornal. Para jornalistas policiais, mais uma. Até aí nada fora do comum, milhares de pessoas morrem assassinadas no mundo todos os anos. As vítimas, uma família do interior, pacata região de fazendas com uma sociedade bem ortodoxa e cristã. Poderia esse evento transformar o jornalismo? Trumman Capote achou que sim e mudou a maneira de escrever.
Com seu faro literário, mais que jornalístico, Trumman transformou um relato de jornal em um livro considerado por muitos fantástico. O assassinato da família Clutter na cidade de Holcomb, interior do Kansas, atraiu o escritor que tinha o feeling* de uma grande reportagem.
Em 16 de novembro de 1959, Trumman Capote, da revista The New Yorker , após ler no New York Times o relato do crime na fazenda de trigo da rica família, parte para investigar o fato. O dono da fazenda, o sr. Clutter, tinha fundado a Associação dos Plantadores de Trigo de Kansas e sido nomeado pelo presidente Eisenhower como o responsável pelo Crédito Agrário do país.
Trumman passou meses naquela pequena cidade investigando os fatos que envolviam o crime tendo como foco de sua pesquisa os assassinos. “Dois mundos existem neste país, o calmo conservadorismo e as vidas desses dois homens – os violentos criminosos. E esses dois mundos convergiram naquela sangrenta noite”, escreveu posteriormente em seu livro.
Quando chega para investigar o crime, Capote é mal visto pelo investigador, por ser jornalista de Nova Iorque. Mas Trumman consegue contornar a situação conquistando a amizade do investigador e de sua esposa. Com isso Capote consegue entrar nas celas sem restrições e ter acesso a documentos da investigação enquanto os criminosos não fossem executados.
Durante as entrevistas, Trumman afirma que os criminosos eram uma mina de ouro na tentativa de convencer seu chefe a enviar mais dinheiro para o projeto do livro. O valor de uma vida para um livro era preciosíssima para Capote. Com o tempo ele se envolve emocionalmente com Perry Smith e Dick Hickock. Os assassinos haviam sido capturados em Las Vegas alguns meses após o crime e devolvidos ao Kansas, onde foram condenados à forca.
Com o decorrer das entrevistas, Capote começa a descobrir que Perry, um dos assassinos, teve uma infância parecida com a sua. Foi rejeitados pelos pais e criado por parentes próximos. Perry torna-se criminoso e, por $50 dólares, resultado do roubo na fazenda dos Clutters, é condenado à forca. Já Capote torna-se um famoso escritor e, após escrever sobre a vida do que se tornara seu amigo, o assassino Perry, morre de alcoolismo em 1984 sem conseguir escrever outra obra.
As investigações de Trumman abalaram seu emocional. A sangue frio, título dado por Trumman pela forma como ocorreu o assassinato, mudou não só o jeito de relatar crimes de uma maneira literária e jornalística, como também a vida do próprio autor e de Perry.
O filme foi indicado a 4 oscars , e o livro difundiu o gênero não ficcional, ou sem ficção. Tanto o livro quanto o filme de Capote são recomendados a jornalistas e estudantes. A sua “arrogância” por tentar revolucionar o mundo com seu livro acabou dando certo. “Este é o livro que eu sempre fui feito para escrever”, afirma Capote. Ele investiu nesse sonho e tinha talento para isso. Sonho sem talento e esforço não podem ser realizados no jornalismo.
Apesar de receber algumas críticas de seus colegas escritores, o filme mostra que Capote acreditava em seu projeto e foi em frente. Meses de investigação e anos para escrever o que resultaria no seu livro. Perseverança e sacrifício são lições fundamentais que um jornalista deve aprender ao investigar qualquer que seja o fato.
Sentimento no jornalismo
O filme também mostra a forte relação entre as pessoas e os fatos. Isso parece óbvio, mas muitas vezes o jornalismo tenta transparecer uma impessoalidade nas notícias. Capote convida o espectador a refletir sobre a influência emocional de um evento. O repórter Trumman, por mais que tentasse se esquivar do envolvimento com um dos assassinos, ele mesmo confessou que considerava Perry Smith como um irmão. “É como se Perry e eu tivéssemos nascido na mesma casa. E um dia eu saí pela porta da frente e ele pela porta de trás”.
Esse envolvimento abriu as portas para uma maior humanização na maneira de relatar os fatos em jornais e livros-reportagem. Esse estilo foi mais popularizado com o livro de Capote. No Brasil, esse estilo foi denominado como Novo Jornalismo, com ênfase em livros-reportagem. Os pioneiros a usarem essa forma mais emotiva ou humanizada de jornalismo foram a revista Realidade e o Jornal da Tarde. Muitos jornalistas criticam o estilo de A sangue frio, afirmando que ele seria mais uma análise psicológica com muita opinião do autor ao invés do jornalismo objetivo.
Os extremos do objetivismo seco e da reportagem opinativa devem ser evitados. Capote nos lembra, no entanto, que é impossível uma total neutralidade. De imparcial no jornalismo existe apenas o próprio fato. Mas Capote queria ir além dos fatos e mostrar uma realidade maior. O impacto social e emocional do crime era o objetivo de Capote.
Quando Perry estava doente, o próprio Trumman lhe deu papa na boca. O escritor conseguiu advogados para adiar e, se possível, até mudar o resultado do veredicto. A amizade com o investigador Alvin Dewey lhe garantiu livre acesso à delegacia. Já a amizade com os criminosos lhe garantiu informações preciosas para seu livro. Seu envolvimento foi emocional, mas não deixou de ser profissional. Empatia, sentir a emoção dos outros, abriu as portas para Trumman e abrirá as portas para o jornalista de hoje também.
Ainda outros detalhes são importantes notar. O talento de Capote em fazer seu trabalho bem feito lhe deu credibilidade perante seu chefe para fazer esse grande projeto com investimento da empresa. Sem esse apoio, A sangue frio talvez nunca existiria. Capote afirmava que se lembrava exatamente de 94% das entrevistas e que não usava gravador nem bloquinho. Se isso era verdade ou não, o fato é que o melhor a ser feito é possuir as informações gravadas de forma mais seguras possíveis, enquanto não se chega no nível de um Capote. Essa deve ser uma busca incessante, melhorar cada vez mais na prática do jornalismo. E quem sabe daqui a alguns anos poderemos como jornalistas mudar a vida de muitas pessoas.
* feelling – expressão usada nos Estados Unidos como pressentimento, sentir que algo possa ocorrer, não premeditar, mas sentir a situação. |