Quem assiste ao filme Cidade de Deus (2002) defronta-se, sem saber, com uma espécie de mandala. A película abre espaço para a meditação transcendental, dando vida a tipos que vão desde o traficante sem escrúpulos, passando pelo bandido gente-fina e o adolescente preocupado em mudar de vida e perder a virgindade, até chegar ao cobrador de ônibus que cai no crime para salvar a honra. Nela, o ponto focal é o próprio homem, mergulhado em sua mais profunda repugnância e pluralidade. O mantra - a saber, o efeito hipnótico - fica por conta dos palavrões, que permeiam toda a narrativa.
Aos desavisados, segue-se a definição de mandala: um diagrama tântrico composto de formas geométricas concêntricas com o único fim de inspirar a meditação. Assim é Cidade de Deus desde sua cena inaugural, em que galinhas são degoladas antevendo o derramamento de sangue posterior. Na seqüência, uma história não-linear, que volta aos anos 60 para descrever o processo de "profissionalização" criminosa do conjunto habitacional que dá nome ao filme: do amadorismo dos assaltos do "Trio-Ternura" à truncada rede de tráfico de drogas de Zé Pequeno (Leandro Firmino) e Bené (Phellipe Haagensen).
À primeira vista desorientada, a câmera do diretor Fernando Meirelles valoriza ângulos inusitados das personagens e dos ambientes. A fotografia do uruguaio César Charlone contribui para a sensação de gastura e incômodo que toma conta do espectador. Soma-se a elas o moderno encadeamento das cenas, em formato de hipertexto, sob o comando de Daniel Rezende. Por fim, destaque para o adaptador do roteiro, Bráulio Mantovani, da obra original de Paulo Lins (Cia das Letras, 1997).
Não é à toa que Cidade de Deus foi indicado ao Oscar em todas as categorias acima. A mandala ultrapassou as fronteiras do solo brasileiro, conquistou o apoio do todo-poderoso da produtora Miramax, Harvey Weinstein, e driblou o conservadorismo dos votantes da Academia. Como se sabe, ficou a ver navios na premiação, em parte por causa do rolo compressor da última seqüência de O Senhor dos Anéis , em parte por causa da previsível incompatibilidade com os padrões cinematográficos de Hollywood.
Já era assim desde 2002, quando a Academia rejeitou a película por considerá-la agressiva e realista demais. Hipocrisia. A violência, grande gancho do filme, não é gratuita ou estereotipada como as aventuras policialescas de 007, para ficar em um só exemplo. É verdade que Cidade de Deus ultrapassa limites, ousa, escandaliza. Mas todo abuso é necessário, pois só assim atinge o espectador em seus pontos mais frágeis, um deles, a sensibilidade diante da perda da inocência.
Tome-se como exemplo a clássica cena em que dois moleques são forçados pela gangue de Zé Pequeno a escolher se levam um tiro na mão ou no pé. Na seqüência, uma terceira criança, que havia dedurado as outras para salvar a própria pele, tem que escolher uma das duas para fuzilar - uma espécie de teste de fogo para entrar na trupe de "gente grande". Nesse momento, as vísceras do espectador estão saltando pela boca, enquanto suas mãos, entre o tremor e a contenção, procuram tapar os olhos, como quem tapa o sexo, excitados num misto de vergonha e pudor.
Meirelles demonstra, à queima-roupa, todo o falso moralismo - favor não confundir com moralidade - a que a platéia de cinema se rendeu, em favor da estética norte-americana e do entretenimento descartável. Não se trata aqui de incentivar o uso habitual de cenas do mesmo calibre sob o argumento clichê do merchandising social. Espera-se, porém, que a sétima arte seja corajosa o bastante para ultrapassar limites estilizados e visionária o suficiente para enxergar o que camadas conservadoras da sociedade preferem astutamente esconder.
No entanto, nem tudo é motivo para comemoração. Os resultados práticos de Cidade de Deus assemelham-se aos da mandala: são questionáveis. Pra começar, a maioria dos projetos governamentais para a favela estimulados pelo filme - as meninas dos olhos de Meirelles - não passou do papel. Além disso, a comoção social que a trama causa oscila naquele espaço entre a alienação e a atitude. Se incentiva a meditação, fracassa na mobilização; beira o ócio.
De tão profunda, Cidade de Deus torna-se ilusória, mística como a mandala. Paradoxalmente, o filme causa espamos seguidos de inércia. E só. A reafirmação de que é a polícia - e, por conseqüência, toda a classe média - quem autoriza a organização dessa subsociedade não implica na tentativa de mudar a situação. O efeito hipnótico dura o mesmo tempo que a película: pouco mais que duas horas. Ao sair do cinema, o espectador se preocupa em limpar o vômito da roupa. E segue rumo ao Leblon.
*resenha publicada originalmente em 18 de março de 2004, na 26ª edição
Ficha Técnica
Título Original: Cidade de Deus
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 135 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2002
Direção: Fernando Meirelles
Co-direção: Katia Lund
Roteiro: Bráulio Mantovani
Produção: O2 Filmes, VideoFilmes, Andrea Barata Ribeiro e Mauricio Ramos
Co-Produtores: Walter Salles, Donald K. Ranvaud, Daniel Filho, Hank Levine, Marc Beauchamps, Vincent Maraval e Juliette Renaud
Produção executiva: Elisa Tolomelli
Fotografia: César Charlone
Direção de Arte: Tulé Peake
Edição: Daniel Rezende
Oficina de atores: Nós do Cinema e Guti Fraga
Preparação de atores: Fátima Toledo Elenco
Elenco
Matheus Nachtergaele (Sandro Cenoura)
Seu Jorge (Mané Galinha)
Alexandre Rodrigues (Buscapé)
Leandro Firmino da Hora (Zé Pequeno)
Roberta Rodrigues (Berenice)
Phellipe Haagensen (Bené)
Jonathan Haagensen (Cabeleira)
Douglas Silva (Dadinho)
Gero Camilo (Paraíba)
Jefechander Suplino (Alicate)
Alice Braga (Angélica)
Emerson Gomes (Barbantinho)
Édson Oliveira (Barbantinho - adulto)
Luis Otávio (Buscapé - criança)
Maurício Marques (Cabeção) |