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Valores jornalísticos*

Jairo Souza

Devido ao imediatismo da vida no século XXI, a praticidade tem tomado forma, sedimentando-se em cada instituição social. Com o passar dos anos, macarrões instantâneos, fornos microondas e compras via web tornaram-se parte do cotidiano, representando um pouco do vasto arsenal pragmático do complexo mundo pós-moderno.

Interessante é notar que quanto mais a modernidade busca o fetiche da praticidade, mais burocrática se converge. Trinta segundos podem ser irrelevantes, visto que temos 2.880 períodos deste por dia. Contudo, se este é o tempo que se leva para abrir uma página na "amada, idolatrada, salve-salve", rede mundial de computadores, esqueça.

Levando-se em conta celulares incomunicáveis em meio ao trânsito, TVs fora de sintonia na hora do jogo tão esperado e o previsível engarrafamento das 19h, não é difícil abalizar a notória afirmação de um sábio pensador da modernidade: "O homem construiu computadores para resolver os problemas que ele não tinha". Aliás, qual a última vez que você leu um jornal inteiro? Se o que fez foi checar as principais manchetes e ir direto ao seu caderno favorito, você é absolutamente normal.

Falando em jornalismo, vale trazer à tona o filme O Jornal , dirigido por Ron Howard e estrelado por Michael Keaton. Evocando esta realidade, o filme agrega grande importância a manchetes e chamadas. Com fama de sensacionalista, a regra máxima era "detonar" nos títulos, compor frases criativas e, de preferência, comerciais que, por sua vez, significavam cifras ao patronato.

O chefe de reportagem Henry Hackett (Keaton) precisa conciliar a gravidez de sua esposa, a repórter Martha Hackett (Marisa Tomei), com o expediente diário, permeado pelo diretor de redação desenganado (Bernie White), a chefe de redação mal-amada (Glenn Close) e uma notícia incompleta. Hackett vive uma série de problemas ao decidir investigar o assassinato de dois empresários brancos, pois não acredita que os culpados sejam os dois jovens negros que foram presos. Vivendo no agitado convívio da redação do tablóide The Sun , Hackett busca frenética e desesperadamente por fontes e fotos para completar a manchete.

Pode-se dizer que o ápice de O Jornal ocorre durante a rodagem do veículo, quando Hackett e a chefe de redação, Alicia Clark discutem. Já nas rotativas, o jornal corre com a sensacionalista manchete 'Agarrados'. No entanto, Hackett descobriu que os acusados eram inocentes. Alicia bate o pé e exige que a edição circule da forma que está. Nota-se aí o conflito entre o número de exemplares vendidos e a dívida com a informação real.

A questão dos títulos representa um habitat ideal para a fomentação do sensacionalismo e da parcialidade. A primeira, através do "jornalismo barato", estampa manchetes em letras garrafais e cores berrantes, as mazelas da sociedade. A segunda, mais refinada, ocorre na penumbra das salas patronais onde, utilizando-se de subterfúgios e métodos escusos, seleciona-se o que é e o que não é notícia, ou o que deve ser primado ou preterido. Deste modo, vende-se a notícia cabal lucrando muito além do que é recolhido nas esquinas das grandes metrópoles.

É válido ressaltar a ênfase que Alicia e Hackett dão aos títulos, suprimindo a importância intrínseca dos textos. Ao redigir, o jornalista pode utilizar-se dos vastos recursos da escrita para driblar a censura patronal e expor, mesmo que nas entrelinhas, fielmente os fatos.

O filme lida com dois princípios básicos de um jornal: o compromisso com a verdade e as dificuldades de seus profissionais em associar profissão e vida particular, evocando assim uma análise sobre a ocupação e a missão do jornalista. Muito mais relevante que o formato jornalístico ou política editorial aplicados às manchetes é o acordo invisível entre ética e verdade. Sem ele, a função jornalística perderia o sentido. Pode parecer um tanto apelativo, mas é preciso recuperar do ostracismo tais valores.

Ah, só para encerrar. Hackett venceu a briga e o The Sun foi impresso novamente, desta vez com a manchete correta. Infelizmente, na maioria das vezes, o final feliz só ocorre em Hollywood.

*resenha publicada originalmente 02 de outubro de 2002, na 4ª edição

Ficha Técnica

Título Original:  The Paper
Gênero:  Comédia
Tempo de Duração: 88 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1994
Estúdio: Universal Pictures / Imagine Entertainment
Distribuição: Universal Pictures / UIP
Direção:  Ron Howard
Roteiro: David Koepp e Stephen Koepp
Produção: Brian Grazer e Frederick Zollo
Música: Randy Newman
Direção de Fotografia: John Seale
Desenho de Produção: Todd Hallowell
Figurino: Rita Ryack
Edição: Daniel Hanley e Mike Hill

Elenco

Michael Keaton (Henry Hackett)
Robert Duvall (Bernie White)
Glenn Close (Alicia Clark)
Marisa Tomei (Martha Hackett)
Randy Quaid (Michael McDougal)
Jason Robards (Graham Keighley)
Jason Alexander (Marion Sandusky)
Spalding Gray (Paul Bladden)
Catherine O'Hara (Susan)
Lynne Thigpen (Janet)
Jack Kehoe (Phil)
Roma Maffia (Carmen)
Clint Howard (Ray Blaisch)
Geoffrey Owens (Lou)